CIÊNCIA

Afrodite e a origem do Tempo

O mar guarda aquilo que o céu deixa cair, retém o que a altura já não consegue sustentar, como vasto arquivo líquido de tudo o que do alto se perde. Da ferida aberta no corpo do pai não caiu apenas um resquício indistinto, mas uma gota branca, um coágulo de sal e sangue, pequeno fragmento arrancado ao poder e, no entanto, incapaz de morrer, porque aquilo que foi cortado não se extingue: transforma-se em elemento, em matéria errante que passa a circular no corpo do mundo. A castração de Οὐρανός (Úrano, o céu) não é um fim, mas uma translação na textura do cosmos: o céu é mutilado para que o desejo possa, enfim, penetrar a água, e Afrodite nasce precisamente nesse lugar ínfimo e decisivo onde um órgão deixa de ser órgão, onde o imperium é despojado de corpo, o poder se liberta da sua função e se torna fluido, espuma, lágrima, sémen, tudo aquilo que não pode ser enterrado e que, por isso mesmo, regressa à superfície sob a forma de onda.
O grego narra esta história com cruel ternura: ἀφρός (aphros, espuma) designa, por um lado, a turbulência do mar agitado, cravejado de pequenos brancos que denunciam a força escondida sob a superfície, mas também a respiração tornada visível, a saliva nos lábios, o corrimento das fêmeas no cio, o branqueamento do leite batido. A espuma é a vida que se agita ao ponto de se exibir, é o excesso que não se contém, e é dessa agitação que a deusa brota: não como o mar calmo, maciço e insondável, mas como a orla inquieta onde a força pesada se dissolve na aparência, na cintilação, na borda que não pára de se recompor.A castração de Úrano é, nesse sentido, uma interrupção violenta na verticalidade do cosmos. O céu repousava sobre a terra, formando um peso compacto que impedia qualquer nascimento; é o corte, quase cirúrgico, que introduz uma distância onde antes só havia contacto esmagador. O desejo precisa de distância para se formar, para aprender a caminhar, e Afrodite é o primeiro intervalo, não gerado por um útero, mas por uma lacuna, uma falha, uma abertura. Ela não nasce da paciência de uma mãe, da gestação silenciosa, mas do gesto súbito de violência de um filho que ergue a foice, Κρόνος (Cronos, tempo), e, ao brandi-la, faz começar o tempo, inaugurando uma cronologia feita de feridas, porque o amor começa no preciso lugar em que o tempo corta, na linha onde o antes se separa do depois.A sexualidade neste mito não é natural, nem moral, nem redutível a qualquer código reprodutivo; é, antes de tudo, cirúrgica, operação realizada no interior do cosmos, intervenção que transforma o corpo do mundo. O pénis do céu torna-se um objecto sem corpo, um fragmento à deriva, desapegado da sua anatomia primitiva, e é nesse desapego, nesse perder o comando, que ele ganha sedução: o poder, uma vez castrado, cede à beleza, abdica da sua autoridade fechada e abre-se ao fascínio. Eis o escândalo de Afrodite: ela é a autoridade privada de lei, poder desarmado da norma, seduz precisamente porque não ordena, porque não manda, apenas convoca e arrasta.
Muitos outros mitos, sob máscaras diferentes, repetem e confirmam esta verdade discreta. No antigo Egipto, Atum masturbava o mundo até à existência e os deuses gotejavam do seu sémen, brotando de um acto solitário; na Índia, o lingam de Shiva incendeia a floresta até ser cortado e venerado, e só então, transformado em símbolo, apazigua o fogo que o rodeia. Em toda a parte, o falo cria enquanto inteiro, mas é quando é cortado que de repente fascina; o corte retira-lhe a utilidade imediata e converte a força em signo, marca que já não serve para dominar, mas para significar.A castração funciona, por isso, como lição de leitura. O significante é separado daquilo que significa; o falo, outrora instrumento de dominação, torna-se imagem, ídolo flutuante à superfície do mar, e Afrodite nasce dessa semiótica incipiente, desse gesto em que o mundo descobre que pode ler os seus próprios vestígios. Ela é a deusa do significado desamarrado, o sentido que se solta do corpo que o encarnava, excesso interpretativo do corte.O mar recebe o que a terra rejeita, torna-se arquivo das mutilações, grande receptáculo onde vão parar lágrimas, cadáveres, juramentos quebrados, destroços e até o prepúcio do céu. Guarda segredos por via da dispersão, acolhe-os para os entregar à fragmentação, e a primeira veste de Afrodite é precisamente essa dispersão, condição de não ser uma só, mas de se multiplicar em muitas ondulações, em rostos diversos. Daí os seus epítetos: dos jardins, da noite, das ondas, do riso, cada um apontando para uma forma diferente de se deixar ver sem se fixar. Ela multiplica-se porque não possui um único ponto de origem que possa ser localizado; o seu começo é uma ferida, e a ferida, por definição, espalha-se.Se a etimologia é uma forma de arqueologia, Afrodite carrega no nome a espuma, mas também esconde δυειν (dyein, afundar, mergulhar), porque o amor afunda o sujeito, desequilibra, encharca, retira o pé firme ao corpo. O desejo é um baptismo sem igreja, rito sem instituição, e a deusa está nua porque o mar a desnuda, porque a água não tolera vestes; as roupas são artifício de superfície.
Outros nascimentos ecoam, com variações, esta mesma espuma primordial. Dioniso da coxa, Atena da cabeça: deuses nascidos de feridas, porque a divindade grega prefere incisões a gestos suaves, cortes a continuidades. O nascimento é sempre um corte no corpo do mundo, e o corte de Afrodite é sexual, portanto contagioso, irradiando sobre deuses e mortais com a mesma intensidade; até Zeus treme quando ela passa, não por respeito à lei, mas porque o seu corpo lembra o sangue do pai, recorda a violência originária de que tudo nasceu.A deposição do Céu (Úrano) pelo Tempo (Cronos) instaura um regime em que os filhos substituem os pais, sistema de sucessão e destituição. Afrodite, porém, não pertence a esse regime de alternância; é mais antiga que a lógica da sucessão, emerge do próprio crime e não pode ser abolida. Ela é o prazer que sobrevive à revolução, resto jubiloso que escapa ao discurso da mudança; toda a revolução fere, e é de cada ferida que o prazer vaza.A Vénus romana suaviza esta história, perfuma-a, cobre-a de mármore, de estátuas lisas e contidas; no entanto, a ferida mantém-se, irredutível, como fissura sob a superfície. Os pintores do Renascimento colocaram-na sobre uma concha para proteger, dizem, os seus pés da aspereza da costa, mas as conchas e os búzios são instrumentos acústicos, amplificam o som, ouvem o murmúrio do mar, memória do corte. Vénus escuta o crime que a gerou, porque a beleza escuta sempre a violência que a precedeu, e é dessa escuta que recebe o brilho inquieto.Entretanto, na psicanálise, o mito condensa-se em fórmula: o pai precisa de ser magoado para que o filho possa amar, o falo precisa de ser perdido para se tornar desejável. Afrodite é a fantasia que reconcilia a perda com o prazer, promessa de que algo de belo pode ser feito a partir daquilo que foi cortado, de que o resto pode ser obra.
A castração de Úrano é um grito que o mar absorve, e Afrodite é esse grito transfigurado em corpo. Ela é o gemido sem boca, som que se espalha em espuma, razão pela qual o amor nos torna inarticulados, devolve-nos à água, ao tempo anterior à gramática. Se compararmos com Inanna, na Mesopotâmia, que desce nua ao submundo, despojando-se das vestes como se cada peça fosse um significado abandonado, ou com Ymir, no universo nórdico, cujo corpo desmembrado se transforma no mundo, veremos que a criação por desmembramento é conhecimento ancestral: o todo é tirânico, o corte é fértil; a unidade esmaga, a fragmentação inventa. Afrodite é fertilidade sem agricultura, colheita sem campo, abundância desligada de qualquer disciplina de sementeira.A deusa chega nua, mas a nudez aqui não é candura nem ingenuidade: é exposição pura. O mar não tem pálpebras, não fecha jamais os olhos, e nascer ali é ser visto por tudo, pelos peixes, pelas ondas, pelos astros reflectidos. Afrodite ensina-nos que a espuma deixa sempre vestígios na praia, sinais que o olhar atento pode recolher.O que fica após a castração não é simplesmente a falta, mas sobretudo o excesso: a espuma é excesso, o desejo transborda, sai dos limites, e o mito não moraliza esse transbordamento, não o condena, canta-o. Os versos de Hesíodo são secos, quase jurídicos, mas a imagem que desenham humedece-os, encharca-os.No final, Afrodite não vinga Úrano, não procura reparar a mutilação nem restaurar o antigo poder: espalha-se, distrai, desfaz a seriedade do poder, faz até a guerra parar por um momento para admirar um ombro, um calcanhar, uma curva da anca. A partir do instrumento de comando decepado, ela cria um convite, uma convocação para o jogo.
O mar guarda o que o céu perde, e aquilo que guarda, transforma: do sangue e da espuma, um passo em terra firme; da violência, um tremor de alegria; do corte, uma deusa que ensina que o prazer é a recordação de uma ferida que aprendeu, lentamente, a cantar.

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