CIÊNCIA

Incêndios. "A única atitude possível é evitar ignições"


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Por estes dias também não se fala de outra coisa, falamos do calor e do muito calor que está previsto e não há ninguém melhor para conversar um pouco sobre isto do que o professor Carlos da Câmara, climatologista e presença habitual aqui na Rádio Observador. Bem-vindo, professor Carlos da Câmara. Veio aí um calor daquele de ananases, agora já está a apertar e ainda vai ser pior?
Olá, Ricardo, como está? De facto, tudo aponta para que tenhamos calor, bastante calor. Se me perguntar se a situação é inaudita, a resposta é um redondo não.
Claro.
O que está a acontecer, se quiser, tem um nome clássico que é a ruptura da circulação contornante. Parece um palavrão complicado, mas é fácil de explicar.
Já vamos lá perceber isso melhor.
É fácil de explicar. Normalmente, o que acontece é que a Península Ibérica, por ser muito continental, está muito aquecida no interior e isso gera uma depressão. O que acontece numa depressão? O ar circula no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Portanto, se quiser, o que vai acontecer, está a imaginar uma baixa pressão no centro da península e, portanto, a norte, na Galiza, o vento sopra pelo mar de leste para oeste, depois temos uma nortada em Portugal e depois a seguir temos, no Algarve, um vento que sopra essencialmente de oeste e depois fecha a circulação. Isto é aquilo que normalmente acontece e faz com que nós tenhamos a célebre nortada desagradável, com ventos frescos e úmidos. De vez em quando, essa depressão desloca-se para sul. Quando se desloca para sul, o que é que vai acontecer? Portugal vai ficar a ser afetado por ventos de leste. Lá vem o velho rifão que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento, aqui tem a ver essencialmente com o vento, e vamos ter ventos muito quentes e secos. Ou seja, a circulação continua a ser a que eu há bocadinho descrevia, só que como tudo agora está deslocado para sul, somos afetados por esse tipo de vento. Mais ainda, por cima desta depressão, há sempre um anticiclone, que hoje em dia se costuma chamar cupula de calor. O que ele faz? Como as altas pressões empurram o ar, ele vai empurrar o ar para baixo. Quando o ar vai para baixo, como a pressão aumenta à medida que nós nos aproximamos da superfície, esse ar vai ser comprimido, e ao ser comprimido, aumenta a sua temperatura, por compressão, tal e qual como quando vamos encher um pneu de uma bicicleta.
Exato.
Portanto, temos aqui um mecanismo em que temos, por um lado, a depressão a trazer ar quente que vem de África e atravessa Espanha, e depois temos, ao mesmo tempo, um segundo mecanismo que aumenta ainda mais essa temperatura comprimindo. E isto normalmente dura alguns dias e, neste caso, tanto quanto eu estive a olhar, é capaz de durar uns quatro ou cinco dias, pelo menos. Portanto, esta situação não é de todo invulgar.
Inédita, claro.
Não é inédita.
Professor Carlos da Câmara, deixe-me só perguntar-lhe, dado esse quadro, as temperaturas que estão estimadas, as noites que vão continuar a ser muito quentes agora nos próximos dias, são condições favoráveis para termos agora nos próximos dias fogos florestais com alguma intensidade?
Exatamente, adivinhou aquilo que eu ia dizer, que é, neste caso, aquilo que eu fico mais preocupado não é tanto com as máximas, mas é sobretudo com as mínimas, que teimam a estar bastante acima dos 20 graus. Havendo sítios em que não baixam, aparentemente, dos 24.
Exato. Na noite do jogo, em Lisboa, vai estar uma caloraça, por exemplo.
Exatamente. Ora, isso não só é muito mau pra saúde, porque não deixa o organismo restabelecer-se, como, caso tenhamos incêndios, quer dizer que aquelas janelas de oportunidade, que muitas vezes se abrem durante a noite, vão estar pouco disponíveis. Portanto, tudo isto aponta para vários comportamentos adequados. Por um lado, ao nível da saúde, aqueles habituais, de não nos expormos demasiado à radiação, etc. De bebermos líquidos abundantemente, etc. Mas, sobretudo, ao nível dos incêndios florestais, neste momento, só há uma atitude possível para os controlar, que é evitar ignições.
A prevenção.
Portanto, o apelo a fazer-se é não fazer ignição, mesmo que se ache que não vai fazer mal algum.
Exato.
Porque se não fizermos ignições, a probabilidade de termos incêndios, diminui drasticamente.
Sendo essas ignições negligentes, na maior parte das vezes há negligência que provoca grandes incêndios. Professor Carlos da Câmara, é sempre um gosto poder contar consigo e com as suas explicações aqui na Rádio Observador. Obrigado, um abraço.
Eu é que agradeço o convite, foi um gosto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.