Não, os óculos de sol não são para usar na cabeça
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Margarida, tu és mais fã de óculos de sol espelhados ou semitransparentes?
Espelhados só se for para fazer de Kim Kardashian em 2018.
Esse momento tornou-se viral, foi ótimo. Ela queria fazer um statement de moda, mas acabou por refletir o seu jogo de pôquer a todos os adversários. Foi genial. Do Avesso, um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Dizem que os olhos são o espelho da alma, mas há quem prefira manter uma poker face e faça dos óculos escuros a sua imagem de marca.
É verdade, ou como diria a canção de Madalena Iglesias…
“Servem para chorar à vontade”.
Claro. Pensando em personalidades, eu lembro-me logo da Amália Rodrigues, dos seus óculos escuros enormes, sobretudo mais no final da vida e carreira. A imagem tornou-se tão forte que até inspirou uma coleção de óculos, claro.
No universo da música temos vários casos, começando logo pelo Elton John e os seus excêntricos óculos coloridos, ou os clássicos redondinhos do John Lennon, e a Rita Lee, que também era uma fã do estilo.
Há imensos casos. A Debbie Harry, incrível nos anos 80. Mais recentemente, tens o Pharrell Williams. E por cá teremos sempre o nosso Jessy, o Tim e o próprio Pedro Abrunhosa. E eu acho que até as novas gerações em palco já não dispensam. É um daqueles itens quase obrigatórios.
É verdade. As celebridades em geral costumam gostar bastante deste acessório, que de alguma forma os ajuda a manter a privacidade ou pelo menos a disfarçar o estado de espírito em que se encontram. Eu lembro-me da Victoria Beckham, que no seu tempo do SPICE não abusava e abusava dos óculos escuros, geralmente grandes, espelhados, bem ao estilo dos início dos 2000. Já no universo masculino, temos o Johnny Depp, mas no caso dele, nem sequer os óculos o salvam daquele ar melancólico.
Não funciona.
Eu acho que até contribuem pro efeito Pirata das Caraíbas, que ele parece estar sempre em modo Jack Sparrow. Mas depois também tens divas mais clássicas, como a Jacqueline Kennedy, os seus óculos também grandes, arredondados, que também se tornaram uma referência de estilo.
É um facto. E no caso da Jackie, eu já entras no campo da política americana e das imagens de marca. O próprio John Kennedy surge de óculos escuros em vários momentos ao longo da sua carreira como presidente dos Estados Unidos. Aliás, os seus Saratoga em tartaruga tornaram-se emblemáticos.
Sim, mais recentemente tens o Joe Biden e os seus óculos de aviador, que eram praticamente inseparáveis. Já o Trump não é tão fã do acessório, mas a mulher compensa.
É verdade.
A Melania Trump tem uma vasta coleção de óculos de sol, de luxo, quase todos. E usa-os praticamente em todas as ocasiões. Tu imagina que ela até já foi apanhada a sair do Air Force One durante a noite de óculos escuros postos. Claro que nas filmagens se nota que ela está com uma certa dificuldade a descer as escadas, não devia ver nada.
Não cair já é uma sorte. É verdade. Há contextos em que os óculos costumam sair de cena na realidade, porque é essencial ter os olhos à vista. Falamos sobretudo de grandes palcos políticos, da esfera diplomática também, porque é suposto haver transparência no contacto entre os chefes de Estado e outros líderes, ainda que isto às vezes pareça um valor em desuso.
Sim, espera-se isso, a não ser que haja algum percalço de saúde, como o Emmanuel Macron em Davos, que teve que usar uns óculos ao estilo aviador, que foram muito falados. Olha, o que é certo é que ele escolheu um modelo feito em França artesanalmente e que aquilo esgotou.
Na realeza, de forma genérica, também se aplica a mesma regra de deixar os óculos na gaveta. Nós não costumamos ver nem os reis, nem os príncipes de óculos escuros, salvo algumas exceções, como eventos desportivos ou uma viagem oficial que admita uma revisão no guarda-roupa. Mas digamos que o tempo no Reino Unido também não é dos que pede mais lentes escuras. Eu lembro-me sempre de uma conversa com a Linda Farrow em Lisboa e ela dizia: “Bem, como é que conseguiu?” E foi muito difícil furar o mercado britânico naqueles idos anos 70 pra conseguir vender óculos numa terra onde tu estás sempre no nevoeiro e pouco sol.
Sim, uma pessoa já vê mal sem óculos. Imagina com óculos escuros. Olha, mas quem não deve ter sido difícil de convencer foi a Princesa Ana. A princesa não dispensa os seus óculos escuros e acaba por ser cômico, tem um design futurista.
É o Matrix da realeza.
Até são mais tipo óculos de neve, mas em mais pequeno. Aqueles ergonômicos, só com uma haste em cima, um estilo que já teve, de facto, os seus dias de fama, mas hoje já está na categoria vintage, mas é muito engraçado ela continuar a usar e são sempre os mesmos, aquilo não muda.
Olha, por falar em vintage, este ano andou tudo louco com as armações mais pequenas e ovaladas, que foram usadas pela Caroline Kennedy. Mas se quer um conselho, nós também estamos cá para isso de alguma forma. Tente ser um pouco mais original, aposte em algo menos esperado, mais ao seu estilo próprio. E melhor ainda, se tiver o estatuto de uma Audrey Hepburn, tente que desenhe um modelo só pra si, como aqueles Oliver Goldsmith incríveis que a atriz usou no “Breakfast at Tiffany’s”.
Olha, é o caso da Eduarda Abundenza, que organiza a Moda Lisboa desde 1991.
Sim, e que em 2024 ganhou uma armação preta, com umas lentes azuis esfumadas, um modelo com o seu nome criado pela Andre Óticas.
Sim, ela que também faz dos óculos de sol a sua imagem de marca. Mas se é pra falar aqui de recomendações, tenho aqui várias ideias em mente A começar por uma que me tira do sério, que são os óculos escuros a fazer de bandelete em cima da cabeça.
Eu subscrevo. Eu acho que é provavelmente das piores pragas ao nível do mau gosto. Até porque há pessoas que insistem em fazer isso quando o sol já se pôs há horas. Nós já estamos quase com a lua para lá.
E depois esquecem-se daquilo em cima da cabeça.
E esquecem-se que aquilo fica. Margarida, há uma outra coisa que para mim não tem qualquer cabimento, que é usar óculos escuros dentro de espaços fechados. Por amor de Deus.
Sim, se entram num espaço fechado tiram os óculos.
Sim, há ali um compasso de espera de segundos para os olhos se habituarem depois à transição, mas, por favor.
A não ser que sejas a Anna Wintour.
Pronto, claro.
A Meryl Streep a fazer da Anna Wintour.
Também, pronto.
Também já aconteceu muito este ano. Ou o Karl Lagerfeld.
No limite, até o Imperador Nero.
Sim, que segundo os relatos da época, via os combates entre gladiadores através de umas esmeraldas, como se fossem uns óculos.
Olha, ou o dramaturgo Carlo Goldoni, que no final do século XVIII também popularizou umas lentes verdes venezianas incríveis. Acho que foram absolutamente pioneiras.
Sim, foram dos primeiros óculos escuros que temos assim de nota.
Pré-modernos, digamos assim. Olha, e já agora, se estiverem a falar com alguém, eu diria que também é simpático retirar os óculos para se ver os olhos, sobretudo se forem espelhados. Porque ninguém gosta de estar a ver refletido durante um diálogo. Não vale a pena. É aquela cortesia que se aplica também às luvas, que mais no inverno, sobretudo, em princípio, não se cumprimenta ninguém com as luvas postas.
Isto, de facto, são tudo dúvidas que até há anos nem existiam, pelo menos no inverno. Os óculos escuros nem sempre foram um item de lifestyle obrigatório e, se virmos bem, pelo menos em Portugal, houve um tempo em que se usavam muito pouco no inverno, era mesmo uma coisa de verão.
Sim, e não era moda. Também ninguém comia gelados no inverno, antes do boom das novas lojas.
É verdade, que tempo infeliz!
Devia ser muito triste. Olha, mas sabes que hoje isto vai muito além das tendências. Nós temos a ameaça crescente dos raios UV e eu sinto que a fotossensibilidade é maior, portanto, coisas como andar na praia ou passar o dia inteiro na praia sem óculos, para mim isso já não dá, é completamente proibido e portanto são de facto um aliado também importante neste sentido.
Sim, aqui também tens esse lado de saúde, que também é importante. E depois, de facto, aqui o estilo acaba por ser um fator secundário. O mesmo pode-se aplicar hoje aos chapéus.
É verdade. Cada vez mais a cidade no verão pede que as cabeças andem protegidas. O sol não está para brincadeiras.
Na verdade, os óculos escuros têm uma origem protetora, muito antes das luzes artificiais de Hollywood dos anos 20 terem levado as estrelas a evitar o brilho e os paparazzi também. Portanto, os óculos para esconder a expressão cresceu muito com Hollywood.
A cultura dos filmes.
E antes também dos anos 30 os começarem a trazer para o campo das modas.
Sim, incluindo porque no final da década de 30, um senhor chamado Bernardo Paulino Pereira abriu a sua primeira ótica em Santarém. Uma história de família que foi seguida por gerações e nós ainda hoje ouvimos falar dos óculos Paulino.
Pois é, é verdade. São marcas que atravessam o tempo. Curiosamente, a proteção solar para os olhos nasce na neve e não nos climas quentes a que geralmente hoje associamos este acessório. Foram os inuítes que criaram o primeiro artefacto do género. Era uma espécie de mascarilha de marfim com apenas uma estreita fenda, que se colocavam em cima dos olhos para evitar o reflexo da luz na neve, que era fortíssima e que queimava de facto os olhos. Mais tarde, ali por volta do século XII, surgem na China as primeiras criações mais semelhantes ao que conhecemos hoje. Mas sabes para que eram usadas?
Para quê?
Eram para os juízes esconderem a expressão facial em tribunal.
Ai, que maravilha. Lá está, o poker face, mas tem que ser bem usado, não pode ser como Kardashian. Olha, aliás, modelos como o aviador também têm uma raiz funcional. Primeiramente associados à Força Aérea, por exemplo, nos anos 80, depois voaram literalmente e descolaram em termos de publicidade, graças a Tom Cruise e a filmes como Top Gun.
Top Gun, claro. Do cinema, lembro-me também dos óculos de Matrix, que também se tornaram, eles próprios, um estilo incontornável. Aliás, nós costumamos dizer os óculos à Matrix e toda a gente sabe do que estamos a falar. Hoje a variedade é muita e temos marcas que apostam em materiais reciclados, que reavivam histórias de família e que exploram também muito esta coisa da tendência vintage e das referências também do cinema. Há sempre um clássico no arquivo da Jo Milan. A Fora vai lançando várias parcerias com outros nomes. Relançou também o próprio Made in Portugal. E depois temos projetos recentes como a Cobble Studios, uma marca de modelos retro da neta do fundador do oculista Vallbom.
Lá está, vão-se adaptando aos tempos. Mas muito mudou, é um facto. Tu sabes que no grande eclipse de 12 de maio de 1706, a corte do rei francês Luís XIV assistiu a este grande momento através do quê? Um telescópio com um filtro de vidro fumado. Nós hoje até já podemos experimentar óculos online, ver se os modelos nos ficam bem com simuladores digitais, portanto tu vê bem a diferença.
Sim, hoje Luís XIV podia, na verdade, monitorizar a corte toda, porque os óculos são cada vez mais inteligentes. Eu acho que ele ia gostar deste acessório. Fornecer informações digitais, controlar a saúde em tempo real, adaptar o tom à alteração da luz e até traduzir informação em estrangeiro quando se olha para ela, receber e-mails, enfim, é um mundo.
Um mundo infinito. A categoria dos óculos inteligentes é das que têm mais lançamentos previstos para este ano. Espera-se que seja um setor que cresça até aos 30 mil milhões de dólares até 2030.
Imagina, em vez de andarmos com o computador dentro do telemóvel, como andamos agora, vamos passar a andar com o computador e o telemóvel nos óculos. Visto assim, parece ficção científica, mas a verdade é que a Ray-Ban Meta anunciou planos para aumentar a capacidade de produção para 10 milhões de unidades até ao final deste ano.
Bom, se já era difícil escolher as lentes certas antes, imagina agora com tanta funcionalidade e aplicativos.
Olha, eu prefiro nem pensar nisso, até porque para mim óculos de sol são sinónimo de férias e não calha nada estares na praia de nariz para o ar e literalmente veres os e-mails a entrar.
Que pesadelo, Margarida. Olha, o melhor é irmos aproveitar enquanto podemos ter uma tarde de sol na cara, livre de tecnologias. Até breve.
Até breve.










