Atwood: "Dizem-me: 'A História de uma Serva' não é ficção"
▲Margaret Atwood cumprimenta fãs que a aguardam, à chegada ao festival Babell, este sábado, no Porto
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A autora rejeitou as visões que caricaturam o movimento feminista como uma oposição aos homens e explicou que a sua posição assenta numa ideia mais ampla de direitos humanos. “Estou interessada nos direitos humanos. Os direitos das mulheres são uma parte dos direitos humanos e os direitos humanos — é um grande segredo — incluem os homens”, ironizou, arrancando risos e aplausos da plateia.
Nas mãos dos leitores, nas referências da moderadora e nas capas que se repetiam pela multidão, A História de uma Serva surgia como o livro incontornável da carreira de Margaret Atwood. Publicado em 1985, o romance transformou-se numa das distopias mais influentes da literatura contemporânea, ao imaginar uma sociedade em que as mulheres são privadas dos seus direitos mais básicos e reduzidas à sua função reprodutiva.A dada altura, Tânia Ganho confessou que, ao reler o romance, não conseguia deixar de pensar na situação das mulheres afegãs. Atwood concordou sem hesitar. E voltou a uma ideia que, disse, lhe chega frequentemente através da correspondência enviada por leitores: “Recebo cartas de todo o mundo e dizem-me: A História de uma Serva não é ficção, está a acontecer”, resumiu a escritora canadiana, numa referência às restrições de direitos das mulheres que continuam a verificar-se em vários países do mundo. A moderadora alerta-nos para que não nos esqueçamos e para que prestemos atenção a essas mulheres, mas Atwood revela um tom mais céptico: “Podemos prestar atenção, mas isso pode não ter qualquer resultado.”Pouco antes do final da sessão, uma interrupção inesperada trouxe a atualidade para dentro da conversa. O som da Marcha do Orgulho LGBTI+, que decorria nas ruas circundantes, começou a ecoar pela praça. Durante alguns instantes, houve quem procurasse perceber a origem do ruído, e, a avaliar pelos rostos confusos, até quem temesse por perigo, mas quando a audiência gritou para o palco que se tratava de uma manifestação pelos direitos das pessoas trans e da comunidade LGBTI+, Atwood interrompeu a conversa para aplaudir, um gesto que foi imediatamente acompanhado por grande parte da assistência.Pouco depois, a sessão terminou com uma longa ovação de pé. Não haveria lugar para autógrafos, com a organização a anunciar que uma centena de exemplares já assinados estaria disponível para venda na Livraria Flâneur, à saída do recinto.
Enquanto a multidão começava a dispersar-se pelas ruas do centro histórico, muitos permaneciam ainda junto às grades, tentando prolongar o momento. Afinal, nem todos os dias se ouve uma escritora cuja obra continua a ser lida como aviso, memória e profecia ao mesmo tempo.










