Perguntas dos ouvintes: em que cruz foi morto Jesus?
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Bem-vindos ao quinto episódio especial de “As Histórias da Bíblia”. Todas as semanas, às quintas-feiras, respondemos a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. São muitos aqueles que nos ouvem todas as semanas e que nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt, ou que têm deixado perguntas e sugestões nos comentários, quer do YouTube, quer das várias plataformas de podcast. Já sabem, estamos aqui todos os domingos às 9h da manhã, na Rádio Observador e sempre em podcast, e também às quintas-feiras pra um episódio mais curto, este apenas em podcast, pra tentar responder algumas dúvidas dos nossos ouvintes. Todos aqueles que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós, no episódio do último domingo, estivemos a falar sobre João Batista, esse profeta do deserto que batizou o seu primo, Jesus. Se não ouviu na Rádio Observador, pode ainda encontrar o episódio em podcast, em todas as plataformas. Esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte João Queiroz e Melo, e já agora uma saudação muito especial pra este nosso ouvinte, conhecido médico e cirurgião, que foi responsável pelo primeiro transplante de coração da história em Portugal, em 1986. Ora, o João Queiroz e Melo enviou-nos o seguinte e-mail com uma pergunta muito específica e muito curiosa: “Bom dia, sigo o vosso podcast com grande interesse e aprendizagem. Obrigado. Venho sugerir que abordem um tema que me intriga. Gostaria de estar certo sobre o tipo de cruz em que Cristo foi crucificado. As cruzes usadas para crucificação pelos romanos eram a Crux Simplex, a Crux Commissa, ou seja, a cruz Tau, e a Crux Immissa, ou seja, a cruz latina. Esta é a clássica imagem mais associada à crucificação de Jesus. Uma representação que resulta”, diz o nosso ouvinte, “de uma viagem de Santa Helena a Jerusalém com uma validação que me parece duvidosa. Ora, lendo os evangelhos de Mateus, Lucas e João, só este último é que é mais específico, dizendo que Pilatos disse pra pôr em cima da cruz as palavras ‘Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus’. Era mais fácil colocar um letreiro numa cruz Tau do que numa cruz clássica. Acresce-se que a cruz Tau era o símbolo dos primeiros cristãos. Se eu fosse Pilatos”, diz ainda o nosso ouvinte João Queiroz e Melo, “usava essa cruz para humilhar Jesus. Estou certo que me podem ajudar a esclarecer melhor esta dúvida e, quem sabe, alguns ouvintes”. Ora bem, Daniel, através dos textos do Evangelho, conseguimos descortinar alguma informação sobre o tipo de cruz em que Jesus pode ter sido crucificado? É verdade que há uma cruz, esta cruz latina, que ficou claramente como o formato mais popular. É aquela que hoje associamos ao símbolo do cristianismo, mas Jesus pode ter sido crucificado noutro tipo de cruz?
Pode. Eu acho que a nossa representação pictórica é devedora de uma tradição ocidental, que nos habituamos a ver esta cruz latina, esta cruz normal que temos aqui representada, que não seria necessariamente o que era utilizado pelos romanos. No entanto, ao investigar o que a história nos diz, o que os historiadores nos dizem sobre isso, desses três tipos de cruzes, dessa Crux Simplex, no fundo, seria só uma estaca, que se colocava depois ali o crucificado. Talvez descontando essa, que parece-nos pouco provável, as outras duas cruzes sabemos que eram utilizadas pelos romanos. Ou seja, uma cruz em Tau, que mais do que o nosso Tau estilizado, é no fundo um T maiúsculo. Basta pensarmos num T maiúsculo, ou seja, com a trave horizontal no topo. Ou a Cruz Immissa, que no fundo é a cruz latina, com ainda um bocadinho por cima da trave horizontal. Um pouquinho de vertical por cima da trave horizontal. O que nos dizem, por exemplo, já em Sêneca e Tácito, encontramos a informação de que o normal é que houvesse já uma cruz no lugar da crucifixão, no fundo, o pau vertical, o stipes ou staticulum, e que o condenado levaria apenas a trave horizontal às costas, o patibulum, em latim. Segundo Raymond Brown, um estudioso, um exegeta do Novo Testamento, que também tem um grande comentário às narrativas da crucifixão e morte do Senhor, diz que normalmente transportava-se esse patibulum, essa trave horizontal, que seria mais curta. A cruz total seria um peso demasiado grande para o condenado suportar e era suposto levar ele próprio a cruz. Se fosse só esse patibulum, pesaria uns 40 kg, 50 kg no máximo, algo bastante pesado, mas ainda assim humanamente suportável, e que era normalmente levado atrás da nuca como um jugo, com os braços do condenado puxados pra trás e presos sobre ele. Portanto, a informação, o que é mais provável do ponto de vista histórico é que Jesus levasse só essa parte horizontal da cruz e que chegado ao lugar da crucifixão, depois se fosse pregado ou amarrado, também comparando com descobertas de crucificados no primeiro século, os pés eram pregados, os braços podiam ser pregados ou apenas amarrados, mas então seria colocado com a restante parte da cruz. Mas repito, quer a cruz em T maiúsculo, em Tau, quer a cruz latina eram de fato utilizadas pelos romanos. O que nos leva, a maior parte dos autores, a dizer que o mais provável é ser a cruz latina, é precisamente esta informação dos evangelhos que foi colocado um letreiro em três línguas, no caso de São João, ou por exemplo, São Lucas diz simplesmente que havia ali um letreiro a dizer: “Este é o rei dos judeus”. Se o letreiro está, como geralmente está nas nossas cruzes, por cima ou se estaria de lado ou se estaria embaixo. João, de fato, diz-nos que está mais para cima, mas que haveria um certo letreiro. Parece corresponder à informação dos evangelistas. Apesar de tudo, é relativamente compatível com ambos os tipos de cruzes. Por isso eu diria que o mais provável é essa opinião, de ser a cruz latina, mas a outra também não é impossível.
Temos que reconhecer que o limite aqui também da ciência, da arqueologia não nos consegue…
Sim, o ouvinte diz-nos que o Tau, como era um símbolo de cristãos, poderia ser possível, mas de fato torna-se um símbolo dos cristãos a partir da crucifixão. E também a partir de uma leitura, os autores destacam, por exemplo, até uma própria leitura simbólica do Antigo Testamento, e sabemos como a leitura do Antigo Testamento para encontrar categorias para falar da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. Por exemplo, Isaías, como uma grande chave de leitura para a morte e para o sacrifício de Jesus. Também em Ezequiel 9:4, há uma marcação da letra hebraica Tav, que corresponde mais ou menos ao Tau, portanto, a última letra do alfabeto hebraico, que era colocada sobre a testa dos fiéis, uma espécie de marcação desse sinal, que por acaso até era em cruz, porque no alfabeto hebraico antigo, esta letra Tav era uma cruz em X. E, portanto, também terá sido essa uma das motivações em ver a cruz como esse símbolo dos cristãos.
João, alguma coisa a dizer sobre como um instrumento de tortura e de execução se tornou o símbolo de uma religião?
Não tenho nada a dizer. Aquilo que o Daniel disse, só agradecer ao seu doutor os transplantes de coração, porque o meu avô paterno também recebeu um. Portanto, agradeço muito. É mais importante do que aquilo que eu alguma vez disse neste podcast.
E do que terias a dizer sobre…
Exato. Muito, então sobre isso, sem dúvida alguma.
Muito bem, ficamos assim com este episódio especial de “As Histórias da Bíblia”, em que procuramos responder a esta dúvida, em que admitimos a dada altura que é impossível saber muito mais sobre verdadeiramente o tipo de cruz ou o formato da cruz em que Jesus foi crucificado. A verdade é que há um formato que se tornou o mais popular e que depois foi adotado pelos cristãos como símbolo religioso. Se quiser enviar-me uma pergunta para o podcast “As Histórias da Bíblia”, já sabe, pode escrever-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt, sem acentos, portanto, ashistoriasdabiblia@observador.pt. Pode também deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Não se esqueça também de seguir o programa para garantir que recebe uma notificação sempre que sair um episódio novo, para nunca perder nenhum destes episódios que são exclusivos de podcast e que não passam na Rádio Observador. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio da nossa segunda temporada. Vamos falar sobre Maria e José, os pais de Jesus, e na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.









