PS e Chega: o "jamais" dura pouco
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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Então o problema da habitação não tem solução?
Não, não e não. Isto para tudo rimar. Não tem uma solução e as medidas que vão sendo tomadas aparentemente só têm agravado o problema que se pretendia resolver. Por exemplo, os benefícios aos jovens no acesso aos créditos fizeram aumentar a procura e como a oferta é pouca, os preços sobem. Até eu, que não sou economista, sei esta regra. Claro, depois toda a gente diz que estava mesmo a ver que era o que ia acontecer. Mas também havia quem reclamasse o alargamento do apoio a todos e não apenas aos mais jovens. A situação é tão grave que até Carlos Moedas foi à Europa dizer que os nossos cidadãos já não conseguem suportar o preço dos imóveis e que a União Europeia tem de procurar soluções conjuntas, sabendo que não há nenhuma receita infalível ou uma bala de prata que de um dia para o outro resolva tudo. O presidente da Câmara de Lisboa chegou mesmo a sugerir o recurso à inteligência artificial para facilitar os licenciamentos, sabendo também que a burocracia é aqui outro dos vectores do problema, uma burocracia que emperra o sector da construção e limita, lá está, uma vez mais, o aumento da oferta. O problema da habitação não tem solução porque é mesmo um problemão, e isto para acabar a rimar.
E no Parlamento, Paulo, todos se entendem mesmo com todos?
Essa é uma realidade que tem muitas provas factuais e vai acumulando ainda mais. A AD, o PS e o Chega, no fundo, escusam de vir trocar acusações entre si sobre as alianças que vão fazendo. Por regra, o Chega gosta de acusar a AD, de alinhar com o PS naquilo que o Chega acha que são os vícios do sistema, e o PS gosta de apontar à AD o pecado de se entender demasiadas vezes com o Chega. Mas a verdade é que socialistas e cheguistas lá vão tendo também os seus entendimentos instrumentais quando querem contrariar o governo e a bancada da AD. E ontem voltou a acontecer. O PS conseguiu aprovar com o Chega o projecto que permite acumular dois apoios para jovens, a acumulação da devolução de propinas e o IRS Jovem. Neste caso, para os socialistas, o Chega já não é tóxico. E uma coisa é certa nestes entendimentos: sempre que o PS e o Chega alinham num projecto, das duas, uma: ou é para aumentar a despesa ou é para cortar na receita do Estado.
Bruno, então e depois de duas bolas ao poste, é agora que o governo marca golfe na lei da nacionalidade?
O governo está a tentar, está a dar tudo. Tem sido um jogo muito equilibrado, mas não nos podemos esquecer do árbitro, que continua em campo. Depois do Tribunal Constitucional ter travado várias normas da primeira versão da lei, agora o PSD e CDS, a AD, voltam ao Parlamento com um texto mais afinado. Reduziram a lista de crimes que podem levar à perda da nacionalidade, aumentaram a gravidade das penas exigidas e procuraram assim responder às objecções dos juízes do Constitucional. Nesta nova proposta, cai o limite temporal para a prática dos crimes após a obtenção da nacionalidade, que era de 15 anos. Caem também os crimes de escravidão, abuso sexual, tráfico de pessoas, como motivos para retirar a nacionalidade. Agora, resta saber se para o Tribunal Constitucional estas alterações serão suficientes para a bola cruzar a linha de golo, até porque o governo não considera essencial que a bola entre na baliza, no que à lei da nacionalidade diz respeito, porque em relação à lei, acha que o mais importante já está garantido. Isto aqui serão uns extras.
E o Chega já fez saber que se calhar também não vai aprovar esta bola, este remate.
Fica tudo como está.
E no crédito, Paulo, mais vale prevenir do que remediar?
É sempre melhor prevenir, no crédito também, mas em tudo, diríamos. E é essa a ideia do Banco de Portugal, que acaba de apertar as regras na concessão de crédito. A taxa de esforço máxima permitida desce de 50% para 45% do rendimento líquido, o que significa que os clientes bancários vão ter que destinar uma fatia mais pequena dos seus rendimentos quando fazem as contas para o pagamento das prestações. No fundo, a ideia aqui do Banco de Portugal é travar um pouco os níveis de endividamento das famílias, que vão crescendo, mas também a exposição dos bancos ao risco. Os níveis de preços elevados do imobiliário estão a preocupar o Banco de Portugal. Por quê? Porque se os preços caírem, um dia destes, os balanços dos bancos, obviamente, vão ter que assumir essa desvalorização, porque muitos imóveis estão lá como garantia. E isso tem, obviamente, impacto na solidez financeira da banca e, por isso, na lógica do Banco de Portugal, mais vale ir carregando um pouco no travão e desacelerando o crédito.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.









