CIÊNCIA

O adeus de Manuel à sua mercearia, 71 anos depois


Ali funcionaram, conta ao Observador, uma leitaria, um talho, também outras mercearias, uma peixaria e uma taberna. “O único que cá continua sou eu, o velho”. Aos 86 anos, o senhor Manuel é hoje um dos merceeiros mais antigos da cidade: está há 71 anos atrás do mesmo balcão. De jovem empregado, passou a patrão — cargo que deixará esta terça-feira, 30 de junho, quando entregar a chave do rés-do-chão à empresa dona do prédio. Foram meses de negociação após o anúncio de que teria de deixar o espaço. “Queria mesmo era continuar aqui até aos meus últimos dias de vida”, admite. “Mas sei que sou um empecilho. Pago um aluguer vitalício de 70 euros”. A sua rotina nos últimos anos incluía chegar diariamente à sua mercearia entre as oito e nove da manhã e voltar para a casa, a um quilómetro de distância, a pé ou de autocarro, por volta das cinco da tarde. “A minha vida foi sempre entre o trabalho e a minha casa”, diz, referindo viver no terceiro andar de um prédio com nove inquilinos, sendo ele próprio o mais longevo em idade na vida e no edifício. “Dou-me bem com todos, mas não sei o nome de ninguém“.
A oportunidade na mercearia surgiu por indicação de um amigo do seu pai, que queria ajudá-lo a escapar ao desejo da sua família de que se tornasse padre. O jovem Manuel pensava em casar-se, caminho que era contrário àquele proposto pela igreja. “Não havia luz e água canalizada na minha cidade, mas nunca passei fome. Vim para Lisboa sem conhecer nada nem ninguém“, diz, relembrando o dia em que saiu da sua aldeia, nos arredores de Melgaço, para apanhar um comboio em Monção. O pai, mesmo contrariado, deu-lhe 300 escudos e a recomendação de não fazer mau uso do dinheiro. “Ó pai, só volto para cá se estiver morto“, respondeu-lhe.Viveu em casa do patrão, na Calçada do Castelo Picão, na Madragoa, onde comia sentado à mesa com os donos da casa. Conseguiu não só escapar ao seminário em Braga, mas também mandar piscadelas e beijinhos para uma jovem que cosia tecidos numa varanda com vista para o balcão em que trabalhava: Cacilda, natural da Beira Alta, estava em Lisboa para um curso de corte e costura. Quando Manuel soube que a rapariga deixaria a cidade no fim dos estudos, decidiu não perder a talvez última chance de enfim conversar com ela. “Seguia-a até ao elétrico. Ela pediu um bilhete ao condutor, eu comprei dois. Fomos no caminho a conversar, passámos pela Portugália na Almirante Reis. Deixei-a na Praça do Chile”.Naquele verão de 1963, quando Cacilda (agora modista) já havia desistido de ir embora, — sendo Manuel a principal razão — deu-lhe uma fotografia. “Para que nunca esqueças”, escreveu no verso. Casaram-se menos de um ano após a frase, sendo o filho do antigo patrão da mercearia o padrinho do matrimónio, celebrado a 26 de janeiro de 1964. Nunca tiveram filhos. E, de facto, Manuel nunca a esqueceria, revelando ser a sua morte em 2001 após quase quarenta anos juntos o “acontecimento mais triste” da sua vida. “Quem me dera mais quarenta anos ao lado dela”. O segundo acontecimento mais triste, lamenta, é o fecho da sua loja.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.