Nascimento de uma nação
Por estes dias, os Estados Unidos comemoram a sua data fundadora, o 4 de Julho (de 1776). Não é para menos. Os acontecimentos que esse dia pôs em marcha, e que se sucedem até hoje, transformaram irreversivelmente a História da Humanidade. Proclamando princípios liberais de liberdade e de igualdade, do governo limitado e legitimado pelo consentimento popular, do direito colectivo à revolução contra a tirania, os revolucionários instituíram a primeira república representativa constitucional que o mundo jamais conhecera. Mais, faziam-no para um território de grandes proporções e preparada para uma população, que sendo exígua à data da revolução, se queria grande e em expansão perpétua.
Seguindo precedentes ingleses e holandeses, pastores e pregadores do “não-conformismo” Protestante conciliavam os princípios da liberdade com a devoção cristã e o proselitismo universal. Como se não bastasse, os Americanos aperfeiçoariam com uma extraordinária ciência e presciência a estrutura federal como modo constitucional de conjugação da unidade, da escala e do poder, por um lado, com a particularidade e o governo local, por outro.A partir daí, a vida política dos EUA nunca mais deixaria de acelerar. Conflituosa e violenta, expansionista e ambiciosa, foi-se anunciado como a primeira grande democracia do mundo moderno, não sem se fracturar com profundas contradições, a começar com a da escravatura nos estados do sul. A violência esteve sempre presente, desde logo porque em muitos territórios era escassa a agência da lei e da ordem, e a tendência para a justiça popular acordava de tempos a tempos com uma fúria horrível.Muitos destes debates e tensões só seriam resolvidos à força pela guerra civil dos anos 60, vencida pelo homem indomável que vislumbrou nela um duro, mas necessário, “novo nascimento da liberdade”. Só foram decididos pela guerra civil e pelo período que se lhe seguiu chamado da “Reconstrução”, que implicou o exercício de uma espécie de ditadura militar sobre os Estados derrotados e uma revisão por aditamentos da Constituição federal (e dos estados derrotados).
Poucas décadas depois, os rurais e periféricos EUA convertiam-se na grande potência mundial: económica, política, mais tarde militar – e mais tarde ainda cultural. Em grande medida, com a construção de um império e com a projecção do seu poder – primeiro, como grande potência vitoriosa da Primeira Grande Guerra; depois como beligerante na Guerra Fria; e mais tarde durante um breve período que antecedeu o nosso tempo quando foi a potência hegemónica no mundo – o mundo americanizou-se. Adoptou a sua língua e a sua linguagem, os seus heróis e os seus vilões, com o peso do seu cinema, da sua televisão, dos seus produtos, e, mais recentemente, dos conteúdos híbridos das novas formas de comunicar.Hoje, a América prossegue a sua incessante transformação. Profundamente latinizada pela imigração de décadas, traumatizada com as ondas de choque que o seu poder e as suas contradições inevitavelmente criam, ferida no seu orgulho e no seu domínio económico e menos ingénua na proclamação da pureza dos seus princípios, a América continua a marcar o ritmo da história da Humanidade.Muitos perguntam se o radicalismo das franjas dos seus dois partidos, e o seu respectivo conflito, é compatível com os princípios que a tornaram o que foi. O consenso sobre os princípios comuns parece desvanecer-se numa nova “guerra civil espiritual”. Ao mesmo tempo, o pilar religioso tradicional da ordem política da liberdade, o Protestantismo evangélico e presbiteriano vai perdendo influência – na devoção da população e, claro, na orientação política – sem que se perceba que apelo transcendente o substituirá, ou se um fundamento puramente laico, como o da Europa dos últimos 40 anos, será suficiente para que a América se conserve como a América.Compreende-se com tudo o que se tem passado que a Europa precise de uma nova autonomia, e até que esse esforço de autonomia possa ser o projecto comum sem o qual a Europa estaria condenada. E evidentemente autonomia significa autonomia da América. Mas a irrupção da América na História nos últimos 200 anos, com todo o brilho e com toda a tragédia que proporcionou, tem-nos mostrado que é de uma aliança sensata e madura que precisamos nos dois lados do Atlântico. A América é demasiado poderosa, é demasiado criativa, para que nós, Europeus, a possamos dispensar.
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