CIÊNCIA

Porque precisamos de uma nova geração em saúde pública

A saúde pública vive um paradoxo. Nunca foi tão importante para as nossas vidas e, simultaneamente, tão invisível. Quando funciona, quase não damos por ela. Está na água que bebemos, nos alimentos que consumimos, na vacinação que previne doenças, na vigilância de epidemias, na qualidade do ar, na segurança dos medicamentos, nas cidades que promovem estilos de vida saudáveis ou nas políticas que reduzem desigualdades. Só quando falha percebemos verdadeiramente o seu valor.
A pandemia de COVID-19 tornou evidente que a saúde das populações não depende apenas dos hospitais nem da excelência dos cuidados clínicos. Depende da capacidade de prevenir doenças, antecipar riscos, proteger comunidades e criar condições para que as pessoas possam viver vidas mais saudáveis. Essa é, precisamente, a missão da saúde pública.Mas os desafios que enfrentamos hoje são múltiplos: vivemos mais anos, mas também convivemos com mais doença crónica. As alterações climáticas acumulam riscos para a saúde, da exposição ao calor a novas doenças transmitidas por vetores. A poluição continua a afetar milhões de pessoas. A desinformação compromete programas preventivos. Persistem desigualdades sociais que determinam quem vive mais, quem adoece mais cedo e quem tem menor esperança de vida saudável. A saúde mental é uma preocupação crescente. E a rápida transformação tecnológica, incluindo a inteligência artificial e a utilização massiva de dados, abre oportunidades extraordinárias, mas também novos desafios científicos, organizacionais, éticos e de governação.Nenhum destes problemas pode ser resolvido apenas nos hospitais, por uma única profissão ou por um único setor. A saúde pública é, cada vez mais, um problema de todos: da saúde, da educação, do ambiente, da habitação, do trabalho, da proteção social, das autarquias, das empresas, das universidades e dos cidadãos.
Exige profissionais preparados para responder a fenómenos complexos, analisar determinantes sociais, transformar dados em ação, comunicar risco, desenhar e avaliar políticas públicas e intervenções, antecipar e responder a crises e mobilizar diferentes setores da sociedade.É precisamente aqui que ganha especial relevância a criação de uma licenciatura em Saúde Pública, a primeira de carácter internacional em Portugal, que a Escola Nacional de Saúde Pública, a Faculdade de Ciências Médicas e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa vai abrir já em setembro. Esta licenciatura reconhece que a saúde pública evoluiu para um campo complexo e interdisciplinar, que exige competências específicas em epidemiologia, análise de dados, comunicação e literacia em saúde, saúde ambiental, planeamento, avaliação de programas, investigação, gestão de risco, políticas públicas e trabalho intersetorial. Competências dispersas por diferentes percursos formativos passam agora a estar integradas numa formação coerente e orientada para os desafios do século XXI.Os futuros licenciados poderão contribuir para áreas como vigilância epidemiológica, planeamento em saúde, saúde ambiental, promoção da saúde, prevenção, análise de dados, avaliação de programas, preparação e resposta a crises ou emergências, investigação, ou apoio a políticas públicas e decisão em instituições nacionais e internacionais. Poderão integrar equipas multidisciplinares em unidades locais de saúde, administrações de saúde, institutos públicos, autarquias, organizações do setor social, empresas, organizações internacionais, centros de investigação e universidades. Num mundo interligado, as oportunidades profissionais serão tão diversas quanto os desafios da saúde global.Investir em saúde pública é, provavelmente, um dos investimentos com maior retorno para qualquer sociedade. Cada doença evitada representa menos sofrimento humano, maior qualidade de vida, maior produtividade e uma utilização mais eficiente dos recursos do sistema de saúde. Mas representa também sociedades mais preparadas, resilientes e capazes de responder a ameaças que, muitas vezes, não começam por parecer sanitárias: uma vaga de calor, um surto evitável, uma falha de comunicação, uma desigualdade agravada ou uma decisão tardia.
A criação da primeira licenciatura internacional em Saúde Pública em Portugal representa, por isso, um passo natural na maturidade do nosso sistema de ensino e do nosso sistema de saúde. Não responde apenas às necessidades de hoje; prepara-nos para os desafios de amanhã. Portugal tem aqui uma oportunidade histórica: formar uma nova geração de profissionais capazes de antecipar desafios, preparar sistemas e comunidades para crises e emergências de saúde pública, de colocar a prevenção ao mesmo nível da cura, de compreender que a saúde se constrói em todos os setores da sociedade e de transformar conhecimento em ação. Porque a melhor forma de proteger a saúde não é reagir a crises ou esperar que a doença apareça. É formar quem sabe evitá-la e construir sociedades mais resilientes.

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