Eles montaram o circo para aparecer El Pantera a resolver
▲Julián Quiñonez inaugurou o marcador, fez uma assistência para o 2-0 e colocou o México no trilho da primeira vitória numa fase a eliminar
Luke Hales
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Ainda antes do apito inicial, a página oficial da Federação Equatoriana de Futebol na rede X tinha na última publicação uma imagem de um comunicado a lamentar tudo o que se passara na véspera e a garantir que iria avançar com uma queixa junto da organização. Aquele era o momento da divulgação das equipas, daqueles conjuntos de imagens da chegada ao estádio. Até, numa perspetiva mais formal e burocrática, de anunciar a todos os adeptos que, devido às condições climatéricas, o encontro com o México para os 16 avos de final já não era às 19h locais (2h em Portugal) mas sim uma hora depois. Mas não, era aquilo, só aquilo e mesmo aquilo. Quando os vídeos começaram a circular, percebeu-se a indignação – se por cá abrem cinco minutos de fogo de artifício e a festa está feita, à porta do hotel dos equatorianos houve de tudo um pouco.Não se percebendo o como, o onde nem o quando, entendia-se o porquê. Quem está habituado a acompanhar Mundiais sabe que, durante vários anos, existiu um fosso enorme entre aquilo que são as autênticas invasões dos mexicanos onde quer que se realize uma fase final e o rendimento da equipa tricolor em campo. Agora, e pela primeira vez provavelmente nas últimas quatro décadas, uns e outros encontram-se ao mesmo nível, vivendo-se no México um clima de euforia que atravessa todo o país e já está a levar a algum controlo mais apertado por parte de vários responsáveis pelos excessos que também vão acontecendo. A estreia não podia ter sido melhor contra a África do Sul, o triunfo com a Coreia do Sul mostrou que agora é “a sério”, a vitória com a Rep. Checa soltou mais a equipa. Agora, viesse quem viesse, era “morrer ou ser morto”.“É a primeira vez que jogar em casa é como ter o teu número 12 em campo. Temos consciência de que temos um país inteiro a apoiar-nos, o que é extremamente encorajador e motivador. Falta de vitórias em jogos a eliminar desde 1986? Cometi erros. Tenho a certeza de que cometi erros em ambas as ocasiões, certamente vou continuar a cometer erros ao longo da minha carreira porque estamos aqui para aprender. O mais importante é não voltar a cometer os mesmos erros. A mensagem é a mesma: jogo a jogo, dia a dia, a tentar jogar melhor a cada vez”, comentara Javier Aguirre, que esteve nessa edição de 1986 em “casa” como jogador e comandou depois a seleção mexicana nos Mundiais de 2006 e 2010. Havia uma parte fundamental para aquilo que os anfitriões podiam ser e que teria de ser controlada: a euforia desmesurada. O resto estava lá.
Mesmo com as condições climatéricas desfavoráveis a obrigarem à realização da partida apenas uma hora depois do que era suposto, muitos adeptos que tinham entrado no interior do Estádio Azteca estiveram, na maioria com capas da chuva, a dançar todas as músicas que chegavam dos altifalantes. Não havia água, não havia atrasos, não havia cansação, valia tudo. É esse o estado de espírito dos adeptos da formação mexicana, que vão começando a perder o filtro em relação aos limites para a sua formação no Mundial. Nem mesmo o facto de estar pela frente um conjunto equatoriano em êxtase depois da vitória frente à Alemanha, que deu a qualificação para os 16 avos de final, serenava a euforia como há muito não se via num país que adora futebol, tem uma legião de seguidores que só acompanha a seleção e vive, agora, uma equipa de joga futebol.A maneira como o México entrou em campo ligado à corrente foi um exemplo paradigmático da simbiose que se vive entre equipa e adeptos, deixando quase a ideia de que os anfitriões podem disputar qualquer jogo com qualquer adversário (o que não será bem assim). Nenhuma das aproximações terminou depois com remates enquadrados mas notava-se a confiança da equipa da casa, que teve apenas um susto quando John Yeboah, na sequência de uma jogada individual na área, acertou o poste (18′). Esse lance acabou por ser quase um despertar das “feras”, sobretudo aquela que consegue desequilibrar sozinho um encontro: Julián Quiñones recebeu um passe na profundidade de Alvarado partindo ainda antes do meio-campo para ligar o turbo, virar da esquerda para o meio e disparar um míssil para o 1-0 (22′), assistindo depois Raúl Jiménez numa grande jogada coletiva que começou numa recuperação de bola em zona alta do antigo avançado do Benfica antes de receber o passe do avançado dos sauditas do Al-Qadsiah e rematar colocado para o 2-0 (31′). Yeboah voltou a ter um grande lance individual com defesa de Raúl Rangel para canto e resultado não iria mexer.
It had been more than two years since Ecuador allowed two goals in an entire match (26 matches with 11 goals conceded in that span). Mexico got there in just over half an hour. pic.twitter.com/yTx26n1YsA
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 1, 2026
INTERVALO ⏱️[ ???????? México 2-0 Equador ???????? ]
???? Mexicanos vão ditando a lei, empurrados pelo ambiente do Azteca, com superioridade mas também eficácia na hora do remate, enquanto os equatorianos já se podem queixar dos ferros (mais um tiro aos ferros, somam 4, máximo do Mundial)… pic.twitter.com/4KtBvHrC2l
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 1, 2026Aquele que era o princípio base do Equador tinha sido derrubado em pouco mais de meia hora, com uma equipa que não sofria dois golos num jogo há mais de dois anos (equivalentes a 26 encontros) a ter agora de recuperar dessa desvantagem para evitar essa eliminação. As indicações eram claras, os suplentes também tentavam mexer no jogo, mas aquilo que estava torto, tarde ou nunca se voltaria a endireitar, com o México, que perdeu gás na frente e tentou de forma assumida gerir a vantagem no marcador, a ter ainda as melhores oportunidades em dois cabeceamentos na sequência de César Montes após canto que por pouco não aumentaram a vantagem (66′) antes de um final de partida mais quelizento e que teve a “lei Prestianni” de novo a entrar em campo, neste caso com Hincapié a ser expulso após tapar a boca a falar com Santi Giménez.
Julián Quiñones começa a mostrar-se como o homem dos grandes momentos e, à semelhança do que tinha acontecido no encontro inaugural com a África do Sul, voltou a desfazer a defesa contrária com um par de arrancadas explosivas que não deixa margem depois para travar “El Pantera”. Marcou mais um golo na competição, com uma arrancada pleno de força que só acabou com um míssil sem hipóteses para a baliza, e fez a assistância para Raúl Jiménez em pouco mais de meia, hora deixando tudo praticamente sentenciado numa partida que foi caindo de qualidade com o México mais a gerir a vantagem.
Gilberto Mora, o mais novo de sempre a jogar em Mundiais, conseguiu ganhar a titularidade e, com isso, conquistar mais minutos de selecção aos 17 anos. É craque, ainda com muito para polir mas “craque”. No entanto, tem outra vantagem que se nota em campo: joga ao lado de dois jogadores que, sendo médios da Liga mexicana com características diferentes, funcionam como autêntico esteio naquilo que são as manobras ofensivas e defensivas da equipa, com Erik Lira, do Cruz Azul, a ser um elemento mais posicional e de recuperações, e Luis Romo, do Chivas, a ter mais chegada a zonas de finalização.
Com esta vitória, a primeira em 40 anos numa fase a eliminar do Campeonato do Mundo, o México quebrou um primeiro enguiço e garantiu qualificação para os oitavos de final, onde irá defrontar no mesmo Estádio Azteca, na Cidade do México, o vencedor do jogo entre Inglaterra e RD Congo. Já o Equador, que chegava ao Mundial com esse “título” da segunda posição no grupo da CONMEBOL apenas atrás da Argentina, sai da prova apenas com o triunfo diante da Alemanha em quatro jogos.
Apesar de ter Curaçau no grupo, que cedo se percebeu que seria a seleção mais frágil, o grupo E era visto por muitos como um dos melhores de toda a primeira fase por juntar uma Alemanha renovada que teria condições para voltar a chegar a fases mais avançadas da prova, uma Costa do Marfim era era uma das formações mais talentosas de África e um Equador que acabara a qualificação no segundo posto apenas atrás da Argentina. Todas conseguiram seguira na prova, incluindo o terceiro posicionado que chegou aos quatro pontos. Contas feitas, e quando ainda não vamos a meio dos 16 avos de final, todas já foram também eliminadas, com derrotas frente a Paraguai, Noruega e agora México.









