CIÊNCIA

As iluminadas trevas de Batman


Uma dificuldade evidente para os leitores interessados em acompanhar estas histórias de super-heróis assenta na frequência de publicação que a Marvel e a DC Comics impõem, visto que, dependendo do super-herói, todas as semanas ou meses surge um novo fascículo que acrescenta uma pedra a estes monumentos quase seculares. Assim, o caminho possível para quem pretenda mergulhar neste universo sem se afogar passa pela leitura das reinvenções destes cosmos criadas pelos artistas de maior renome, que, tipicamente, são autocontidas, permitindo-nos assim ler uma história que quase prescinde de qualquer conhecimento prévio acerca da história narrada.
É nessa senda que encontramos os seis volumes agora editados do Batman de Grant Morrison (publicados originalmente entre 2006 e 2013), onde o argumentista escocês nos apresenta a Damian, o filho que, alegadamente, Bruce Wayne terá tido com Talia al Ghul (por sua vez, filha do vilão Ra’s al-Ghul, interpretado por Liam Neeson na saga levada ao cinema por Christopher Nolan), ao mesmo tempo que vemos emergir a associação de malévolos magnatas Black Glove, que pretende destruir quer o Cavaleiro das Trevas quer o próprio Joker apenas para entretenimento dos seus associados (e, claro, de nós, leitores).O que torna tão fascinante Batman, cujo carisma e fulgor fica a milhas de distância da mesma versão da história que a Marvel procurou criar com o Homem de Ferro, é, em certo sentido, a reconfiguração do mito freudiano que nele encontramos, uma vez que aqui Bruce Wayne não aplica a sua imensa fortuna no combate ao crime para matar o pai, mas precisamente na infundada esperança de assim o ressuscitar. Contudo, o interesse de Batman vai muito além disso. Em quase todas as histórias, é um herói relutante, herdeiro do Aquiles da Ilíada, na medida em que frequentemente as histórias começam com Bruce Wayne convencido a pendurar as armas e desistir de uma causa que lhe parece, no melhor cenário, condenada ao insucesso e, no pior, contraproducente, sendo habitualmente as suas relutâncias dissipadas ora pela intervenção de um vilão (tipicamente o Joker, esse Heitor de Gotham) ora para impedir a morte de alguém que lhe seja querido (Alfred, Rachel ou, no caso concreto da saga de Grant Morrison, Robin), o que, mais uma vez, reproduz a história de Aquiles, cujo rancor contra Agamémnon é apenas superado pela necessidade de vingar a morte do seu doce amigo Pátrocolo.

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