A fonte: sempre um lugar mágico numa aldeia
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Olá, seja muito bem-vindo à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e, em Viseu, Alberto Correia. Nesta última semana de crônicas que faz conosco, que culmina essas 80 semanas que nos acompanhou com as suas memórias e as suas crônicas tão vividas e tão bonitas. Aprendemos muito com ele: a antropologia, os costumes, os lugares, as aldeias, a história, o artesanato, a gastronomia. Foi muito bom passear por esta região centro guiados pela mão do Alberto Correia. Hoje vai falar de outro momento mágico, de outro sítio mágico, de outro equipamento mágico: as fontes, um lugar mágico nas aldeias da Beira Alta. Vamos concretamente também falar de Sernancelhe. Bem-vindo, Alberto. Vamos a isso.
As fontes nas aldeias antigas tinham o seu quê de lugar mágico. Todas as fontes, mais ainda aquelas que se inseriam no tecido urbano. Míticos lugares, lugares poéticos também, que os poetas tantas vezes celebravam, mesmo que na aparente frivolidade dos dias, a mulher apenas reparasse no cântaro vazio e no cansaço dos braços que o voltarão a encher e carregar. As fontes na aldeia antiga mantinham sempre esse caráter de lugares de centralidade, de referência, de encontro e de prestígio, situadas no átrio da matriz ou da capela, espaços que não raramente tomavam o designativo de Largo da Fonte. A fonte era um lugar de retorno obrigatório em cada dia, de manhã e ao fim da tarde, e lugar de encontro da mulher, quase só da mulher, mesmo no imaginário moço que a faz lugar de encontro de namorados. É um lugar de demora, mas de um tempo medido pelo cair da água que, por sua vez, a estação governa. E lugar de confidência, lugar de notícia. No tanque para onde a água se vaza, bebem os animais que passam para o trabalho, o gado da aldeia inteira, e as águas que sobram pertencem ainda à comunidade inteira, mesmo que se percam num rego de inverno. É também lugar proibido na noite. A fonte é, de tudo, um espaço construído também. As mais antigas recordam o esforço das velhas instituições comunitárias. As mais recentes ilustram com datas e inscrições o novo construtor, Junta de Freguesia ou Câmara Municipal. Morfologicamente, as primeiras fontes começaram por ser o tanque d’água que se enchia com a água da nascente. Protegidas por um muro forte e um chão de lajos para manter a limpidez, foram mais tarde cobertas de abóbada mais ingênua ou mais elaborada. Existem ainda algumas destas fontes, ditas de mergulho ou de chafurdo, cuja gramática construtiva as situa num tempo largo que vai da alta Idade Média ao século XVIII. As mais antigas são as fontes de Fontarcada ou Ferreirim. A primeira é talvez do século XIV, a segunda atribuível ao século XVI, foi classificada como imóvel de interesse concelhio, dada a sua exemplaridade. Outras permanecem, felizmente, em Sernancelhe, na Vila da Ponte, em Chuzendo, em Escruquela e na Senhora da Lapa, esta mandada construir pelos jesuítas no século XVIII para abastecimento de água ao colégio e para matar a sede dos romeiros. Outras fontes permanecem, mais recentes, levantadas pelo Estado Novo, que se mantiveram durante o governo da República após Abril, enquanto a água das nascentes não pôde chegar à morada de cada cidadão. Permanecem ainda a serviço, sempre um monumento.
Bonita homenagem também às fontes tão importantes das nossas aldeias, que matam a sede e que são locais de encontro, como diz, mais ou menos permitidos, mais ou menos antigas. Muito importante e que tantas vezes, Alberto, é como aquelas coisas que estão tanto no nosso olhar todos os dias que nem reparamos e não lhes damos a devida importância. Depois quando nos falta ou quando secam, é que sentimos a sua falta. É assim mesmo. Muito bem. Marcamos então encontro amanhã, Alberto. Bem-haja. Até amanhã.
Até amanhã.










