Sabemos pouco sobre Filantropia. E isso é o verdadeiro ponto
Pergunte a dez portugueses o que é uma fundação e é provável que ouça dez respostas diferentes, muitas a confundi-la com uma IPSS ou uma ONG. Não é falta de boa vontade, é falta de informação. E essa é, esta semana, a conclusão mais incómoda de dois estudos publicados quase em simultâneo: sabemos muito pouco sobre Filantropia em Portugal.
O estudo Perceção dos Portugueses sobre as Fundações, da Ipsos Apeme para o Centro Português de Fundações, situa o conhecimento médio sobre o tema em 5,1 numa escala de 0 a 10. Em espontâneo, quase todas as respostas se concentram em duas fundações, Gulbenkian e Champalimaud, deixando invisível a esmagadora maioria das mais de 600 fundações portuguesas. Reconhece-se o papel das fundações a complementar o Estado (66% concorda que é essa a sua função), sobretudo em saúde, desigualdade social e apoio a populações vulneráveis. Mas essa relevância não se traduz em confiança automática: a confiança fica-se pelos 3,2 em 5, e só 30% considera que as fundações são transparentes. Quem já teve contacto direto com uma fundação confia mais. O contacto é, no fundo, o melhor antídoto contra o desconhecimento.Dias antes, a Rede Capital Social publicou Filantropia Estratégica em Portugal, Caminhos para a Mudança Sistémica. A conclusão de abertura é quase idêntica: não há, em Portugal, dados suficientes para diagnosticar o setor.Vale a pena recuar ao conceito. Philanthropia significa “amor à humanidade” e nasceu na Grécia como um dever cívico, não como caridade. Filantropia não é sinónimo de Responsabilidade Social Corporativa nem de ESG. É ação voluntária para o bem público, mais ampla do que um donativo e mais concreta do que uma métrica de reporte. E tem níveis de maturidade, do donativo pontual até à Filantropia estratégica: objetivos claros, foco no impacto de médio e longo prazo, uso de evidência e métricas, e mobilização de recursos que vão além do dinheiro, como conhecimento, redes ou capacitação. Não é uma categoria à parte, é um patamar que qualquer ator do ecossistema pode alcançar, seja um indivíduo, uma empresa ou uma fundação. É a diferença entre apagar fogos e mudar a arquitetura do sistema que os provoca.
Lidos em conjunto, os dois estudos desenham o mesmo paradoxo por dois ângulos diferentes. Do lado da perceção pública, os portugueses reconhecem as fundações como necessárias, mas isso não basta para confiar nelas. Do lado da oferta, o segundo estudo aprofunda o diagnóstico: as 618 fundações ativas mobilizaram 865,8 milhões de euros em 2024, mas o essencial da economia social depende do Estado (40,8% das receitas), com a comunidade a pesar apenas 8,7%. A doação individual, aliás, caiu de 54% para 38% dos portugueses entre 2017 e 2023. E falta-nos ainda o que outros países europeus já têm: fundos colaborativos e financiamento plurianual, em vez de pilotos que arrancam com entusiasmo e depois param ali.Começamos a perceber que não há mudança sistémica sem capital paciente, e esse capital não aparece sozinho, tem de ser criado de forma intencional. Os dois estudos confirmam com dados portugueses o que até aqui se discutia sobretudo em teoria: tratamos problemas complexos como se fossem simplesmente complicados, com relatórios trimestrais, financiamentos anuais e exigências de prova imediata, quando eles exigem tempo, experimentação e a humildade de admitir o que ainda não sabemos.O caminho começa pelo básico: mais literacia, mais transparência, instrumentos fiscais modernizados e um setor privado mais presente no financiamento da economia social. Nenhuma destas mudanças acontece por decreto. Mas todas começam pelo mesmo sítio: reconhecer que, neste momento, sabemos pouco, e que esse é, precisamente, o primeiro problema a resolver.O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.
Receba um alerta sempre que Rita Damasceno publique um novo artigo.
Seguir








