Ébola na RDCongo: falta de dinheiro e guerra travam resposta
▲A epidemia alastrou ao Uganda, onde foram detetados até agora 20 casos confirmados
DIEUDONNE DIROLE/EPA
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou esta sexta-feira que a falta de financiamento e o conflito no leste da República Democrática do Congo (RDCongo) estão a dificultar a resposta ao surto de Ébola declarado a 15 de maio.
O Diretor Regional da OMS para África, Mohamed Janabi, descreveu a situação epidemiológica como “alarmante” e denunciou que as promessas da comunidade internacional não se têm traduzido em fundo de maneio.“A minha mensagem aos parceiros e doadores que estão a ouvir é muito clara: sabem que o nosso orçamento inicial estimado era de 518 milhões de dólares (pouco mais de 450 milhões de euros). Foram feitas muitas promessas de financiamento, mas o dinheiro ainda não chegou às contas”, afirmou Janabi numa conferência de imprensa virtual.Após 45 dias de operações no terreno para conter a propagação da estirpe Bundibugyo, o diretor regional da OMS alertou que a combinação de violência armada e restrições financeiras ameaça levar a uma crise que já prevê atingir “1.500 casos confirmados na RDCongo até meados deste mês”.
Em junho passado, a OMS e os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC, na sigla em inglês) informaram que a resposta ao surto requer agora 1,4 mil milhões de dólares (cerca de 1,2 mil milhões de euros) e que, até à data, apenas 13% dos 910 milhões de dólares (aproximadamente 800 milhões de euros) prometidos foram entregues.Também o chefe da resposta médica na RDCongo, Pierre Akilimani, alertou que as equipas de saúde realizam o seu trabalho sob o impacto direto da insegurança nas províncias de Ituri e Kivu do Norte.A presença de milícias está a sabotar o rastreio obrigatório de contactos devido aos incidentes violentos sofridos pelas equipas civis no terreno, sujeitas aos ataques de grupos rebeldes como o Movimento 23 de março (M23, apoiado pelo Ruanda), e pelo exército congolês, apesar da presença da missão de paz da ONU (MONUSCO, na sigla em inglês).“A atual situação de segurança torna extremamente difícil localizar contactos, uma vez que as nossas equipas estão a ser atacadas. O envolvimento comunitário continua a ser um desafio e recebemos relatos de centros de tratamento incendiados”, admitiu Akilimani.
Também a diretora regional de emergências da OMS, Marie Belizaire, realçou que o vírus está a circular num ambiente inseguro devido ao conflito armado, o que impede as equipas médicas de chegarem às comunidades mais remotas, “que são as que apresentam o maior número de infeções”.“Em segundo lugar, devido ao risco extremamente elevado de propagação transfronteiriça: 15 dos 20 casos confirmados no Uganda foram importados da RDCongo, toda esta zona de conflito também faz fronteira com o Sudão do Sul, e a capacidade do sistema de saúde do Sudão do Sul para lidar com uma emergência deste tipo é extremamente preocupante”, acrescentou.Blizaire reforçou que o fluxo de financiamento internacional não está a acompanhar as necessidades operacionais no terreno.“Não estamos a dizer que o Ébola se vai tornar uma pandemia global, mas um vírus não respeita fronteiras. O agente patogénico está a circular num ecossistema complexo de crise humanitária e, se o controlo for atrasado, a exportação regional e periódica de casos é garantida”, concluiu.
A OMS destacou a magnitude da crise na RDCongo, onde as atuais 447 mortes e 1.460 infeções superam todos os surtos anteriores da variante Bundibugyo juntos.De acordo com o último boletim do Ministério da Comunicação e dos Media da RDCongo, com dados recolhidos até 1 de julho, a taxa de letalidade está atualmente nos 30,6%, menos 0,6 pontos percentuais do que no dia anterior.Os últimos dados apontam ainda 595 doentes que estão a receber tratamento e outras 213 pessoas que recuperaram da doença.A epidemia alastrou ao Uganda, onde foram detetados até agora 20 casos confirmados, incluindo 15 casos considerados importados da República Democrática do Congo (RDCongo), e duas mortes.










