CIÊNCIA

"A questão do Líbano seria a mais difícil de contornar"


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“Gabinete de Guerra” na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito, hoje com o tenente-general Marcos Serronha. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Médio Oriente. O Irão admite que uma delegação do país vai a Doha esta semana, mas nega que tenha alguma coisa a ver com o encontro com os Estados Unidos. Um esclarecimento que surge depois de Donald Trump ter anunciado este tal encontro amanhã na capital do Qatar, com a porta-voz da Casa Branca mesmo a dizer que Steve Witkoff e Jared Kushner devem viajar amanhã para a capital do Qatar. A avaliar pela postura iraniana, acha que vai ser esta uma viagem em vão?
Não sei, vamos lá ver. A forma como este memorando foi construído, levou, embora tivesse demorado, como sabemos, um tempo relativamente largo, a haver um acordo, tem muitas zonas cinzentas relativamente à aplicação do acordo, naturalmente. E portanto, há aqui questões que o Irão interpreta de uma maneira, os Estados Unidos interpretam de outra. A ideia inicial era entrar-se num processo de negociação técnica das questões dos detalhes aos pontos todos e não haver violações muito graves ou muito visíveis relativamente ao que está no acordo. Aquilo que é um dos pontos centrais do acordo, que é a questão do Estreito de Hormuz. Sobre a questão do Líbano, já antecipávamos que isto não ia correr bem, naturalmente. Sobre a questão do Estreito de Hormuz, pelos vistos, há aqui detalhes relativamente à posição do Irão que não eram exatamente aquilo que estava em linha com aquilo que os Estados Unidos tinham afirmado, nomeadamente, a liberdade de navegação completa no Estreito. E o Irão não está a fazer isso. Quando um navio não informa antecipadamente que vai passar, independentemente de não haver grande visibilidade sobre se está a pagar alguma coisa ou não, mas de qualquer modo, o direito de passagem o Irão interpreta como estando na sua mão. E já atingiu navios que de algum modo não informaram os funcionários relativamente à sua passagem. À luz daquilo que os americanos e que o presidente Trump têm dito, é uma violação grave do memorando de entendimento. Essa é uma questão que tem que ser esclarecida, naturalmente. É evidente que o Irão está numa posição, neste momento, mais frágil sob esse ponto de vista, porque os Estados Unidos de algum modo têm penalizado sempre que isto tem existido, obviamente, com os ataques.
O Irão está aqui a negar este encontro com os Estados Unidos. Donald Trump diz que há, de facto, reunião marcada para amanhã. Em que é que acreditamos?
As narrativas do lado dos Estados Unidos e as narrativas do lado do Irão já percebemos que são adequadas à interpretação que os dois líderes fazem relativamente, essencialmente, às suas audiências internas. E o Irão não quer ir para o Qatar numa posição de fragilidade para discutir um assunto sobre o qual foi penalizado já duas vezes. Com ataques relativamente a questões que têm a ver com o Estreito de Hormuz. Não quer fazer passar em termos internos que vai ter que ir a Doha negociar uma questão que, do lado do Irão, julga que tem razão, mas que, pelos vistos, pelo menos, não há uma interpretação clara sobre isso. Portanto, essa questão tem que ser dirimida, e provavelmente o melhor sítio para dirimir não seria Genebra, naturalmente, na Suíça, mas muito provavelmente, de facto, ali num país do Golfo, onde vai ter que se discutir isso.
Já tocou neste ponto, mas vamos olhar melhor para isto. O ministro da Defesa de Israel avisou hoje que a ocupação israelita no Líbano é de longo prazo. Reiterou também que as tropas não se vão retirar nem 1 cm até que o Hezbollah seja desarmado. Acha que vai ser esta questão de Israel e do Líbano o principal ponto a comprometer o acordo entre Estados Unidos e Irão ou, por outro lado, acha que este tema pode vir a ser ultrapassado?
Todos nós que acompanhamos este processo percebemos que esta questão do Líbano seria, eventualmente, vamos ver se será a única, a questão mais sensível e mais difícil de contornar. Aí as posições estavam relativamente claras, tanto do ponto de vista do Irão como do ponto de vista dos Estados Unidos. Agora, há aqui uma zona cinzenta que tem a ver com a violação do cessar-fogo e quem é que é responsável pela violação do cessar-fogo. Não há um sistema de monitorização e, portanto, não se sabe quem deu o primeiro tiro, se foi Israel ou se foi o Hezbollah que provocou a situação. E qualquer um deles acusa o outro. O Irão tem uma posição de partida que, neste momento, eu julgo que já está a estender a linha vermelha mais pra frente do que aquilo que estava. Ou seja, o Irão, essencialmente, pelo menos foi dado a entender, o que estaria em jogo era uma questão do cessar-fogo no Líbano. Cessar-fogo. E a retirada de algumas posições que seriam preenchidas pelo exército libanês Neste momento, o que o Irão está a exigir é uma retirada completa de Israel do sul do Líbano, e isso é inaceitável para o lado de Israel, já percebemos. E portanto, essa será mais uma questão que tem que ser analisada. A questão das violações de cessar-fogo no Líbano tinham sido, de algum modo, mentidas. Aliás, os Estados Unidos e o próprio Irão, em determinada altura, aceitavam que isto pudesse ser mantido dentro uma questão que fosse gerível sob o ponto de vista dos ataques militares. Que fossem coisas localizadas, um pouco à semelhança do que se passou entre o Irão e os Estados Unidos em determinada altura, em que o tit-for-tat, como é chamado, estas operações militares tit-for-tat, ou seja, dá, toca e há uma resposta e depois a coisa fica por ali, porque não tem uma dimensão para furar o cessar-fogo. Julgo que do lado dos Estados Unidos foi entendido que isso poderia também irmos vivendo assim. Ou seja, o Hezbollah tinha uma atitude qualquer que era considerada mais grave por Israel, Israel fazia um ataque e a coisa não havia resposta, ou havia resposta do lado do Hezbollah, mas ficava contido neste contexto. Mesmo que isso fosse passando todos os dias. O que tem acontecido? Tem acontecido que o Irão tem, de algum modo, radicalizado a sua posição nesta questão. E agora exige uma retirada completa de Israel do sul do Líbano. Enfim, estou a ver isso como muito difícil de acontecer. Portanto, já temos aqui mais do que uma situação que pode levar a uma ruptura do acordo. Antecipávamos só uma, que era esta do Líbano, agora estamos com o Estreito de Ormuz e vamos ver o que é que resulta da reunião que vai haver agora nos próximos dias, se consegue clarificar aqui alguma coisa, mas já temos dois pontos de elevada tensão relativamente ao acordo de entendimento. E ainda não entrámos na parte dura do problema, que é a questão nuclear. Embora eu continue a achar que há interesse das duas partes, do Irão e dos Estados Unidos, de andarem com o processo pra frente. Ou seja, eles estão confortáveis com a negociação, mesmo que haja aqui pequenos aspectos que têm que ser trabalhados e têm que ser resolvidos. Agora, nada nos diz que qualquer um desses problemas não atinja uma escalada que leve a uma ruptura da situação, embora eu continue convencido que tanto o Irão como os Estados Unidos não estão interessados em voltar a operações militares activas de grande dimensão.
Entretanto, a imprensa internacional dá conta de que o Irão e Omã vão começar a redefinir o tráfego pelo Estreito de Ormuz nos próximos dias. O que isto significa na prática?
Vão começar a desculpa?
A redefinir o tráfego no Estreito de Ormuz nos próximos dias.
Essa questão também não ficou muito clara na questão do acordo. Os Estados Unidos têm uma posição de princípio que é comércio livre, ou seja, não há taxas de passagem. Embora admitissem que pudesse haver algum pagamento aos países que têm ali o controle do Estreito, no sentido de serem pagos algum tipo de serviços. Enfim, noutras circunstâncias também são pagos, nomeadamente apoios à busca e salvamento, a questão de pagarem a navios que possam, de algum modo, orientar o tráfego dos petroleiros dentro dos corredores que estão estabelecidos. Portanto, pequenos serviços que normalmente são pagos em todos os países do mundo. Enfim, essa questão poderia ser aceitável para o lado dos Estados Unidos. Agora, não pode haver é portagens, sob o ponto de vista de pagar um direito de passagem, porque o direito internacional não permite isso. E se isso começasse a aplicar em todos os estreitos do mundo, tínhamos aqui um sarilho muito grande para resolver, naturalmente. E portanto, isso não é aceitável do lado dos Estados Unidos. Agora, essa partição de responsabilidades sob o ponto de vista do tráfego, que pode ter a ver até com questões de balizamento, de sinalização e de apoio à navegação, pode eventualmente vir a ser discutida. Aliás, o Omã também já uma ou duas vezes levantou essa questão, que até levou a que ele levasse um puxão de orelhas, por assim dizer, dos Estados Unidos a dizer que se o Omã também se metesse nisso, provavelmente também seria atacado. Vejamos. Vamos ver. Se for dentro de determinados limites, pode eventualmente não ser o necessário e suficiente para deitar abaixo o acordo. Se ultrapassar determinados limites, muito provavelmente. Mas eu acho que o Omã aí terá que ter algum cuidado, porque também não se pode pôr a jeito de sofrer retaliações militares do lado dos Estados Unidos, naturalmente, que aliás, já sofreu ameaças nesse sentido. Temos que acompanhar para ver o que isso exatamente quer dizer.
Vamos também olhar ainda para a guerra na Ucrânia. Vladimir Putin reconheceu finalmente que existem falhas de combustível e filas para abastecer na Rússia. Pergunto-lhe se este é mais um sinal de que, de facto, o equilíbrio de forças neste conflito entre Rússia e Ucrânia está a começar a mudar.
A Ucrânia conseguiu, com esta questão dos ataques em profundidade de precisão, que sob o ponto de vista técnico em termos militares é o que a Ucrânia tem estado a fazer e que a Rússia também fez durante muito tempo e continua a fazer, embora agora numa dimensão do lado da Rússia, ou pelo menos com um impacto sob o ponto de vista operacional, por assim dizer, diferente, foi conseguido essencialmente do lado da Ucrânia com uma aceleração na capacidade tecnológica e nos números de produção de sistemas com essa capacidade, nomeadamente mísseis cruise flamingo e drones de longo alcance com alguma capacidade de fugir Às intercepções e utilizando a vantagem que tem sob o ponto de vista eletrônico e eletromagnético sobre as defesas aéreas da Rússia. E portanto, esses números começaram nos últimos dois a três meses a subir para números que afetam significativamente, no caso da produção de petróleo e derivados, o sistema russo. Associado a isso, uma questão também muito sensível pra Putin, que é a questão da Crimeia. De algum modo, a Ucrânia conseguiu, por diversos meios, reduzir a Crimeia. Não é ainda uma ilha, por assim dizer, mas é uma península. Neste momento, só através do ponte Kerch é que se pode fazer tráfico logístico para alimentar a Crimeia. E isto é grave, por quê? Porque a Crimeia servia também de base logística pras forças que estão essencialmente em Kherson, as forças russas que estão no Oblast de Kherson ocupado e, de algum modo, também alguma parte em Zaporizhzhia. E isso tem tido efeitos operacionais muito graves. Depois, a outra questão, que é uma questão que a Ucrânia também ficou explorando, é de algum modo transmitir à população russa uma sensação de insegurança, por um lado, e de não acesso a uma coisa que era a capacidade do russo reabastecer os seus depósitos de combustível dos seus carros com alguma facilidade. E nós temos visto filas, inclusivamente, eu vi um filme que julgo que era da Crimeia, com uma fila enormíssima de quilômetros, em que as próprias autoridades russas tiveram que instalar aqueles contentores-casa de banho ao longo dessa fila de quilômetros, pras pessoas terem acesso a uma possibilidade de fazer as suas necessidades. Ora, isto é demasiadamente visível para contrariar aquilo que o Putin vinha dizendo até agora, que isto era uma questão que era perfeitamente resolúvel. Saiu perfeitamente fora da capacidade de controle de Vladimir Putin e com efeitos altamente negativos na população russa, naturalmente, que começa a manifestar algum sentimento de desconforto com a situação, que não está em linha com o que o Putin veio prometendo nos últimos anos, que esta guerra seria resolvida sem grande impacto dentro da Rússia. Isso não está a passar, até mesmo sob o ponto de vista da segurança dos habitantes de Moscovo e de São Petersburgo, que são as duas cidades principais da Rússia europeia, por assim dizer. Isto tem produzido impactos relativamente grandes, levou inclusivamente Putin a ter que fazer ontem aquele discurso que fez da Rússia unida, com toda a elite russa reunida, e hoje a entrevista que deu a um canal estatal russo. De algum modo, manifestou inclusivamente algum grau de irritação, nós conseguimos perceber isso em Putin quando ele fala irritado. Com algum grau de irritação relativamente à situação. E de algum modo a tentar negar aquilo que é óbvio. É evidente que nós também temos que ver uma coisa. A Ucrânia está, de facto, a pôr esta pressão na Rússia, mais no sentido de obter uma plataforma negocial mais favorável do que propriamente levar a que a Crimeia caia, vamos lá ver, que as forças russas na Crimeia colapsem. Porque isso podia levar a uma escalada de outra natureza. Agora, o objetivo, julgo eu, de Zelensky é exatamente esse. Aliás, e Putin hoje disse, na exposição que fez, que Zelensky quer avançar pra um processo negocial, parar de algum modo a guerra e negociar numa posição favorável, e que a Rússia não vai aceitar isso. Agora, vamos lá ver, esta pressão que é posta sobre alvos estratégicos importantes, e a Crimeia é um deles, naturalmente, é o objetivo estratégico principal da Rússia em toda esta questão, julgo eu, é o mais importante. Vladimir Putin também não quer correr o risco de ter um colapso das suas forças militares por problemas logísticos na Crimeia, porque isso era um desastre até em termos internos pra ele, naturalmente. Portanto, estamos aqui numa situação de alteração das dinâmicas que neste momento favorecem, sob o ponto de vista negocial, a Ucrânia. Embora isso tenha impactos na linha da frente muito pouco. A Rússia está a progredir em Constantinopla. A Ucrânia está-se a defender bem e a recuperar algum território noutros sítios. Portanto, a linha da frente continua relativamente imóvel, por assim dizer. Mas sob o ponto de vista estratégico, da perceção estratégica até exterior. E essa é uma perceção estratégica que a Putin dá algum problema, porque já percebeu, e aliás ele próprio diz, que Donald Trump neste momento tem uma opinião diferente do que tinha do antecedente, quando Putin não conseguiu convencer na Cimeira da Coreia acho que o problema do Donbass resolvido até algures ao fim do ano passado. Isso não aconteceu e agora é nítido pra toda a gente, mesmo na sociedade internacional, que há aqui uma situação de inversão sob o ponto de vista estratégico daquilo que era uma dinâmica que Vladimir Putin tinha vido a vender à exaustão, que este era só uma questão de tempo. O Donbass até o final do verão estaria resolvido. Isso não vai acontecer e está com um problema sob o ponto de vista interno, e sob o ponto de vista da logística militar de apoio à linha da frente, muito complexo de resolver. Aliás, com sérios problemas nalguns sítios, até nas regiões do Oblast de Zaporizhzhia e em Kherson.
Muito bem, obrigada pela sua análise, tenente-general Marcos Ronca. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Foi um gosto.
Muito obrigada.
Boa noite, obrigado.
Boa noite.
Obrigado.
Muito bem.

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