Adões e Evas que não trincaram o fruto
No texto da semana passada disse que desprezava pessoas que defendem o futebol na sua essência. Posso ir mais longe: desprezo qualquer pessoa que defenda seja o que for na sua essência, com a excepção de Deus. O argumento que sustenta esta minha tão exagerada afirmação é simples: o mundo é imperfeito. Como vivo num país que lê pouco, aproveito a ignorância literária portuguesa para justificar a minha radicalidade mencionando Génesis 3. O que é Génesis 3?
Génesis 3 é o texto que na Bíblia explica que o mundo se tornou imperfeito. Neste caso, a Bíblia explica que o mundo se tornou imperfeito porque Eva e Adão foram na conversa da serpente que os encorajou a comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, árvore essa que era a única que Deus lhes tinha proibido de comer. Bem sei que há quem considere esta história uma imensa infantilidade filosófica. Mas creio errar quem assim pensa.A aparente infantilidade filosófica de Génesis 3 torna quem aceita a sua história mais preparado para um mundo que, lá está, se tornou imperfeito. Não deixa de ser revelador que tantas das pessoas que se afastam deste relato religioso se tornem muito mais despreparadas para lidar com a imperfeição do mundo e, nessa medida, acalentarem a pueril defesa da essência das coisas. Sim: considero os não-leitores de Génesis 3 altamente despreparados para lidar com o mundo real.O não-leitor de Génesis 3 mais facilmente defenderá o futebol ou qualquer outra coisa na sua essência e cairá na tentação de dividir o mundo e os seus habitantes em categorias da existência ou ausência dela. Quem não acredita que o pecado de Adão e Eva tornou tudo imperfeito acaba pela vida fora a procurar por Adões e Evas que ainda não trincaram o fruto e por jardins do Éden que possam ser reocupados. Como disse, o não-leitor de Génesis 3 equivoca-se no mundo que habita.
Salvaguardo que quem aceita Génesis 3 não despreza que num mundo imperfeito é, ainda assim, possível notar que nem todos os graus de imperfeições são iguais. Há imperfeições mais imperfeitas do que outras. No caso do futebol, que tanto nos tem animado, há equipas, jogos e jogadores mais imperfeitos do que outros. O que está em causa não é celebrar a imperfeição como a maior autenticidade deste mundo, mas, a partir dela, prestar atenção.A atenção do leitor de Génesis 3 leva-o a surpresas: por um lado, numa imperfeição generalizada espanta-se com a graça, que é uma espécie de intervalo na imperfeição; por outro, não a descobre nos que negando a premissa de Génesis 3 impõem separações rígidas entre a essência e a ausência dela. O não-leitor de Génesis 3, acriançado na rejeição de que tudo no mundo está sob a marca de uma imperfeição antiga, busca por plenitudes que o isolem dos erros dos outros.Defender algo na sua essência é, neste caso, desprezar o mundo e as pessoas reais. Sei que não é um erro premeditado. Sei até que parece mais simpático não acreditar nas implicações de Génesis 3 e andar pela vida fora à procura dos tais Adões e Evas que ainda não trincaram o fruto e por jardins do Éden que possam ser reocupados. Mas, por simpático que pareça, torna-nos mais distantes de quem não consegue cumprir as expectativas de estar à altura da sua própria essência.Desprezo portanto qualquer pessoa que neste mundo defenda seja o que for na sua essência; mas isso não me impede de acreditar noutro.
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