CIÊNCIA

Previsão catastrofista é fogo que arde sem se ver

Na década de 80, passou na RTP uma série chamada “8 is enough”, sobre um jornalista, pai de 8 filhos, que todas as semanas tinha de entregar a sua coluna de opinião. No episódio sucediam-se peripécias que, mais tarde, acabavam por ser usadas no texto. Lembro-me de um episódio em que começa a Primavera e ele resiste a escrever uma crónica sobre tudo o que acontece na mudança de estação, porque já o fizera várias vezes ao longo dos anos e queria evitar repetir-se. Era um profissional sério e não desejava enganar os leitores, servindo-lhes um tema requentado. Felizmente, não tenho esses escrúpulos. Todos os anos, sempre na mesma altura, tenho feito as mesmas duas crónicas sazonais. Com uma pequena diferença: não são sobre “Verão” e “Inverno”, são sobre “pânico com Verão” e “dramatismo com Inverno”. Se bem que, em minha defesa, os textos acabam por ser sempre diferentes: de ano para ano, o histerismo tem alcançado níveis cada vez mais elevados, o que proporciona argumentos para zombaria original.
Depois de há uns meses, dizendo o que já repisara em anos anteriores, ter escrito sobre como as tempestades inauditas deste Inverno afinal já tinham acontecido várias e monótonas vezes nas últimas décadas, agora é a vez de recontar como o Maio anormalmente quente que tivemos foi uma repetição de Maios anormalmente quentes desde há pelo menos 150 anos.Segundo os dados oficiais do IPMA, a temperatura média foi de 17.85 graus centígrados. O boletim do IPMA anuncia que se tratou do 10.º maio mais quente desde 2000. O que não refere é que, se contarmos desde 1931 (data a partir da qual o IPMA tem registos para o país todo), 2026 sai desse ranking. É ultrapassado por 1953 (18.20), 1961 (18.02), 1964 (18.46), 1965 (18.16), 1990 (17.92) e 1992 (18.08). Tudo anos em que ar condicionado era um aparelho que não existia ou era raro. Portanto, este Maio escaldante acaba num banalíssimo (ainda que honroso) 16.º lugar, ex aequo com 1933 e 1995, ambos com 17.84 (dentro da margem de erro, podemos considerar equivalentes a 2026).Apesar destes dados amplamente disponíveis, o alarmismo na comunicação social está ao rubro. Literalmente ao rubro: como os desenhos do meu filho quando vai perdendo canetas até ficar só com duas cores, os mapas que aparecem nas notícias vêm todos pintados a laranja-escuro e a encarnado sangue-de-boi. Neste momento, o boletim meteorológico podia ser cantado pela Fafá de Belém: vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão.
Na semana passada tinha sido prevista uma mega onda de calor. Quer dizer, não foi bem prevista, na medida em que não se pode chamar “previsão” à praga que Deus ordenou a Moisés que rogasse ao Faraó. Aquilo foi profecia misturada com maldição. “Termómetros perto dos 50°C na próxima semana: anomalia é quatro vezes maior do que o habitual numa onda de calor”  não é muito diferente de: “Eis que amanhã, a esta hora, farei chover granizo muito abundante, tal como nunca aconteceu no Egipto desde que foi fundado até ao dia de hoje”.Uma vez que não se atingiram as temperaturas infernais vaticinadas, ao que tudo indica Portugal terá deixado o povo hebreu partir. Os únicos 50 graus que se viram foram os da cachaça nas caipirinhas que devem andar a beber nos estúdios e redações, mesmo antes dos homilias apocalípticas que nos pregam.Segundo Duarte Costa, o especialista convidado pela SIC, houve modelos a apontarem os 50°. O facto de a temperatura não ter estado minimamente perto desse valor não interessa, o pânico já estava criado. Eu percebo, também caio muito nesse erro de avaliação que é olhar para modelos e projectar a realidade. Vejo um modelo com umas calças, ficam-lhe estupendamente, compro um par para mim e pareço um Dom Rodrigo embrulhado em papel prata, gordinho e todo amarfanhado. Houve modelos a apontar 50°? Por isso é que dizemos às crianças que não se aponta porque é feio. O modelo é uma idealização abstracta. Sugere vários cenários, alguns deles muito extremos – e muitíssimo inverosímeis. Depois acontece a realidade: o anticiclone, as nuvens, as correntes oceânicas, tudo o que antes influenciava o clima mas, desde há uns anos, foi ultrapassado pelo CO2 – só o emitido por nós, claro.Mas não importa, o mal estava feito e quem viu a notícia há-de ter ficado com a impressão de que estavam mesmo 50°. Foi como dizer às febras que vão ser assadas, mas depois nem sequer ligar o churrasco. Sugestionadas, apesar de cruas ficam com as marcas da grelha.
Porém, não foi só isso que foi dito. “Duarte Costa alertou também para os riscos associados ao calor extremo, lembrando que este é o fenómeno climático com maior impacto na mortalidade.”Provavelmente, são dados fornecidos pelo mesmo modelo que previu 50 graus. É que não é verdade, o calor extremo não é o fenómeno climático com maior impacto na mortalidade. Curiosamente, o frio em excesso mata bastante mais do que o calor em excesso, como qualquer pesquisa no Google ou no chat GPT pode confirmar. Há vários estudos que o comprovam. Aponto (agora sim, correctamente) três, todos publicados no Lancet: este, este e ainda este, mais recente, que faz uma revisão da literatura e conclui: “Non-optimal temperatures are now considered among the leading risk factors of mortality worldwide. A global analysis showed that 9.4% of all deaths can be attributed to both cold and hot non-optimal temperatures, corresponding to about 5 million deaths. In most epidemiological studies, excess cold deaths far outnumber heat deaths. In that same global analysis, of the 9.4% attributable temperature-related deaths, 8.5% (range 6.2–10.5%) were cold-related and only 0.9% (range 0.6–1.4%) were heat-related, which corresponds to approximately 4.6 million deaths from cold and about 489 000 from heat, a ratio of roughly 9.1 of cold versus heat. This pattern is also consistent in regional studies”.A diferença entre mortes por frio e mortes por calor (além da desproporcionalidade dos números) é que só se dá atenção às segundas. Provavelmente, porque o aumento das temperaturas é culpa nossa. O calor é um pecado da sociedade capitalista e o frio é apenas o banal Inverno. E porque o frio se combate com recurso a aquecimento produzido por fontes de energia que emitem CO2. Para se diminuir as mortes por frio, temos de queimar mais combustíveis fósseis. Ou, ironicamente, esperar que as temperaturas aumentem ainda mais, porque as mortes por calor que têm subido são mais que compensadas pelas mortes por frio que têm diminuído.Ninguém diz que o calor extremo não é preocupante e que as pessoas não devem tomar medidas para se proteger. Porém, este catastrofismo é absurdo. Cada reportagem sobre o tempo diz que determinado dia bateu o recorde e foi o “mais quente de sempre”. Só que não é “de sempre”, pois não? Não é o mais quente dos últimos 4,5 mil milhões de anos, desde que há Terra. Nem o mais quente vivido pela humanidade, pois não é o mais quente dos últimos 300 mil anos, quando apareceu o Homo Sapiens. Nem sequer o mais quente da história, porque não é o mais quente dos últimos 6 mil anos, quando se inventou a escrita. Pode ser que até seja o mais quente desde que há registos (em Portugal, desde 1931). Mas normalmente é apenas o mais quente desde o último mais quente registado, que às vezes até calha ter sido antes do aparecimento do caos climático. O facto de não nos recordarmos de alguma vez ter estado tão quente não é critério. Diz menos sobre o calor do que sobre a nossa memória. Principalmente se tivermos em conta que precisamos de programar o alarme do telemóvel para nos lembrar de ir buscar os filhos à escola.
Desconfio sempre destas proclamações hiperbólicas. Eu também não ando aí a dizer que a tolice destas notícias sensacionalistas é a mais parva de sempre. Historicamente, sempre houve pânicos morais injustificados, como o milenarismo, a caça às bruxas no séc. XVI ou o medo de satanismo em jogos de computador. Este é só o pânico moral mais caro desde que há registos.

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