Portuguesa recebe bolsa para criar antivirais resistentes
▲Maria João Amorim é investigadora no Centro de Investigação Biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa
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E se fosse possível criar uma nova classe de medicamentos para combater as epidemias de gripe e a resistência antiviral na Europa? Foi com esta hipótese que a investigadora Maria João Amorim, do Centro de Investigação Biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, recebeu um financiamento do Conselho Europeu de Investigação no valor de 150 mil euros — e o resultado pode aplicar-se também a outras doenças.
O foco, numa primeira etapa, será desenvolver uma “abordagem inovadora no combate ao vírus da gripe A”, refere a Universidade Católica num comunicado emitido esta terça-feira. Porém, o objetivo a longo prazo deste projeto, que recebeu a bolsa “Proof of Concept”, também passa por reduzir o risco de resistência aos medicamentos, que a investigadora descreve como uma das maiores limitações dos fármacos atualmente disponíveis no mercado. “Aquilo que é difícil é que o vírus não evolua para se tornar resistente às opções terapêuticas”, diz ao Observador.“Ao combinarmos diferentes moléculas [criadas em laboratório] direcionadas para alvos distintos do vírus, aumentamos substancialmente a dificuldade de surgirem variantes resistentes ao tratamento, reforçando a sua eficácia a longo prazo”, explica a investigadora, referindo que ao ter um maior número de pontos de ataque onde estas moléculas que estão a desenvolver podem agir, o vírus terá uma maior dificuldade em desenvolver “mecanismos de escape”, ou seja, de criar resistência ao medicamento.Os alvos, neste caso, são vários componentes líquidos do vírus e que participam nos processos mais fundamentais do ciclo de vida viral — como na replicação. O laboratório de Maria João Amorim percebeu que ao endurecer estas estruturas líquidas, que são transmitidas para células infetadas pela carga viral, reduzia não só o impacto que o vírus tem nas células saudáveis, mas também a própria replicação do vírus. Mas como acrescenta a investigadora, os frutos desta investigação podem ir “muito além da gripe”.
Neste momento, como revela ao Observador Maria João Amorim, já obtiveram resultados confirmados da eficácia deste método inovador no vírus da Gripe A e da Gripe B, mas têm indícios de que funciona também em vírus como a estirpe de Ébola que circula agora na República Democrática do Congo, por exemplo.O projeto LOFlu-TREAT terá o financiamento europeu previsto para 18 meses, no valor de 150 mil euros. “A equipa do projeto pretende avançar esta tecnologia até uma validação pré-clínica, aproximando-a de futuros ensaios em humanos”, lê-se no comunicado do Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica. Esta é, na verdade, uma extensão do projeto LOFlu, que recebeu uma bolsa ERC Consolidator em 2021. Foi aí que primeiro se demonstrou que o endurecimento de determinadas estruturas consegue bloquear a replicação do vírus da gripe em células e modelos animais.Assim, ao modificar o caráter líquido para sólido, viram que a replicação do vírus diminuiu. Agora, o objetivo é expandir os resultados obtidos ao longo dos últimos anos e “desenvolver moléculas que consigam modificar estas propriedades líquidas”, através de um pacto de cooperação com unidades de investigação internacionais. “Está a ser um desafio divertido”, afirma a investigadora.Mas para além de ter resultados positivos para os vírus da Gripe A e B, Maria João Amorim admite que esta abordagem tem o potencial de ser eficaz no combate a doenças neurodegenerativas, ou até contra o cancro, apontando para a semelhança das estruturas que estão presentes também neste tipo de células.










