Parabéns, Estados Desunidos da América
Neste 4 de julho os EUA assinalam os 250 anos da sua independência, num clima ambivalente e agridoce, meio santos populares meio velório. Para alguns, até a data do aniversário é fake: há duas outras muito mais catitas. Assim como a Revolução Francesa terá sido muito mais inclusiva do que a Americana – pelo menos na fase das guilhotinas.
Hoje, a palavra “revolução” conota convulsão, mas sua génese remonta ao astrónomo polaco Copérnico, que no século XVI usou-a a para descrever a rotação dos planetas de volta a um ponto preestabelecido – revolução significava restauração. Foi a Revolução Francesa e seu Terror que introduziram o significado no qual a velha ordem é ceifada para gerar um mundo e um homem novinhos em folha – se for preciso, à cacetada (será preciso).Os revolucionários americanos buscavam igualdade política, não social. Os EUA nascem sem ancien régime nem aristocracia, uma república meritocrática de classe média, com um governo constitucional (lockeano na paz, hobbesiano na guerra). Os Pais Fundadores desconfiavam da democracia direta e das paixões inflamáveis por demagogos. Daí a o tripé instituciona: o Executivo, liderado pelo Presidente; o Legislativo, no Congresso eleito pela cidadãos; e o Judiciário, nos tribunais nacionais.A Constituição americana beneficiou os homens brancos, mas abriu a porta para tudo o que se seguiu: a universalização do sufrágio (o voto feminino em 1920), a abolição da escravidão (em 1865) e o Estado de Direito, no qual todos, ricos e pobres, devem ser julgados sem abébias.
Direitos universais são um paradigma do Ocidente, um legado do Cristianismo com a Imago Dei – somos todos feitos à imagem do Criador, com uma alma imortal e pares em dignidade. Daí derivam desde o princípio do jurista italiano Cesare Beccaria (de que a pena deve ser proporcional ao crime e ter como função a sua prevenção e não a vingança), até ao abolicionismo – uma noção inédita na história da humanidade (a escravidão existia há milhares de anos e em todos os continentes e civilizações).No século XVI, a densidade demográfica na América do Norte era rarefeita. Angus Maddison calculou a população nativa pré-colonial até o Rio Grande em 2 milhões de habitantes, contra os 350 milhões atuais. Considerando-se os 1,9 mil milhões de acres (1 acre = 4 metros quadrados) apenas nos 48 estados contíguos dos EUA, no período anterior aos europeus temos a proporção de uma pessoa para cada 950 acres — o equivalente a 720 campos de futebol! Isso é que era privacidade.Por isso os EUA constituíram-se ao longo do tempo como uma nação de expatriados, imigrantes e refugiados, com terráqueos afluindo dos quatro pontos cardeais. Roosevelt celebrou o patriotismo dos “americanos hifenizados”: ítalo-americanos, sino-americanos, hispano-americanos, etc. Esta semana, porém, só 29% dos Democratas disseram à NBC que têm orgulho de ser americanos (contra 90% dos Republicanos).Talvez porque hoje, nos EUA, todos os grupos têm direito a uma “cultura”, exceto um. Existe a “cultura negra”, a “cultura latina”, a “cultura asiática”, a “cultura indígena”, etc.. Porém só com angústia e repugnância pode mencionar-se a cultura branca, que já não ousa dizer o seu nome. E contudo dela emanou o idioma comum, o sistema democrático pluralista, a tolerância, o reformismo autocrítico e a economia capitalista – que não vieram, sei lá, de Tombuctu ou das ilhas Galápagos. Mas murmurar essas obviedades é gorgolejar discursos de ódio dignos da Ku Klux Klan. Toda ancestralidade é sacrossanta – menos a ocidental, que é a inimiga e vil, como os intocáveis nas castas da Índia.
Assim, os feriados unificadores dos EUA — o Quatro de Julho, o aniversário de Washington, o Dia de Colombo, o Dia dos Veteranos e até o dia Martin Luther King (agora considerado quase supremacista branco pelos ativistas identitários, dada a sua ênfase não na raça mas no caráter individual) — são cancelados em favor de efemérides muito mais fofinhas, como o Mês da Herança Árabe-Americana ou o Mês do Orgulho Gay.Ou o “Juneteenth”, que remete a 19 de junho de 1865, o dia em que os escravos no Texas receberam a notícia da sua libertação. Em 17 de junho de 2021, Joe Biden declarou o “Juneteenth” feriado federal. Dá um jeitão para desvalorizar o legado do republicano Abrahan Lincoln, cujas estátuas foram derrubadas pelo Black Lives Matter nos tumultos pós-George Floyd. Lincoln foi assassinado por um escravocrata sulista em 15 de abril de 1865, um mês e meio depois de obter a aprovação da 13º emenda, que aboliu a escravidão.Os principais Founding Fathers são Washington e Jefferson. Washington, o primeiro presidente dos EUA, comandou o exército na Guerra da Independência contra a Inglaterra. Diz a lenda que declinou uma coroa. Quando o seu segundo mandato findou, recusou o terceiro, fixando um precedente que durou 140 anos, até ser consagrado em lei pela 22ª Emenda em 1951.Hoje, no Parque Nacional da Independência, na Filadelfia (a primeira capital dos EUA), Washington é mais avacalhado do que George III (o rei britânico da altura). Na exposição da Casa do Presidente, placas oficiais resmungam o quão sacana ele era. Já o Liberty Bell Center (com o icónico sino que convocou os cidadãos para a leitura da Declaração da Independência) é retratado como um símbolo dos movimentos pelo voto feminino e pelos direitos dos homossexuais, pois “a liberdade não foi originalmente destinada a todos” (muito menos a todes). Uma “Linha do Tempo da Escravidão”, que abrange três séculos, realça o Juneteenth, mas não dá um pio sobre a Guerra Civil.
Jefferson foi o autor da Declaração da Independência, de preâmbulo fosforescente: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.” Ele escrevia tão bem que dá-me vontade de devolver a minha pena ao ganso. E era um arquiteto esplêndido, autor do projeto do prédio da Universidade da Virgínia e da sua casa em Monticello, hoje Patrimônios da Humanidade. Sua biblioteca, que legou à nação, tornou-se a Biblioteca do Congresso. Em 1962, na Casa Branca, J. F. Kennedy saudou 49 ganhadores do Prémio Nobel no Salão Oval: “Acredito que este seja o mais extraordinário grupo de talento e conhecimento humano já reunido na Casa Branca – com a possível exceção de quando Thomas Jefferson aqui jantava sozinho.”Criaturas do seu tempo (contraditórias, imperfeitas e falíveis como todo ser humano de todos os tempos), Jefferson e Washington tiveram escravos, para cuja libertação definitiva seus atos e ideias contribuíram decisivamente. Aliás, naquela época uma das primeiras coisas que muitos escravos alforriados faziam era… comprar escravos. Hoje Washington (que libertou os seus 123 escravos) e Jefferson são enlameados pelas sentinelas do “presentismo’’, um imperialismo cultural que coloniza o passado com a sua agenda pia – e faz a um manguito ao imperativo historiográfico que manda interpretarmos os eventos nos seus próprios termos, e não pelos dogmas culturais contemporâneos (alcançados graças a tais antepassados). Como diz Niall Ferguson: “Não devemos processar o passado pelo descumprimento das ortodoxias do presente”. Como é óbvio, eu e os meus eventuais leitores somos tão responsáveis pela escravidão (de qualquer época ou lugar) como os millennials alemães pelo Holocausto.1619 é o ano em que os primeiros navios negreiros chegaram aos EUA. Em 2019, o “New York Times” publicou um suplemento de 100 páginas na sua revista, e em 2021 como livro, intitulado “The 1619 Project”, hoje adotado por 4500 salas de aula do país. No prefácio, Nikole Hannah—Jones (jornalista e não historiadora, mas que pela obra ganhou o Pulitzer) afirmou que 1619 era a data da verdadeira da fundação dos EUA, em vez de 4 de Julho de 1776. O argumento é: tudo o que há de excepcional na nação, incluindo o seu poder económico e o seu sistema democrático, foi devido à escravidão – o país foi fundado sobre um pecado original.Hanna-Jones exclui quaisquer vestígios de unidade, cooperação e objetivos comuns entre negros e brancos da história da América, incluindo no abolicionismo, na Guerra Civil, no Movimento dos Direitos Civis ou até hoje (num país em que os negros são só 12,4 % da população, um afro‑americano já foi eleito e reeleito presidente da República, e há 67 congressistas negros).
No livro de 539 páginas sobre escravidão, nenhum abolicionista branco é mencionado. O “1619 Project” refere os 40 mil soldados negros que lutaram e morreram na Guerra Civil para acabar com a escravidão, mas ignora os 320 mil soldados brancos da União que fizeram o mesmo. E omite que 70 mil brancos juntaram-se a 190 mil negros na Marcha de 1963 pelos Direitos Civis, em Washington. Vários especialistas na história americana (Sean Wilentz, James McPherson, Gordon Wood, Victoria Bynum e James Oakes) comunicaram ao “New York Times” inúmeros erros crassos sobre factos verificáveis e não suscetíveis de «interpretação». Na opinião deles, o que o “1619 Project” fez foi «descartar a análise histórica em favor da ideologia».O resultado é a erosão da identidade nacional norte-americana em prol do tribalismo interseccional, segundo o qual só há dois tipos de gente: opressores e oprimidos. Uma vez que as pessoas aceitam tal narrativa, ficam cegas a mundos morais alternativos.Supremacia branca? Mas se ainda hoje a branquitude é uma vantagem tão formidável, não é estranho que tantos brancos estejam a clamar por uma identidade… não branca? Nos EUA o número de latinos que identificam-se exclusivamente como “brancos” caiu 53% entre os censos de 2010 e 2020. Trata-se da percepção de que a branquitude hoje é estigmatizada e nefasta, ao passo que uma identidade multicultural é virtuosa e lucrativa, até através da “discriminação positiva” ou “ação afirmativa” (baseadas em cotas para a cor da pele ou o género, e não na capacidade individual). Da mesma forma, a população indígena americana aumentou de 5,3 milhões para 9,7 milhões entre 2010 e 2020! O que corresponde a quase 3% dos americanos, em comparação com míseros 0,4% em 1970. E não foi devido a um concupiscente surto de fertilidade nativa por causa do Viagra, mas a uma explosão de benefícios para quem se identifica como indígena.Tais mudanças refletem as crescentes vantagens culturais e legais para um americano classificado como minoria étnica – o que aliás é canja. Para usufruir dos benefícios da inscrição tribal Cherokee, por exemplo, basta ter apenas um 1/64 de ascendência Cherokee (quase tão fácil como hoje qualquer homem de barba rija identificar-se como “mulher trans”). Décadas atrás, “arianos” da Índia reivindicavam a branquitude perante a Suprema Corte dos EUA, enquanto afro-americanos mestiços claros professavam-se brancos. As novas atitudes raciais expressam uma metamorfose demográfica ímpar. Em 2020, 53% dos americanos com menos de 18 anos já pertenciam a “minorias” (ou seja, eram maioria). Na Califórnia, agora só 23% das crianças (ou seja, ¼) são brancas.Racismo estrutural? Quando o Gallup abordou a questão em 1958, só 4% dos americanos aprovavam o casamento inter-racial. Hoje, a aprovação é 94%, sem diferenças nas respostas de negros e brancos. Pesquisando 80 países, o World Values Project descobriu que um bom indicador de atitudes raciais é a hipótese de ter vizinhos na porta ao lado de uma raça diferente. Entre os americanos, ínfimos 0,4% disseram não gostar da perspectiva, o que inclui os EUA entre os dez países menos preconceituosos do mundo. Em 2017, no segundo mandato consecutivo do primeiro presidente afro-americano, Michele Obama discursou na Convenção Nacional do Partido Democrata: “Acordo todas as manhãs numa residência construída por escravos e vejo as minhas filhas, duas lindas e inteligentes jovens negras, a brincar com os seus cães no relvado da Casa Branca.”Na semana passada, Nova Iorque (a maior cidade americana, que dita as tendências nacionais) realizou as primárias do Partido Democrata. Todos os candidatos de extrema-esquerda apoiados pelo presidente da Câmara, Zohran Mandani, venceram – derrotando até um membro da família Kennedy. Mandani, que nasceu em Uganda e cujo pai é um dos mandarins da Universidade de Yale, integra o grupo Socialistas Democráticos da América (DAS), que defende a ruptura total dos EUA com Israel (Nova Iorque tem 2 milhões de judeus, mais que Telavive), a abolição das prisões e o desfinanciamento da polícia – mas jurando de pés juntos que toda a gente vai sentir-se segura em casa (exceto os judeus, claro). O DAS planeia uma tomada hostil do Partido Democrata em âmbito nacional, para o anseio supremo da sua wishlist: o fim do capitalismo, no próprio covil deste sistema excrementício.
Um das Passionárias agora a caminho do Congresso é Darializa Avila Chevalier. Em 2024, quando fazia doutorado em sociologia na Universidade Columbia, ela fundou o “Columbia University Apartheid Divest”, e avisou: “Somos ocidentais a lutar pela erradicação total da civilização ocidental”. Depois, para os de compreensão lenta, tuitou: “Marg Bar Amrika”, o que significa “Morte à América” em persa.Quando em 2023 reapareceu no Tik-Tok o vídeo “Carta ao Povo Americano”, em que Bin Laden faz a apologia do antissemitismo e justifica a morte de 3 mil pessoas (de 70 nacionalidades) no 11 de setembro, a postagem viralizou entre centenas de milhares de jovens ocidentais, que “ressignificaram” o terrorista como um paladino edificante. Na altura, a extravagância foi atribuída à proverbial ignorância da juventude. Hoje, tudo indica que conhecer Bin Laden escarrado e cuspido não impediria a avalanche de likes.O sardónico cronista H. L. Mencken disse uma vez que “ninguém nunca perdeu dinheiro por subestimar a inteligência dos americanos”. Talvez agora esse sarcasmo cruel seja finalmente verdade, com a contribuição inestimável de todos os americanos hifenizados – incluindo os unicórnios-americanos.
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