Apesar de apelo do Papa, tradicionalistas preparam cisma
▲As celebrações desta semana começaram na segunda-feira com a ordenação de novos padres
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“Ele tinha sido missionário, tinha tido um papel importante nos padres espiritanos, na missão em África. Toda a estrutura mental dele era a de que aqueles que não eram batizados iriam para o Inferno e, portanto, era preciso batizá-los à força”, contextualizou ao Observador o padre Peter Stilwell, responsável pelo diálogo inter-religioso no Patriarcado de Lisboa. “Portanto, isto agora de dizer que vale tudo era ir contra a doutrina da Igreja. Fora da Igreja não havia salvação, era preciso dizer isso alto e bom som.”Opondo-se de modo radical ao Concílio, Lefebvre decidiu começar a correr em pista própria. Em 1970, abriu um seminário tradicionalista em Écône, na Suíça. Ali, era como se o Vaticano II nunca tivesse acontecido: tudo era feito à maneira antiga. Lefebvre atraiu muitos jovens seminaristas descontentes com o rumo da Igreja e começou a formar gerações de padres tradicionalistas opositores às formas. Nascia a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, que em alguns anos se transformou na mais importante oposição interna a Roma dentro da Igreja — e começava o caminho da rutura. O seminário tinha sido fundado graças à autorização dada pelo bispo suíço local, mas em 1975 o Vaticano reverteu essa autorização. Apenas cinco anos depois da sua fundação, a FSSPX já começava a funcionar à margem das regras. No ano seguinte, Paulo VI suspendeu Lefebvre, proibindo-o de ordenar novos padres. Lefebvre desobedeceu e continuou a ordenar sacerdotes em Écône, enviando-os para todo o mundo e expandindo a rede de influência da FSSPX. (Em Portugal, por exemplo, a FSSPX está presente com centros de culto em Lisboa, Porto e Fátima, e recentemente até teve de expandir a sua igreja na capital, por falta de espaço para todos os fiéis.)
Durante alguns anos, a FSSPX esteve em situação irregular dentro da Igreja, por desobedecer à suspensão papal, mas ainda assim manteve-se no interior da Igreja Católica. Foi em 1988 que a rutura completa se deu: Lefebvre estava idoso e sabia que não duraria muito mais. Sendo o único bispo da organização, era ele o único que tinha capacidade sacramental para ordenar novos padres. A FSSPX estava, portanto, à beira de uma crise existencial: se Lefebvre morresse sem que houvesse novos bispos, a organização podia acabar. A decisão foi afrontar Roma. No verão de 1988, Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização de Roma. Ordenar um bispo sem mandato pontifício é muito mais grave do que as desobediências anteriores de Lefebvre: põe em causa a tradição da Igreja Católica de considerar os bispos sucessores diretos dos apóstolos (tendo, por isso, de ser escolhidos pelo Papa) e é punida com a excomunhão automática. A ordenação daqueles quatro bispos foi um ato cismático e colocou a FSSPX de fora da Igreja Católica.O cisma e a excomunhão não abrandaram o ritmo de crescimento da FSSPX. Pelo contrário: fora da comunhão com Roma, a Fraternidade continuou a crescer a grande ritmo, expandindo-se por todo o planeta. De acordo com as estatísticas de 2025, a FSSPX tinha 733 padres e 264 seminaristas, presentes em mais de sessenta países. Estima-se que cerca de 600 mil fiéis estejam associados a comunidades da FSSPX em todo o mundo. A Fraternidade deixou de ser uma pequena seita marginal para se tornar no maior e mais influente grupo oposicionista da Igreja Católica.
▲ O arcebispo Marcel Lefebvre foi o fundador da FSSPX
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Durante décadas, a relação entre Écône e Roma foi de forte tensão. O Papa João Paulo II criou no Vaticano a comissão “Ecclesia Dei”, com o objetivo de acompanhar os fiéis ligados à FSSPX e dialogar com a organização. No contexto do ano jubilar de 2000, Roma e a FSSPX retomaram os contactos e começou a ver-se uma luz ao fundo do túnel. Em 2009, o Papa Bento XVI levantou a excomunhão dos quatro bispos que tinham sido ordenados por Marcel Lefebvre em 1988. O objetivo era que aquele fosse lido como um gesto de boa fé que abrisse espaço para a reconciliação, mas a decisão acabou por aprofundar ainda mais a polémica (sobretudo porque, na altura, foram recuperadas declarações de um dos bispos cismáticos, negacionista do Holocausto). Ao fim da situação de cisma e de excomunhão seguiu-se um novo gesto de Roma: em 2015, a propósito do Jubileu da misericórdia, o Papa Francisco determinou que os padres da FSSPX passavam a ter a faculdade de ouvir confissões de forma válida, e a exceção foi depois prorrogada sem limite. Dois anos depois, em 2017, Francisco determinou que os casamentos celebrados por padres da FSSPX seriam válidos na Igreja Católica.Todas estes gestos não serviram, contudo, para resolver o grande impasse: a FSSPX continua sem aceitar as conclusões do Concílio Vaticano II e, por isso, a comunhão com o Papa, com Roma e com o resto da Igreja Católica continua ameaçada. Encontrar um lugar regular para a FSSPX dentro da Igreja Católica (por exemplo, através da figura jurídica da prelatura pessoal, uma espécie de diocese sem território, hoje aplicada apenas ao Opus Dei) continua a depender de um entendimento teológico inexistente. A questão não se prende com as missas em latim — há vários grupos dentro da Igreja Católica que celebram a missa no rito antigo e que estão em comunhão com Roma, incluindo, por exemplo, a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro. A divisão é mais profunda e vai além do simples rito litúrgico: a FSSPX mantém-se em combate contra aquilo que acredita ser uma “nova religião” infiel ao verdadeiro Catolicismo.
Quase quatro décadas depois das quatro ordenações episcopais que abriram o cisma e lançaram a FSSPX na excomunhão, a história repete-se. O grupo tradicionalista vê-se, novamente, à beira de uma crise existencial devido à falta de bispos. Dos quatro ordenados em 1988, já só restam dois. Um deles (Bernard Fellay) já foi o líder da FSSPX no passado e, segundo a imprensa francesa, é mal visto internamente pela ala mais anti-Roma da FSSPX, por ter trabalhado com o Vaticano nos esforços de aproximação. Terá sido essa reputação que levou a FSSPX a escolher como superior geral o padre italiano Davide Pagliarani, visto como um representante da linha dura da FSSPX, mais resistente a acordos com Roma. Mas, com apenas dois bispos a caminho dos 70 anos de idade, a FSSPX vê-se novamente perante o dilema da continuidade: sem bispos que possam garantir a administração dos sacramentos (e a ortodoxia neste âmbito é um ponto de honra para a Fraternidade), o grupo enfrenta de novo o risco da extinção.Foi neste contexto que, em fevereiro deste ano, a FSSPX anunciou num comunicado que, dentro de cinco meses, no dia 1 de julho, seriam ordenados quatro novos bispos tradicionalistas. A reedição das polémicas ordenações de 1988 fez soar os alarmes em Roma: depois de décadas de tentativas de reaproximação, a ameaça de cisma era de novo real. Sucedeu-se um esforço urgente para tentar evitar o caos. O cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé — o organismo do Vaticano responsável pela salvaguarda da doutrina católica — chamou o padre Davide Pagliarani para uma reunião de emergência em Roma. No encontro, Fernández recordou a Pagliarani que a ordenação de bispos sem autorização papal teria como resultado inescapável a excomunhão automática e abriu a porta a memorando de entendimento que permitisse a criação de um diálogo teológico estruturado entre Roma e a FSSPX. O diálogo, destinado a encontrar caminhos de entendimento no futuro, tinha uma condição: as ordenações de julho teriam de ser suspensas.Pagliarani regressou a Écône para refletir com o resto da cúpula da FSSPX e a resposta chegou poucos dias depois: não. Numa carta de várias páginas, a Fraternidade disse que o diálogo já começava torto, pelo que seria inútil como todas as tentativas do passado: Roma partiria para o diálogo já com a premissa de que o Concílio Vaticano II tem de ser aceite pelos católicos, incluindo na reforma litúrgica, no diálogo inter-religioso e na abertura da Igreja ao mundo contemporâneo. Os tradicionalistas não aceitavam cruzar essa linha vermelha e, por isso, não viam condições para o diálogo. Rejeitando a ideia de que pretendem romper com Roma, mas apenas manter-se fiéis à tradição e garantir a subsistência da sua organização, a FSSPX rejeitou a proposta de diálogo do Vaticano.









