Museu do Caramulo. O que nasce nos intervalos da arte?
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Estou no Museu do Caramulo, no distrito de Viseu, a conhecer uma exposição que estreou este mês de abril de 2026 e que vai estar aqui neste museu até ao mês de agosto. Chama-se White Box um: Intervalos. É o primeiro de três ciclos, sendo que contribuíram para este acervo quatro artistas. Comigo tenho uma das responsáveis por esta coleção, Inês Pina Ferreira. Muito boa tarde.
Olá, boa tarde.
Inês, eu começo por lhe perguntar: quando nós aqui entramos nesta parte do museu dedicada a esta nova coleção, somos logo recebidos por uma caixa branca, é logo a chamar para aquilo que nós viemos.
Exatamente. Caixa branca, precisamente White Box, por assim dizer. Nós quisemos que esta fosse a imagem de marca deste ciclo de residências artísticas, o White Box, e acho que é importante contextualizarmos aqui um bocadinho o que é esta White Box e por que os visitantes, quando chegam ao museu, se deparam, desde logo, com este cubo branco, este ser estranho aqui na sala. O ciclo White Box sucede ao ciclo Black Box, que foi um ciclo que aconteceu aqui no Museu do Caramulo, teve apreciações e resultados bastante positivos e deixou aqui no museu aquele bichinho para querermos continuar a fazer mais pela nossa coleção, pela coleção, sobretudo, de arte contemporânea. Também se deve ao fato do fundador do Museu do Caramulo, Abel de Lacerda, quando decide fundar aqui o museu, quer também trazer aqui residências artísticas. Ele quer que os artistas venham até ao Caramulo, trabalhem a partir da serra, trabalhem a partir do museu e fiquem aqui mais conectado também com as nossas coleções. Por isso, foi assim que o Museu do Caramulo decidiu finalmente dar azo a esta ideia. Foi sobre estes motes que surgiu a ideia da White Box.
O Caramulo é musa de inspiração também para estes quatro artistas.
Exatamente. Não só a serra em si, mas aqui, muito particularmente, a essência e a peculiaridade do Museu do Caramulo. Para conseguirmos aqui perceber, o White Box um é um projeto curatorial de José Maçãs de Carvalho. Conta com a participação de quatro artistas, a Catarina Leitão, a Daniela Kirsch, Fabrízio Matos e o João Fonte Santa. Eles estiveram em residência no Museu do Caramulo, experienciaram a coleção, experienciaram as reservas, tiveram contato com a equipe do Museu do Caramulo e, a partir desta experiência, produziram obras totalmente originais, que são aquelas que nós agora aqui encontramos.
Estes artistas são portugueses ou há algum que não o seja?
Sim, todos eles residem e trabalham em Portugal. Podem ter nacionalidades diferentes, como é o caso da Daniela e da Catarina. O Fabrízio também tem uma costela italiana, mas todos eles trabalham e residem aqui em Portugal. Isso também é importante para o contexto que acabam por aqui trazer.
Acaba por estar exposto o trabalho nacional.
Exatamente, sim. Aqui, como queríamos contextualizar, eles trabalham sobretudo aquilo que é o próprio museu. Ou seja, foi um desafio do José Maçãs de Carvalho, que quis então explorar a peculiaridade deste museu, como eu há pouco falava, a própria localização, e isso tudo estimulou aqui a metodologia residencial. Ou seja, ele pensou no Museu do Caramulo como um espaço que concilia diversos tempos num só tempo, que é aquele que hoje vivemos. Ou seja, com uma enorme diversidade de objetos e obras de um período temporal lato. José Maçãs de Carvalho inspirou-se e quis explorar os antigos gabinetes de curiosidades do século XVI e XVII, que são nada mais, nada menos, do que uma antecipação do museu moderno. São lugares privados, iniciados pela nobreza, que mostravam peças raras recolhidas nas viagens, no período expansionista europeu, mas também pela burguesia em ascensão, com a necessidade de marcar um estatuto social a partir de um determinado gesto cultural. Portanto, aqui aos artistas, o que o curador fez? Ele pediu que considerassem a totalidade das peças do Museu do Caramulo, incluindo a coleção de automóveis, a coleção de arte, as reservas também e todas as peças resultantes, que são elas totalmente originais. Eu volto a frisar, porque é importante perceber aqui este ímpeto presente, esta originalidade. Todas as peças originais que se apresentam nesta exposição operam nos intervalos, ou seja, da linha narrativa da coleção permanente, daí o nome Intervalos. Criou-se aqui uma dinâmica também de subtração de peças do acervo, que foram guardadas em reservas, e de acréscimo de outras peças que resultaram na exposição que hoje se apresenta ao público e que estará patente até o dia 8 de agosto.
E esta exposição, este acervo que está espalhado ao longo das várias salas que existem aqui no Museu do Caramulo, sendo que há uma última sala de arte contemporânea em que o que está é para ficar. Não é verdade, Inês?
Sim, vamos tentar que sim. Ou seja, como referiu, e muito bem, as peças estão dispersas ao longo das várias salas. Todas elas podem ser e são identificadas com uma tabela que segue o modelo das tabelas do Museu do Caramulo, com exceção de que são brancas e têm o símbolo White Box, que assim os visitantes também conseguem perceber quais são as obras que fazem parte, porque eu sinto que elas estão de tal forma bem integradas na nossa coleção, que quase que poderiam passar despercebidas. Depois, sim, temos uma última sala, a sala da arte contemporânea, onde se reúnem as obras de todos os artistas que estiveram aqui em residência, que agora têm a sua exposição, sendo que desta exposição vão resultar doações para o Museu do Caramulo. Por isso, acredito piamente que muitas das obras que ali estão já são mesmo para ficar. José de Macedo Carvalho já pensou todo um projeto curatorial para receber as obras destes artistas e para receber as dos futuros artistas das próximas White Box.
Esta caixa branca que aqui temos à nossa frente não é uma das obras, mas é uma imagem de marca que veio para ficar e conta aquilo que é suposto serem estes três ciclos.
Exatamente, porque foi o que eu disse no início, ou seja, no fundo é este cubo branco, este ser estranho que aqui está, que faz jus ao próprio nome do ciclo, White Box, que queremos precisamente que seja essa a imagem de marca. Ou seja, na White Box 2, White Box 3, as pessoas vão chegar e vão conseguir identificar que isto é uma continuidade e não o início.
Esta imagem de marca que fica da exposição, que pode ser visitada no Museu do Caramulo até ao mês de agosto. Inês Pina Ferreira, muito obrigada.
Obrigada, nós também.










