Os espanhóis que "entram a matar" no fogo em Vouzela
▲Daniel Salsón está há três anos na UME e coordena a equipa espanhola em Vouzela
GUILHERME COSTA OLIVEIRA/OBSERVADOR
Os moradores de Daires já desesperam com os incêndios. O cenário repete-se ano após ano e desde que as chamas que começaram em Vouzela chegaram a esta localidade, poucos têm conseguido dormir. Entre a aflição, surgem reações extremadas. “Porque é que têm que ser os espanhóis a vir apagar o fogo? Tiveram que ser os espanhóis a apagar as chamas”.
Aos gritos, enquanto vê as chamas a caminho das casas, um morador reclama com os bombeiros portugueses enquanto elogia os militares vizinhos. Mas foi com o apoio de todos — bombeiros, sapadores florestais, UME e Proteção Civil — que o fogo não chegou às habitações.“Ontem [sexta-feira] de noite estivemos aqui em grupo até às 5h15, porque estávamos com receio que o fogo chegasse. O fogo estagnou até às 10h [de sábado]. Entretanto chegaram alguns Canadair que deram muito jeito”, relata Teresa Clemente, enquanto entra na Associação Amigos Daires para encher copos com água e distribuir pelos operacionais.“Depois das 13h começou a preocupar mais. Só agora [pelas 16h] é que os bombeiros estão a chegar, mas eles não podem estar em todo o lado. De certeza que os outros lados estavam pior e a nossa povoação só agora começou a ficar mais em perigo. Por isso só estão a chegar agora e em força, com muitos meios”.No terraço da associação, onde costumam conviver os vizinhos, o movimento é diferente do habitual. Dezenas de pessoas apreensivas olham para o fumo que entra pelas narinas e se vê cada vez mais perto. Teresa tenta salvar os montes de palha que juntou para a festa da “recriação da malha de centeio”, que costuma realizar-se em julho, mas que não sabem ainda se se manterá.
GUILHERME COSTA OLIVEIRA/OBSERVADOR
Ali perto, e num local onde já se vê o fogo, António desespera. “Os bombeiros vão fazer o quê? Vão apagar o fogo quando ele já estiver aqui?”. Teresa tenta acalmar o homem e pede-lhe para se afastar das chamas.Antes do trajeto que separa o fogo das casas, além de muitos eucaliptos, há pequenas quintas de gado que os donos tentam resgatar. “Tenho aqui os meus animais. Ia tirá-los se os bombeiros não se aproximassem para eles não arderem. Entretanto os bombeiros chegaram e não foi preciso, estão todos bem”, explica Fátima Henriques.O marido abana com a cabeça e confirma o relato. “Se não fossem os bombeiros aquilo ia arder tudo. Os bombeiros chegaram rapidamente e foram incansáveis”, acrescenta Arlindo. A mulher retoma o discurso para dizer que ainda estão a equacionar a necessidade de retirar os “dez frangos, seis galinhas e nove coelhos”. “Eu não gosto de ver queimar pessoas, mas também não gosto de ver queimar os meus bichinhos”, lamenta.“Os bombeiros espanhóis foram impecáveis. São incansáveis”, elogia Arlindo. Os aplausos aos operacionais estrangeiros surgem naturalmente nas conversas. “Os que acudiram aqui foram os espanhóis, sem margem de dúvida. Estavam três camiões em frente à minha casa”, diz Elsa Martins.Daniel Salsón olha com orgulho para estas palavras. “Essas pessoas conseguiram salvar as suas vidas, os seus bens materiais, a sua casa, e no final de tudo ainda nos agradecem… acho que não há maior satisfação do que ver o dever cumprido”. Além do carinho que vão sentindo através da comida que os portugueses vão oferecendo, o capitão assume que sentem esse carinho quando estão no terreno. “É uma Unidade que claramente onde vai é para acrescentar e para ajudar nas emergências. Para dar tudo o que temos e todas as pessoas recebem isso de forma recíproca”.










