A absolvição a crédito
Há uma oração célebre de Santo Agostinho que resume, melhor do que qualquer tratado, a relação difícil que mantemos com aquilo que sabemos dever fazer. Pedia ele a Deus a castidade e a continência, mas acrescentava, num sussurro que o tornou imortal, ainda não. Quinze séculos volvidos, é exatamente esta a oração que a humanidade dirige ao clima. Queremos a neutralidade carbónica, desejamo-la com sinceridade, mas ainda não. E, para tornar suportável o adiamento, fomos inventando uma teologia nova, a de que poderemos, mais tarde, retirar da atmosfera o carbono que hoje teimamos em lá colocar.
Esta semana, enquanto Londres acolhia a sua concentração anual de financeiros, governos e cientistas do clima, a chamada London Climate Action Week, e enquanto a Comissão Europeia prepara para meados de julho a revisão do seu mercado de carbono, regressou ao centro do debate a palavra que melhor exprime, ao mesmo tempo, a esperança e o perigo do nosso tempo, as remoções. A capacidade técnica de capturar dióxido de carbono e de o armazenar, em florestas, em solos, em rochas ou no subsolo profundo, deixou de ser ficção científica. Tornou-se, porém, algo mais ambíguo, uma promessa de absolvição comprada a crédito, com a qual vamos financiando o conforto de continuar a emitir.A mais antiga das tentaçõesAdiar a contrição é, talvez, a mais antiga das tentações humanas. A Idade Média conheceu-a sob a forma da indulgência, o documento que prometia o perdão antecipado mediante pagamento, e foi essa mercadoria espiritual que acabou por fraturar a cristandade. Há nas remoções de carbono um eco incómodo desse mecanismo. Emite-se hoje com o recibo de uma remoção futura na mão, na convicção tranquilizadora de que a conta, algures, ficará saldada. Só que a indulgência medieval transferia, ao menos, moeda real. A indulgência do carbono é sacada sobre um futuro que ainda não foi produzido, uma livrança que serão os nossos filhos a ter de honrar, técnica e financeiramente, muito depois de nós termos colhido o benefício de não mudar.
A promessa técnica como alibiO perigo não está na tecnologia. As remoções serão necessárias, e nenhum cenário sério de neutralidade prescinde delas para compensar as emissões verdadeiramente irredutíveis, as da agricultura, de certos processos industriais, da aviação de longo curso. O problema reside na função que a promessa desempenha na nossa cabeça. É aquilo a que os economistas chamam risco moral, a existência de um resgate futuro que relaxa a disciplina presente. Quando se acredita que a fatura será paga por uma máquina ainda por inventar, ou por uma floresta ainda por plantar, a urgência de reduzir hoje esvai-se. Não é por acaso que, na mesma semana, um relatório encomendado pelo próprio Governo alemão admite que Berlim falhará as suas metas de 2030, de 2040 e de 2045. A remoção, que devia ser complemento da redução, transforma-se sub-repticiamente no seu substituto. E toda a diferença moral cabe em duas modestas preposições, remover além de reduzir, ou remover em vez de reduzir.Quando o futuro não compareceE se o futuro não comparecer? Foi precisamente esta a dúvida que as notícias desta semana semearam. Uma análise da procura empresarial de descarbonização estima que os créditos de remoção e de redução poderão ultrapassar os mil milhões de toneladas em 2035, mas reconhece, em letra miúda, sérias interrogações quanto à disponibilidade de remoções a curto prazo. Ao mesmo tempo, anunciou-se em Londres um mecanismo, batizado de fundo de permanência, destinado a cobrir o risco de reversão dos projetos, ou seja, o risco de o carbono guardado regressar à atmosfera. Esse anúncio é, em si mesmo, uma confissão. Uma floresta arde, um reservatório tem fugas, uma empresa encerra, e a tonelada que julgávamos sequestrada volta ao ar. Estamos, no fundo, a financiar o presente com um ativo de valor incerto, tratando uma remoção meramente provável como se fosse equivalente a uma emissão absolutamente certa. É um erro de categoria com consequências civilizacionais.
O paralelo financeiro é exato e desconfortável. Construir uma estratégia climática sobre remoções ainda inexistentes é o equivalente atmosférico a contrair dívida na esperança de que o devedor, que somos nós próprios daqui a vinte anos, terá, entretanto, enriquecido o suficiente para a pagar. Quando o devedor é o futuro, ninguém comparece à cobrança, porque o futuro é sempre, por definição, alguém que ainda não chegou.Portugal e a contabilidade sériaA Europa decidirá em julho se deixa entrar as remoções no seu mercado de carbono e, sobretudo, como as contabiliza, se ao bruto das emissões antigas, se ao líquido das remoções efetivamente entregues. Por baixo do tecnicismo contabilístico esconde-se uma questão moral límpida, contamos aquilo que prometemos ou aquilo que cumprimos? Para Portugal, a pergunta não é abstrata. Um país de verões cada vez mais inflamáveis, de solos fatigados e de floresta vulnerável conhece, melhor do que muitos, a distância entre a remoção prometida em janeiro e a fumarada de agosto. A tentação de vender absolvições que não conseguimos garantir contra o próximo incêndio é real, e seria um péssimo negócio para a nossa credibilidade.A seriedade consiste em recusar a falsa escolha. Não se trata de rejeitar as remoções, que serão indispensáveis, mas de lhes negar o papel de álibi. Reduzir primeiro, com a disciplina de quem não conta com milagres, e remover depois apenas aquilo que de todo não puder ser evitado, exigindo que cada tonelada removida seja tão permanente quanto é permanente a tonelada emitida. A maturidade de uma civilização mede-se exatamente por aqui, pela capacidade de inverter a oração de Agostinho e dizer, perante o clima, não ainda não, mas sim, e agora. O perdão comprado a prazo é o mais caro de todos, porque se paga com o juro composto do tempo que, entretanto, se perdeu.
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