A moral voltou às escolas de negócios
Estive na semana passada no INSEAD, em Fontainebleau, com um filho meu, convidados para apresentar as características que consideramos serem a razão da longevidade de uma empresa familiar, que no nosso caso já atingiu os 255 anos.
As escolas de negócios estão hoje fortemente interessadas em conhecer melhor a realidade das empresas familiares pois têm concluído, ao longo dos anos, que a sua longevidade ultrapassa muito significativamente a das empresas cotadas e não familiares.Durante décadas e após a escolha absoluta do conceito de liberalismo económico como a solução mágica de promoção do desenvolvimento económico, estas escolas estão a chegar à conclusão de que os resultados obtidos pelas empresas que se moldaram a esse conceito em absoluto não trouxe o desenvolvimento esperado e está mesmo a estruturar uma sociedade com graves problemas na sua sustentabilidade.A medida da eficiência das empresas baseada apenas nos resultados imediatos obtidos criou uma forma de administração destas empresas focada em decisões de curto prazo e que foram fazendo desaparecer da estrutura da sociedade um dos temas que durante séculos foi a sua garantia de equilíbrio que foi a moral.
Com a introdução do liberalismo, a moral foi sendo destituída do seu lugar de coordenadora da sociedade, chegando mesmo a um momento em que falar de moral foi quase considerado antidemocrático ou mesmo característica ditatorial.Já aqui escrevi um dia que Adam Smith, considerado como um dos pais do liberalismo, que escreveu no seu trabalho – A Riqueza das Nações – que a escolha do melhor para cada um é a melhor forma de promover o desenvolvimento económico do Estado, foi também professor de Filosofia Moral e defendia que o egoísmo excessivo é condenável porque ignora os interesses e sentimentos dos outros.Na sua perspectiva, aquilo que propunha no seu pensamento sobre o liberalismo económico não poderia ser nunca desligado daquilo que era o seu conceito de uma sociedade em que a moral era uma presença essencial.Para Adam Smith, a moral devia ser defendida pelas pessoas, pela educação, pelos costumes sociais e pela consciência moral de cada indivíduo.Por isso defende o importantíssimo papel da família, da sociedade civil, da educação e da justiça e, nesta perspectiva, dizia que a moral devia ser promovida pelas pessoas e defendida pelo Estado através da garantia do funcionamento da justiça.
Ora, ao longo dos 250 anos que comemoramos em 2026, do lançamento do seu livro sobre o Liberalismo económico, fomos desvirtuando o conceito que nos deixou Adam Smith, focando-nos egoisticamente naquilo que considerávamos mais eficiente no curto prazo e deixando cair tudo aquilo que nos daria mais trabalho manter e que estava menos ligado ao rendimento e mais à moral, à educação e à defesa dos garantidos pela instituição essencial, na sua perspectiva e que era a família.Hoje, o conceito de liberalismo está completamente adulterado e sempre associado a uma liberdade absoluta nos costumes, o que resultou na criação de uma sociedade profundamente dividida, em que a distância entre ricos e pobres aumentou absurdamente e que avança a passos largos para uma disrupção que pode mesmo ser a destruição da própria sociedade.Foi por isso mesmo, com uma enorme alegria que ouvi pela primeira vez, numa escola de negócios, que há já alguns anos procura encontrar no exemplo das empresas familiares aquilo que deve ser a forma de gerir as empresas em geral, introduzirem a preocupação do papel da moral na economia.Ainda assim, e compreendendo que a reintrodução da moral neste contexto justifique plenamente um estudo profundo sobre qual o seu papel, aquilo que me parece razoável é voltar ao básico que foi apresentado há 250 anos por Adam Smith e que é: liberdade na economia, mas moral na sociedade e justiça assegurada pelo Estado e a promoção da família como essencial a este projecto.
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