Mourinho deixou de ser opção, Jesus tornou-se a única via
▲Jorge Jesus prepara-se para ter a primeira experiência numa seleção aos 71 anos por Portugal, depois de já ter sido antes sondado pelo Brasil
Mal comparado, era quase como aquela pergunta recorrente que se fazia sempre a Cristiano Ronaldo sobre a possibilidade de ser o último Mundial da carreira aos 41 anos. No entanto, havia uma diferença: o avançado lá assumiu que a sexta presença na maior competição de seleções era mesmo o último capítulo na prova mas não fechou por completo a prova em marcar presença ainda no próximo Europeu de 2028, que se realizará entre Inglaterra, Escócia, País de Gales e Rep. Irlanda. Da parte de Roberto Martínez, era quase uma notícia mais do que anunciada que pedia apenas uma confirmação do próprio. Após a derrota, ela lá chegou.
“Sim, é o meu último jogo na Seleção. É um orgulho. Acho que vocês conseguem olhar para o aspeto mais objetivo: os 45 jogos que fizemos juntos. Mas sinto-me recebido como mais um português, de uma forma muito querida. Foi um prazer, um orgulho e uma responsabilidade. É difícil encontrar o fim deste ciclo, mas no contexto faz todo o sentido”, começou por dizer o técnico espanhol na conferência de imprensa.“Conversa com o presidente? Não conversámos mas é o fim de ciclo. É legítimo que o senhor Pedro Proença possa escolher o seu selecionador. Quero agradecer ao presidente e à Federação todo o apoio e tudo o que fizeram para nos darem todas as condições. Agora, é o fim de um ciclo. Levo comigo as memórias e espero que o povo português possa ter memórias dos três anos e meio. Se a saída já estava fechada? Acho que não estava… Cheguei a Portugal para ganhar o Mundial e acho que, sem ganhar, não faz sentido continuar. A Direção e o presidente têm agora a possibilidade de escolher o novo selecionador. O presidente sempre apoiou o meu trabalho, mas o meu contrato termina hoje. Não há muito mais a dizer”, acrescentou nesse momento que não demorou a circular pelo estádio, com Cristiano Ronaldo a elogiar o trabalho que foi feito.“O que eu quero dizer ao míster é que adorei trabalhar com ele. É um grande treinador, um grande ser humano e aquilo que ele fez por Portugal é de louvar. Ganhou um título por Portugal. Muitas pessoas não dão valor, mas Portugal antigamente não tinha ganho nada e ultimamente ganhou títulos. Isso demonstra o bom que tens de ser para ganhar um título por Portugal. Quero dar-lhe um obrigado e que seja muito feliz no futuro”, apontou o capitão da Seleção, que teve uma posição diametralmente oposta em relação ao que se tinha passado com o antecessor, Fernando Santos, que após sair não teve qualquer palavra pública para o ex-selecionador (embora o mesmo assuma que a relação entre ambos se mantinha intacta, referindo também que algumas coisas que aconteceram no Mundial de 2022, no Qatar, acabaram por ser mal interpretadas).
Apesar de ter referido na conferência de imprensa de que ainda não tinha falado com Pedro Proença sobre o seu futuro, todos sabiam em termos internos que o espanhol estava de saída. Mais: todos souberam que, por altura da Final Four da Liga das Nações, Roberto Martínez apenas ficou no cargo por conseguiu vencer essa competição após bater na final a Espanha em Munique, no desempate por grandes penalidades. Mesmo não havendo qualquer indicação pública da Federação nesse sentido, entre os elogios que Proença foi fazendo ao selecionador sobretudo após essa conquista, todos percebiam que era uma questão de tempo até chegar a este desfecho. Houve “crédito” para mais um ano, terminou com a eliminação nos oitavos do Mundial.Nesse hiato, não se pode falar numa “guerra surda” entre as partes mas perceberam-se os momentos em que os discursos eram “diferentes”. Exemplo prático: Pedro Proença colocou sempre Portugal como um candidato a ganhar o Campeonato do Mundo, por entender que o leque de jogadores à disposição não ficava a dever a nada nem a ninguém, ao passo que Roberto Martínez baixou sempre as expetativas, recordando a vantagem teórica com que seleções que já tinham sido campeãs mundiais partiam para a competição. Apesar das visões diferentes, ambos fizeram questão de evitar qualquer choque público. Da mesma forma, mantendo sempre essa parte mais “discreta”, cada um foi preparando o pós-Mundial de 2026.“Quando nos propusemos a sermos candidatos a vencer o Mundial, fizemo-lo por acreditar na qualidade dos nossos jogadores, e num talento com pouco paralelo na nossa história. Vai Dar Portugal, mais do que um mote, era um sentimento que unia todos os portugueses. O resultado que obtivemos no Mundial-2026 fica aquém do esperado. A eliminação numa fase tão precoce não é consentânea com a qualidade dos nossos jogadores, mesmo contra um adversário de enorme categoria. O futebol é cruel, mas ensina-nos uma verdade para a vida. Não somos os melhores quando vencemos, não somos os piores quando perdemos”, começou por escrever nas redes sociais Pedro Proença, na primeira reação depois da derrota.“Em cada jogo há uma aprendizagem. Não há sucesso sem processo, o processo existe e irá levar-nos ao êxito. Em nome da Federação Portuguesa de Futebol, agradeço a todos os adeptos que apoiaram Portugal. Nos EUA, no Canadá, em Portugal, por todo o mundo. A onda verde e vermelha foi impressionante. Em setembro começaremos o apuramento para a Liga das Nações. Continuaremos fortes, continuaremos a ser Portugal”, acrescentou o líder da Federação, com essa nota de não referir em nenhum momento Martínez.
Apesar da especulação em torno de uma possível ida para a Arábia Saudita, nomeadamente para o Al Nassr de Cristiano Ronaldo e João Félix, a hipótese acabou por cair ainda antes de ganhar o formato de uma oferta em concreto, com o conjunto de Riade a apresentar Ange Postecoglou, que venceu a Liga Europa no comando do Tottenham, como sucessor do campeão Jorge Jesus no clube. Roberto Martínez sabe que tem mercado no futebol europeu e não só, sabe também que existem possibilidades para voltar a treinar um clube (esteve nove anos no Swansea, no Everton e no Wigan, antes de uma décadas nas seleções de Bélgica e Portugal) mas não tem pressa para assumir um novo projeto, qualquer que seja o seu âmbito.Já em relação ao futuro da Seleção, existem poucas dúvidas em relação a um nome que se tornou unânime com o passar dos meses: Jorge Jesus. Segundo soube o Observador, José Mourinho era uma figura que tinha tanta ou mais força nas opções de Pedro Proença do que Jorge Jesus há um ano, caso Roberto Martínez saísse um ano antes do final do contrato, num cenário que chegou a ser comentado entre alguns elementos da Seleção. Com a entrada de Mourinho no Benfica, e atual passagem para uma segunda vida no Real Madrid 13 anos depois de deixar o Santiago Bernabéu, Jesus, que decidiu sair do Al Nassr depois de sagrar-se campeão saudita pela formação de Riade, tornou-se a opção mais forte (e única) para o cargo.Quem diz não à Seleção? É uma das melhores do mundo. Não posso dizer que não a outra [risos]… O Mundial está aí, o selecionador precisa de tranquilidade, não me quero meter nessas barafundas”, comentou Jesus após a época no Al Nassr, recordando a sondagem do Brasil.Por um lado, Pedro Proença sempre acreditou que, num futebol que consegue ter alguns dos melhores jogadores, dos melhores treinadores, dos melhores agentes e dos melhores dirigentes, que chegam depois às melhores ligas europeias, não fazia sentido ter nesta fase um selecionador que não fosse português. Perante esse cenário, Jorge Jesus surgia como uma solução natural, ainda mais perante a vontade manifestada pelo técnico em ter a primeira experiência numa seleção, neste caso a de Portugal, aos 71 anos, depois de, há alguns anos, considerar que estaria no ponto de ter uma oportunidade de treinar um grande clube europeu. Esse convite nunca surgiu, sobretudo após o ano de sucesso no Flamengo onde ganhou tudo o que havia para ganhar incluindo a Taça dos Libertadores, e a opção acabou por recair na Arábia Saudita.
Tendo em conta que a Seleção apenas voltará a competir em setembro, as próximas semanas deverão ser de reflexão sobre o que não correu bem nesta campanha do Mundial-2026, ao mesmo tempo que se perceberá se o arranque da caminhada para a Liga das Nações de 2027 e para o Campeonato da Europa de 2028 vai ou não contar com Cristiano Ronaldo (que fechou apenas a porta à possibilidade de fazer outro Mundial, neste caso em 2030 co-organizado por Portugal, Espanha e Marrocos). Em paralelo, Jorge Jesus deverá chegar a acordo em breve para ser o sucessor de Martínez, com um contrato válido por dois a quatro anos, depois de ter recebido contactos exploratórios e até propostas para ligas que não as cinco principais europeias.









