"Lamentável": padres denunciam inação militar após sismos
▲Rafael lamentou que tudo esteja a ser feito "sem os militares"
MIGUEL GUTIÉRREZ/EPA
Rafael e Antony arregaçaram as mangas dos hábitos clericais e foram para Catia La Mar ajudar a encontrar corpos de vítimas dos sismos de há uma semana e meia, e criticaram os militares bolivarianos “que recusam” ajudar.
Rafeal e Antony não podiam estar mais distantes dos socorristas que incansavelmente correm contra o tempo para resgatar pessoas que ainda possam estar vivas debaixo de andares inteiros de edifícios. Os dois são sacerdotes de uma cidade “a cinco horas de caminho daqui”.Quando os terramotos de 24 de junho assolaram La Guaira, Rafael e Antony despiram os hábitos clericais e dirigiram-se a Catia La Mar para “ajudar como podiam”.Ao chegar à cidade à beira-mar depararam-se com um cenário de destruição absoluta e as pessoas desesperadas, sem mãos a medir e “sem o apoio esperado do Estado”.
Rafael é um homem alto, utiliza uma máscara de proteção individual, está com um polo azul claro e calças azul-marinho. Não retirou a estola (faixa que recai sobre os ombros dos padres); Antony também não.De luvas nos braços, agarra numa marreta e, sem hesitar, sobe ao quarto andar de um prédio que agora está praticamente ao nível do chão, num monte de detritos indistinguíveis.“Estou a ajudar uma senhora a retirar o corpo do filho, já o encontrámos, mas ainda não chegámos lá”, disse à Lusa, no momento em que parou para recuperar um pouco de fôlego: “Estamos aqui dia e noite a ajudar esta senhora com os vizinhos dela.”Rafael disse que quando chegaram a La Guaira esperavam “uma situação complicada”.“Mas nunca imaginámos que estaria assim, é devastador, não sobrou nada”, completou o sacerdote, que apenas falou por um momento. Chegou um rapaz numa motorizada e os dois foram buscar “mais pás e picaretas”.
“É o que temos – e as nossas mãos – para ajudar, mas é claro que a este ritmo vamos demorar muito. Esta senhora está aqui desde o dia em que aconteceram os terramotos”, comentou o sacerdote.Rafael lamentou que tudo esteja a ser feito “sem os militares”. Retirou a máscara para falar.“É lamentável, não ajudam em nada, deviam estar aqui como todos estamos, mas não o fazem, recusam fazer parte disto”, criticou.Duas ruas abaixo, os socorristas vietnamitas e os militares estão envolvidos numa alegada operação de resgate, um dia depois de a Presidente interina do país, Delsy Rodríguez, ter rejeitado críticas de inação por parte do Governo, durante uma conferência de imprensa, em Caracas.
De acordo com testemunhos locais consultados pela Lusa, os militares estarão a procurar um vice-almirante soterrado que utilizou código morse para entrar em contacto com outro militar que estava a passar.Os militares disseram a alguns órgãos de comunicação social que estão há cinco dias envolvidos neste resgate. No entanto, a Lusa esteve no local há dois dias e não estavam a decorrer operações, não havia ninguém no local, exceto um grupo de moradores que tentava recuperar um corpo num edifício do outro lado da rua.A Lusa não conseguiu verificar as informações que os militares estavam a difundir.“Se é uma vida, que bom que seja resgatada. É isso que todos queremos, mas também gostávamos de ver esta vontade para ajudar os civis, estão tantos desesperados e os familiares também”, criticou o sacerdote, considerando que “muitos podiam ter sido resgatados se os militares estivessem a ajudar as pessoas”.
Antony regressou com mais três pás e duas picaretas.Rafael despediu-se, agarrou numa picareta.“Aqui, vamos tentar perfurar aqui”, disse um dos voluntários, um rapaz, que utiliza duas máscaras para se proteger da inalação de pó dos edifícios em ruínas, e um capacete laranja.“A este ritmo vamos demorar dias e nunca os vamos encontrar a todos”, comentou Antony, que foi logo atrás do amigo sacerdote.










