O choque dos dois mundos: brasileiros e portugueses
Quando fui viver para Portugal, em 2011, levei algumas semanas a perceber que havia algo de diferente, não no país, mas em mim. Tentei comprar um bilhete de avião e não consegui parcelá-lo. Quis comprar eletrodomésticos, roupa, calçado, e a resposta era sempre a mesma: paga-se de uma vez. Para um brasileiro habituado a dividir tudo, o choque foi grande. Tão grande que, durante muito tempo, continuei a comprar os bilhetes da própria TAP através de sites brasileiros, onde a companhia os vendia a prestações, e a reservar hotéis pelo Brasil, só para conseguir parcelar. Tinha atravessado o Atlântico, mas o meu instinto financeiro ainda não.
E aqui há um pormenor que devia fazer pensar quem gere a economia portuguesa. Se eu, e tantos outros, comprávamos pelo Brasil para conseguir parcelar, então cada uma dessas compras era consumo que saía de Portugal e era faturado do outro lado do oceano. Com mais de 574 mil brasileiros a viver hoje em Portugal, a maior comunidade estrangeira do país, não é difícil imaginar que uma fatia não negligenciável de consumo escape, todos os anos, à economia portuguesa por esta simples diferença de hábitos. É uma fuga silenciosa, que nenhuma estatística mede, mas que existe.Mais tarde, ouvi de um português a história inversa, e ela é o espelho perfeito desta. Estando ele no Rio de Janeiro, entrou numa sapataria de um famoso centro comercial da cidade, escolheu uns sapatos e ficou estupefacto quando a vendedora lhe perguntou se desejava parcelar o pagamento. Sapatos. A prestações. Para ele, aquilo era quase surreal. Para quem o atendia, era a coisa mais natural do mundo.Um país que parcela tudoNo Brasil, o crédito não é um recurso de emergência. É o sistema operativo do consumo. Parcela-se o carro, a viagem, a roupa, o restaurante e, sim, até o medicamento na farmácia e as compras do supermercado. No cartão, é possível dividir uma compra em até vinte e quatro vezes. Eu próprio, este ano, comprei um jet ski em doze prestações sem juros no cartão de crédito. Para um português, isto soa a imprudência. Para um brasileiro, é apenas um dia comum.
E há aqui uma lógica que o brasileiro domina e que escapa a quem nunca viveu numa economia de inflação alta. Quando se parcela sem juros num país onde os preços sobem cerca de 5% ao ano, como hoje no Brasil, cada prestação futura vale, em termos reais, menos do que a primeira. A última parcela, paga doze meses depois, pesa sensivelmente menos no bolso do que pesava no dia da compra. É uma vantagem real, e o brasileiro, mesmo sem fazer a conta no papel, aprendeu a senti-la. Uma sofisticação financeira nascida da necessidade.O problema é quando o parcelamento descamba. Olha-se para o valor da prestação, nunca para a soma de todas elas. E quando a conta não fecha e se entra no crédito rotativo do cartão, o brasileiro depara-se com uma das taxas de juro mais brutais do planeta: mais de 440% ao ano. Não é gralha. Uma dívida que, deixada a rolar, duplica em poucos meses. Não admira que cerca de oito em cada dez famílias brasileiras tenham hoje algum tipo de dívida, o nível mais alto em duas décadas.Um país que paga de uma vezEm Portugal, a relação com o dinheiro é quase a oposta. Paga-se à cabeça, poupa-se primeiro e compra-se depois. E há um pormenor que, vindo do Brasil, me chamou imediatamente a atenção. Quando vivia em Portugal, a gerente do meu banco explicou-me algo que me deixou perplexo: muitos portugueses, quando não querem pagar a fatura inteira do cartão, simplesmente pagam o mínimo e deixam o resto transitar para o mês seguinte. Não parcelam a compra no acto, como no Brasil. E, ao contrário do que eu conhecia, o cartão não fica bloqueado por isso, podendo continuar a ser usado normalmente.
A explicação está na taxa. Em Portugal, o crédito do cartão está limitado por lei a uma taxa máxima anual perto dos 19%, fixada pelo Banco de Portugal. É uma taxa alta, ninguém o nega, e deixar a fatura rolar tem sempre um custo. Mas, comparada com os mais de 440% do rotativo brasileiro, parece quase simbólica. Onde o brasileiro foge do juro do cartão como do diabo, porque ele devora um orçamento em meses, o português pode olhá-lo com uma serenidade que, para mim, era inédita.E aqui deixo uma reflexão, em jeito de hipótese e não de conselho. Se o brasileiro encontrou no parcelamento sem juros, aliviado pela inflação, a sua ferramenta de gestão do dia a dia, talvez o português disponha, sem disso ter plena consciência, de uma ferramenta equivalente do seu lado: a possibilidade de, num mês mais apertado, pagar apenas parte da fatura e deixar o resto transitar, a um custo que, sendo real, é incomparavelmente mais suave do que aquele que esmaga o consumidor brasileiro. Não é um convite ao endividamento, que esse é sempre perigoso, mas uma constatação. Cada país, à sua maneira, criou um mecanismo de folga. Só que um deles cobra dezanove por cento ao ano por essa folga, e o outro cobra mais de quatrocentos.Esta cultura portuguesa de prudência tem números a sustentá-la. A taxa de poupança das famílias ronda os 12,5% do rendimento disponível, um dos valores mais altos dos últimos vinte anos. O português guarda. Coloca o dinheiro em depósitos a prazo, em certificados de aforro, em capital garantido. Prefere a segurança de não dever a ninguém ao fascínio do consumo imediato.Como contabilista, vejo nisto duas grandes virtudes. A primeira é óbvia: quem não se endivida não cai na armadilha dos juros. A segunda é a resiliência, porque famílias que poupam resistem melhor a um imprevisto. Mas há um reverso, e seria desonesto não o apontar: o português poupa de forma tímida, deixando demasiadas vezes o dinheiro a render abaixo da inflação, a perder poder de compra em silêncio. Poupa bem na intenção, mas timidamente na execução.
O que cada um pode ensinar ao outroE é aqui que as duas culturas, em vez de se julgarem, deviam conversar.O brasileiro tem muito a aprender com a prudência portuguesa. A ideia simples de que uma prestação que cabe no bolso não é o mesmo que algo que se pode pagar. De que a soma das parcelas é a verdadeira conta. De que a liberdade de não dever a ninguém vale mais do que qualquer compra imediata. Quem chega do Brasil faz bem em deixar na alfândega o hábito do parcelamento infinito, porque, ao contrário do que sucede lá, em Portugal a rede cultural de tolerância ao sobre-endividamento é muito mais ténue, e o tombo, quando acontece, é duro.Mas o português também tem o que aprender com o brasileiro. A familiaridade com os números, o instinto para comparar taxas, a noção viva de que o dinheiro perde valor com o tempo e que, por isso, deve trabalhar e não dormir num depósito. O brasileiro, forjado numa economia adversa, desenvolveu uma musculatura financeira que ao português, protegido pela sua prudência, muitas vezes falta. A cautela é uma virtude. A passividade não é.
A mesma língua, duas relações com o dinheiroNo fundo, são dois filhos da mesma língua criados em casas muito diferentes. Um aprendeu que o dinheiro é para usar já, e a gerir as consequências depois. O outro aprendeu que o dinheiro é para guardar, ainda que isso custe o prazer do presente. Nenhum dos dois está inteiramente certo, e a sabedoria mora, provavelmente, no ponto de encontro entre ambos.Eu próprio sou hoje um produto dessa travessia, e confesso que aprendi com os dois. Trouxe do Brasil o à-vontade com os números e o instinto de pôr o dinheiro a trabalhar, de aproveitar um parcelamento sem juros quando a inflação o torna vantajoso. Aprendi em Portugal a serenidade de não dever e o gosto tranquilo de pagar à vista aquilo que já posso. Mas a lição mais valiosa não foi escolher um dos lados. Foi aprender a usar, em cada momento, aquilo que é mais vantajoso. Parcelar quando as contas o justificam, pagar de uma vez quando isso me dá liberdade. O jet ski paguei-o em doze vezes, sem juros, porque a matemática mandava. Um eletrodoméstico, hoje, pago-o à cabeça, porque a tranquilidade compensa.E talvez seja essa, afinal, a verdadeira riqueza que a travessia entre dois países me deu. Não a de ter mais, nem sequer a de dever menos. A de saber, em cada decisão, qual das duas heranças usar.
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