Os 32 minutos que recordaram quem é o Bola de Ouro
▲Ousmane Dembélé tornou-se o segundo jogador a conseguir um hat-trick tão rápido num encontro do Mundial
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Depois daquelas reações, daquela corrida de Ståle Solbakken para a bancada onde abraçou a mulher e teve o momento em que recordaram juntos o dia em que esteve “morto”, da remada viking ao som do tambor que era tocado por Ödegaard no relvado para que todos, de jogadores e adeptos, fizessem a coreografia que está a apaixonar tudo e todos neste Mundial, a Noruega mostrava que tinha alcançado e com distinção aquele que era o primeiro grande objetivo no regresso à competição: passar a fase de grupos, arriscar a sorte naquilo que se denomina de “mata-mata”, mostrar que tudo o que está a acontecer é mais do que um conto de fadas e até funciona como coroa para tudo um trabalho de base que está a ser feito desde a formação não só no futebol mas em modalidades como o andebol, o atletismo ou os desporto de inverno. No entanto, havia algo que poucos ou nenhuns poderiam esperar: chegar à hipótese de ganhar o grupo e rodar toda a equipa.Ao contrário da França, que fez apenas as mudanças habituais e pontuais na equipa entre laterais, médios e um dos avançados que não Olise, Mbappé e Dembélé, os escandinavos optaram por fazer muitas poupanças na formação inicial. Haaland? Banco. Ödergaard? Banco. Sander Berge? Banco. Nusa, Sörloth, Ajer? Tudo no banco. Aursnes aguentou-se na equipa mas porque é aquele canivete suíço que resolve qualquer problema e o técnico não quis arriscar Ryserson (que saiu lesionado contra o Senegal) ou Marcus Pedersen (que entrou, fez um bom jogo mas saiu “de rastos”). Schjelderup tinha uma oportunidade de ouro para brilhar mas tendo o obstáculo de entrar numa equipa sem rotinas onde sobrava apenas vontade de mostrar serviço para ganhar mais minutos do que se segue. Não era o seu único problema: os gauleses iam com a artilharia toda.Além da clara mensagem que ficava para todos sobre a importância de vencer a partida e carimbar o primeiro lugar no grupo, a França jogava também em “homenagem” ao timoneiro de quase uma década e meia, Didier Deschamps, que perdeu a mãe esta semana, viajou para a Europa para estar no funeral e acompanhar a sua família e era substituído pelo seu adjunto já desde os tempos do Marselha, Guy Stéphan. Não era por aí que les bleus estariam bem ou mal no campo mas havia uma motivação extra para ser melhor num encontro que iria ser antecedido por um minuto de silêncio em memória das vítimas na Venezuela. Questão: não demorou muito para se perceber que a fasquia até os melhores serem ainda melhores estava elevada, com Doué a juntar-se ao Trio Maravilha para fazer o habitual Quarteto Fantástico com um super herói.
Logo no primeiro minuto, num lance em que descaiu sobre a direita, Mbappé rematou forte mas Egil Sevik ainda conseguiu desviar com a ponta dos dedos para a trave. Logo a seguir, Koné também se quis juntar à festa do “tiro ao alvo” mas o guarda-redes do Watford voltou a levar a melhor (4′). Não foi à primeira, não foi à segunda, foi mesmo à terceira: após receber um passe de Mbappé, Dembélé, que começou mais vezes esta partida a ir da direita para o meio e não o contrário, atirou de pé esquerdo para o 1-0 (7′). O mais complicado estava feito, com a Noruega a procurar reagir numa fase de maior relaxamento da estrutura defensivas dos gauleses em que teve um remate de Kristian Thorstvedt para defesa de Maignan (11′) e uma bola muito bem trabalhada na área por Jorgen Strand Larsen que acabou com um tiro por cima em boa posição (14′). Havia quase um “espicaçar” da França, a resposta não demorou: Mbappé, que vira Sevik negar-lhe mais uma vez o golo (17′), voltou a dar ao lado em Dembélé e o Bola de Ouro colocou em jeito sem hipóteses (20′).Aí, nesse momento, a Noruega resgatou uma vida extra. E resgatou num dos lances mais simples mas melhor definidos deste Mundial: bola ao meio, quatro toques a avançar pela esquerda até colocar a bola em Thelo Aasgaard, finta de corpo sobre Tchouaméni a dar espaço para o remate e tiro a enganar Maignan para o 2-1 logo no minuto seguinte (21′). Poderia esta versão B dos escandinavos “mexer” com a partida ao recolocar a desvantagem pela margem mínima? Em condições normais sim… se não existisse um Dembélé a fazer o seu melhor encontro neste Mundial, suficiente para necessitar de pouco mais de meia hora para fazer um hat-trick na principal prova de seleção e sem grande ciência: passe de Koné, uma primeira ameaça, outra ameaça, terceira finta e remate de pé esquerdo com Fredrik André Björkan a passar mal nesta viagem (32′).A história parecia estar escrita, sem que Solbakken estivesse muito preocupado com o que se estava a passar a não ser nos períodos em que os franceses aceleravam mais e ameaçavam o “atropelo”. Ainda assim, houve outra vida extra em cima da mesa, neste caso não aproveitada: Oscar Bobb deixou Theo Hérnández trocado antes de ser carregado na área mas Strand Larsen tanto quis ser artista que permitiu a defesa do castigo máximo a Maignan (50′). Leo Ostigard, central que assistiu através de uma videochamada ao nascimento do primeiro filho durante este Mundial e que já admitiu que anda com horas de sono em atraso, ainda teve mais uma ameaça de cabeça mas o 3-1 não tinha alterações, com o próprio ritmo da partida a baixar até uma nova defesa de Maignan a remate de Bobb (72′). Os minutos avançavam e acabaria por ser a França, quase a jogar a passo, a fechar a goleada com Barcola a trabalhar na esquerda e Doué a desviar de cabeça (90+4′).
Fez três remates, marcou três golos… e falamos apenas dos primeiros 32 minutos de jogo. Se dúvidas ainda existissem, que às vezes ainda parece existirem perante o protagonismo que é dado a Mbappé (e até Michael Olise, sendo ambos excecionais), Ousmane Dembélé mostrou o porquê de ser o Bola de Ouro como principal marcador do bicampeão europeu de clubes pelo PSG. Tornou-se o segundo jogador a demorar tão pouco a marcar três golos, apenas superado pelo austríaco Erich Probst (1954, 24′), e fez aquilo que melhor sabe: tornar simples e com os dois pés aquilo que às vezes parece ser tão complexo…
Não se pode dizer que a Noruega tenha feito uma grande pressão na segunda parte para poder reentrar mais uma vez na partida, como acontecera no primeiro tempo, mas teve oportunidade flagrantes para reduzir a desvantagem e reabrir o encontro até ao final (até porque tinha Erling Haaland, Ödegaard e companhia no banco). Quem evitou? Mike Maignan, o elemento talhado a ser sempre o mais discreto nos jogos dos gauleses perante a artilharia pesada do meio-campo para a frente mas que defendeu um penálti de Strand Larsen (50′) e outro remate isolado em boa posição do esquerdino Oscar Bobb (72′).
Provavelmente, a única ideia da Noruega ao rodar tanto a equipa era apenas poupar jogadores para a fase a eliminar mas, colocando-se quase “a jeito” para perder e ficar mesmo na segunda posição do grupo I, vai agora defrontar a Costa do Marfim, segundo classificado do grupo E, nos 16 avos de final, cruzando de seguida com o vencedor do Brasil-Japão. Já a França, ao somar o terceiro triunfo noutros tantos jogos como o México (únicos até ao momento), assegura o primeiro lugar, vai jogar contra um dos melhores terceiros classificados mas, na teoria, pode cruzar com a Alemanha logo nos oitavos de final.
Egil Selvik foi o guarda-redes da equipa goleada e mesmo assim foi o melhor jogador da equipa. Só isso já diria muito em que relação ao comportamento defensivo da Noruega mas, se não fosse o guardião do Watford, o castigo podia ser muito maior. Jogar contra quatro dos melhores avançados da atualidade não é uma tarefa fácil para ninguém mas a forma como os defesas escandinavos foram ultrapassados no 1×1 sem que existisse uma ajuda mais célere que criasse situações de superioridade numérica sem bola foram um aviso para aquilo que se segue. Pode jogar A, B ou C mas há comportamentos, posições e referências que não se podem perder – até porque, se acontecer a partir de agora, vale eliminação.










