CIÊNCIA

Dois jardins

Esta semana, visitei dois jardins em casas de amigos no Norte. Uns são abastados e contrataram um paisagista que projectou o desenho das plantas de acordo com um princípio de beleza. Nesse jardim, com margaridas amarelas e um acer, tudo estava regado e proporcionado, contido num trapézio de tijolo acobreado, ao fundo havia um chuveiro e um banco para nos secarmos depois do duche. As plantas estavam frondosas, porque o sistema de rega funciona e rega-as durante a noite, quando a terra arrefece.
Nesta casa, tudo cumpria um preceito. Cada objecto foi pensado, todos os pormenores tinham o amor e a cara dos donos. Nos limites do jardim dos meus amigos, ergue-se o frondoso jardim selvagem do vizinho do lado, que lhe confere sombra e profundidade e lembra, no seu desalinho, o segundo jardim que visitei.Nesse outro jardim, com três níveis de sentido, havia flores de linho, margaridas do Alasca, calêndulas, uma romãzeira, uma figueira, um diospireiro. À semelhança do primeiro, era o jardim de um casal de artistas, porém um casal menos bem na vida. Quem cuida do jardim, neste caso, são os donos da casa, dois pintores. Cultivam morango e tomate, recolhem sementes das flores e observam atentamente como são negríssimas e belas, desenham-nas. São eles que projectam o próprio jardim. A ruína, que gostavam que viesse a ser um atelier, é ainda uma ruína, as silvas invadiram um dos canteiros, dominando-o com os braços de espinhos, os caminhos são de pedra, irregulares, há abelhas e muitas borboletas, vi pela primeira vez a cauda-de-andorinha, com as suas asas negras e brancas, porque plantaram arruda, que as atrai, para que elas os visitem e possam admirá-las.Os nossos melhores amigos são nortenhos e só os vemos de vez em quando, quando viajamos. Comunicamos à distância e por carta. Vamos conversando sobre a dificuldade em ter amigos, enquanto almoçamos à sombra do kiwizeiro que plantaram, sobre a mesa respira-se a falta que sentimos uns dos outros.
Uns e outros mostram-nos as suas casas revelando-nos um segredo, parece que temos tempo, mas só temos algumas horas. Os móveis, os quartos, os candeeiros, os quadros, os primeiros. Caixinhas de búzios, desenhos, gatos, fósseis, conchas, os segundos.Percorro a auto-estrada, de regresso, com a noção de ter estado perto do meu mundo neste mundo: o das pessoas para quem o lugar onde vivem, seja rico ou pobre, privilégio em qualquer caso, é o seu reino. A casa enquanto “baluarte contra o mal”, como lhe chamou Robert Adams.Fugitivos ou só inadaptados, vamos descobrindo quando nos vemos coisas que ainda não sabíamos. Proezas dos filhos ou inclinações, gostos culinários ou manias. Visito os estúdios de cada um dos pintores, leio poemas que escreveram ou mostram-me pinturas ou técnicas que andam a experimentar. Na casa, a parte menos importante é a sala comum. Toda a tensão está nos estúdios. Dá para entender que, como para nós, o seu trabalho é a sua vida. Se entro na cozinha ou na sala quando não fui chamada, surpreendo as vozes íntimas dos meus amigos, a rir ou zangados um com o outro, vejo-os trocarem um beijo ou uma carícia. Reparo nas suas mãos e no gosto que têm em mostrar-nos a sua vida, nos anéis e colares que usam, na forma das suas pernas, olho-os com atenção para me lembrar deles depois.No jardim desarrumado, desta vez, tirámos um retrato de grupo, usando um tripé. Lá estamos, na década dos quarenta. Despenteados e destruídos, suados, gordos, aflitos, contentes, órfãos ou quase. Almoçamos à sombra. As travessas percorrem o jardim, vindas do forno, as abelhas zumbem, fumamos, bebemos, comemos cerejas, que felicidade provar os cozinhados dos nossos amigos. Saímos com a impressão de que, a cada breve visita, nos conhecemos pior. Seriam precisos dias, meses, anos que não temos juntos. Regressamos grávidos da sua amizade, ansiosos que nos visitem para lhes desvendarmos um pouco da nossa vida como nos desvendaram a sua, apenas no Sul os jardins são raros. Então, combinamos que nos enviarão sementes para plantarmos na varanda, certos de que tudo murchará.

Receba um alerta sempre que Djaimilia Pereira de Almeida publique um novo artigo.
Seguir

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.