A falha na correcção dos exames é o exame
Faça parte de um Governo de esquerda ou de direita, se há missão que o nosso Ministério da Educação cumpre com galhardia é a de acabar com as desigualdades entre os alunos. É uma missão nobre e, felizmente, levada muito a sério. Em Janeiro de 2021, num dos confinamentos da COVID, o então Ministro Brandão Rodrigues proibiu os estabelecimentos de ensino privados de darem aulas online porque o Governo, em 10 meses, não tinha conseguido apetrechar as escolas públicas com as condições para o fazer. Obviamente, não podia deixar que uns alunos fossem prejudicados e outros não. A bem da igualdade, optou por prejudicar todos.
O Governo do PSD não lhe quer ficar atrás. A trapalhada no processo de correcção dos exames nacionais é prova disso. O Ministério pode não conseguir corrigir exames, mas está a corrigir disparidades. Neste caso, proporcionando uma oportunidade a todos os jovens de contactarem precocemente com a conhecida falta de organização do Estado.Neste tema, é sabido que, entre alunos da escola pública e alunos de colégios, os primeiros são clara e injustamente beneficiados. Têm o privilégio de conviver com a bandalheira desde tenra idade, o que os prepara para uma vida inteira de frustrantes interacções com o Estado. Fornece-lhes ferramentas preciosas para o futuro. Quando, já adultos, têm o primeiro embate no guiché de atendimento de um organismo público, já sabem o que é o caos, a falta de previsibilidade, o desrespeito por prazos e a arbitrariedade na interpretação de regras. Ao longo da infância, acumularam horas de greves de professores e de funcionários, de horários estapafúrdios das secretarias, de instalações fechadas por causa da chuva, do frio, do sol ou do vento, de falhas informáticas e de coimas caprichosas por atrasos – enquanto a escola não cumpre prazos, sem qualquer consequência.Já os meninos do particular não têm essa benesse. Até aos 18 anos vivem numa bolha, ignoram o que se passa lá fora, na repartição. São muito novos para terem de lidar com o SNS, a burocracia autárquica, a AT ou sistema de justiça. Um adolescente que passe 12 anos num colégio e se prepare para frequentar uma universidade privada, pode estar até aos 25 anos sem colidir com a caranguejola avariada que é a máquina da administração pública. A primeira vez que um funcionário da segurança social lhe pedir um documento que o próprio Estado já possui, ou que precisar de uma licença que só se pode requisitar online num site que está sempre 404 not found, ou que lhe disserem que o prazo de 30 dias que a Câmara tem para lhe responder afinal são 30 dias que sejam 4.as feiras, o que faz com que a resposta só chegue depois de ultrapassada a data que tem para a fazer chegar a outro organismo público (que, esse sim, é rigoroso com prazos), nessa ocasião, o jovem atirado à bruta para a bagunça entra em choque anafilático.
Por isso é que este colapso nos exames acaba por ser uma boa introdução à vida adulta em Portugal e estabelece algum equilíbrio entre os favorecidos da escola pública e os lesados da escola privada. Dá um cheirinho de burocracia paralisante. É o mesmo princípio da vacinação: ligeira exposição ao bicho numa tenra idade obriga o corpo a construir defesas. Uma inoculação de balbúrdia estatal aguada, na idade certa, imuniza para a vida.A falha na correcção dos exames é o exame. E, pelas reacções emocionais já vistas, os alunos chumbaram. O Ministro da Educação esteve muito bem quando disse: “Quem é pai sabe que, nesta fase, não sabendo os resultados, marcar férias para este período é imprudente.” Só peca por defeito: não são apenas os pais que devem saber que não se pode confiar que o Estado cumpra os compromissos a que ele próprio se obriga, são os portugueses em geral. A candura de planear a vida confiando na palavra do Estado é um traço de personalidade que não interessa passar à descendência. Se, até aos 10 anos, vamos desmentindo a existência do Pai Natal, da Fada dos Dentes, de vários vencedores na mesma corrida e de outras ingenuidades, não há razão para continuar a dizer aos nossos filhos que podem fiar-se no funcionamento competente dos serviços públicos. O caso da rapariga que marcou uma viagem a Londres para ir ver o Bruno Mars, não prevendo que o novo sistema informático para correcção de milhares de provas que têm impacto na vida de alunos e famílias não foi testado previamente como é suposto, é preocupante. Onde é que estava com a cabeça? A prática deste comportamento de risco revela uma falta de discernimento assustadora. Que outro tipo de imprudências anda esta estudante a cometer? Aposto que também partilha agulhas e come ameijoas que estão fechadas. Enquanto anda de mota sem capacete.Para terminar, devo dizer que não percebo as críticas da esquerda a este fracasso. Durante anos, ouvimos o clamor pelo fim das provas nacionais, os protestos contra o facto de terem tanto peso nas notas. Agora que se percebe que o mais provável é que este ano as provas não contem mesmo para a nota, refilam. Em 2015, Catarina Martins, então coordenadora do Bloco de Esquerda, afirmou que preferia crianças que dessem gargalhadas a crianças cujos conhecimentos fossem testados. Ora, isto é um exemplo perfeito de um compromisso saudável entre os desejos da esquerda e as aspirações da direita: hoje, os conhecimentos são testados, mas não são corrigidos. Além disso, sem resultados, não se organizam os malvados rankings. O que faz sentido. Que interessa saber quais as melhores escolas e quais as piores? É indiferente. São todas em Portugal.
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