CIÊNCIA

IA supera humanos em 80% dos trabalhos de "colarinho branco"

Mais de 80% das tarefas feitas por quem tem empregos de “colarinho branco” – em oposição aos trabalhos mais manuais/industriais de “colarinho azul” – já são cumpridas de forma mais rápida e eficaz por modelos de Inteligência Artificial (IA) do que por humanos. O economista-chefe da OpenAI, empresa criadora do ChatGPT, afirmou no Fórum BCE em Sintra, nesta terça-feira, que quando entrou na empresa, em finais de 2024, essa percentagem não chegava a 50%.
Aaron Chatterji, mais conhecido no meio pela alcunha “Ronnie” Chatterji, participou numa mesa-redonda no evento anual organizado pelo Banco Central Europeu (BCE) em Portugal e apontou o “crescimento dramático das capacidades” dos modelos de IA, tanto da empresa que representa, a OpenAI, como de outras. “Eu próprio estava a subestimar quão rápido o crescimento das capacidades estava a ser”, afirmou Chatterji, referindo-se aos tempos anteriores à entrada na OpenAI.As empresas do setor, que nos últimos anos têm estado no centro de um boom de investimento mundial, usam um indicador chamado evals [abreviatura de evaluations], que são testes padronizados usados para medir o desempenho de modelos de IA em tarefas específicas. E a OpenAI, em particular, lançou um eval específico chamado GDPval, que analisa a capacidade dos modelos cumprirem funções atualmente desempenhadas por humanos em empregos de “colarinho branco”.“Por exemplo, um advogado a escrever um documento legal, um consultor a preparar uma apresentação ou um analista ou gestor a fazer uma análise financeira de uma empresa”, exemplificou Aaron Chatterji: “estamos a verificar que os nossos modelos atuais conseguem fazer esses trabalhos ao nível dos humanos, ou melhor, em mais de 80% das tarefas“, afirmou Chatterji, sublinhando a distinção entre tarefas e trabalhos (no sentido de empregos).
BCE. Em Sintra, Christine Lagarde sinaliza que as taxas de juro não irão subir bruscamenteEmbora se possa falar em substituição de tarefas, Chatterji pediu para não se tirarem conclusões precipitadas sobre aquilo que será o impacto nos postos de trabalho. Um exemplo, os programadores informáticos, habitualmente vistos como uma das carreiras mais em risco devido à IA, não têm tido um decréscimo do valor que se compare àquilo que foi vaticinado por alguns.E porque é que não? “Bem, quando o preço de um serviço baixa, se a procura for elástica, as pessoas vão comprar mais desses serviços” – e, por isso, a procura pode aumentar e suportar o emprego nessas áreas, afirmou. “Mesmo com a entrada da IA, temos as economias dos EUA e da Europa com taxas de emprego muito elevadas”, afirmou o economista, salientando, por exemplo, um aumento dos postos de trabalho no setor da saúde.
“A ideia de que a exposição de uma dada tarefa [à IA] é algo que, automaticamente, determina a forma como o valor do emprego de quem [atualmente] cumpre essa tarefa é incorreta. Estamos constantemente a adicionar e a subtrair tarefas, dentro de cada emprego, fazemos isso a todo o momento”, salientou Aaron Chatterji, reconhecendo que “A IA não irá afetar todos os empregos de igual forma”.A este propósito, Chatterji considerou que “embora se fale mais dos consumidores, a adoção por parte das empresas será o grande motor do aumento de produtividade promovido pela IA”. E tanto num caso como no outro, consumidores e empresas, aquilo que está a ser utilizado é uma “fração” daquilo que são as capacidades já existentes dos modelos.Na plateia de cerca de 150 pessoas, entre as quais os principais banqueiros centrais de todo o mundo, estavam o novo presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, e Christine Lagarde, a presidente do BCE.
Se Warsh, na estreia em Sintra, manteve uma maior discrição (só participará, na quarta-feira, num debate com Lagarde e outros banqueiros), Christine Lagarde não perdeu a oportunidade de fazer uma questão a Aaron Ronnie Chatterji – uma questão como advogada (a presidente do BCE é formada em Direito) e não como economista.“Se o senhor roubar o meu dinheiro, o senhor é responsável e eu vou processá-lo. Se um agente de IA desenvolvido pela OpenAI fizer a mesma coisa, quem é que é responsável?”, perguntou Lagarde.

Sérgio Garcia/Your Image for ECB

Christine Lagarde fez uma pergunta sobre quem é responsável num roubo de dinheiro feito por um agente de IA.Na resposta, Chatterji disse achar que “essa não vai ser uma decisão que dependa de empresa para empresa. Deverá ter de se construir um enquadramento legal para responder a essas situações”.
Aliás, também aconteceu o mesmo com outras inovações. “Se pensarmos, por exemplo, na forma como evoluíram as responsabilidades no sistema financeiro, como, por exemplo, nos cartões de crédito: quando existe alguém que rouba os nossos códigos ou os cartões e faz levantamentos, geralmente as instituições financeiras devolvem o dinheiro. Mas isso nem sempre foi assim. Foi necessário o desenvolvimento de uma série de políticas regulatórias, a par de um conjunto de decisões empresariais, para enquadrar estas situações”, afirmou o economista.A sua convicção, portanto, é que “vamos construir algo semelhante a isso para os agentes de IA”.Aaron Ronnie Chatterji trabalhou na Casa Branca como conselheiro económico de Obama e Biden e é, também, professor universitário ligado à Duke University, sediada na Carolina do Norte (EUA).Assumiu o cargo de economista-chefe da OpenAI, a empresa que criou o ChatGPT, em 2024 e assume que até a própria mulher lhe perguntou, quando decidiu assumir o cargo, porque é que uma empresa tecnológica precisa de um economista-chefe – um cargo mais habitualmente associado a bancos, fundos de investimento ou organismos públicos como bancos centrais.Aceitou o cargo, explica, porque “estamos a gerar todos estes dados a partir da utilização da IA pelas pessoas e pelas empresas, não só no ChatGPT mas, também, em outros produtos”. “E eles [a OpenAI] queriam alguém que entrasse na empresa para analisar todos esses dados e perceber o que se estava a passar – o que me deu a oportunidade para estudar as coisas que queria estudar mas, em vez de ser na academia, dentro de uma empresa”.
Além disso, “trabalho todos os dias com pessoas mais novas do que eu que estão a construir coisas que eu nunca imaginei que fossem possíveis – e isso é algo que me torna um economista melhor”, afirmou Aaron Chatterji.A OpenAI entregou (confidencialmente) os documentos com vista a uma cotação do capital em bolsa, que poderia acontecer em breve, mas nos últimos dias terá, segundo a imprensa financeira internacional, passado a estar mais inclinada a esperar pelo próximo ano (2027) para avançar com essa operação.A empresa angariou, em março, 122 mil milhões de dólares em capital, numa ronda de investimento que avaliou o valor total da empresa em mais de 850 mil milhões de dólares [745 mil milhões de euros].

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