CIÊNCIA

Um Gonzalo de Plata entre o coração dourado de Beccacece

Siga aqui tudo sobre o Mundial-2026 no ObservadorQuando acabou o encontro frente ao México com mais uma derrota que ditou a eliminação logo na primeira fase da prova, Miroslav Koubek, selecionador da Rep. Checa, foi direto à ferida sem rodeios: “Podíamos ter marcado, facilitámos, cometemos erros parvos. Não tivemos uma prestação boa, devíamos ter somado mais pontos e estamos fora”. Do grupo A para o grupo E, a primeira frase e metade da segunda podiam ser quase um espelho da presença do Equador neste Mundial – ainda com a esperança de poder evitar as últimas duas palavras a assumir o afastamento da competição. Era como realizar um filme mas ao contrário, onde as cenas mais fáceis se tornaram as impossíveis de rodar (por culpa própria, quer na derrota em cima do minuto 90 com a Costa do Marfim, quer no nulo diante de Curaçau) e o take mais complicado não podia falhar.
“Ainda temos uma possibilidade de avançar na prova mas, se as coisas não acontecerem, terei de ir embora. É um lugar que gosto muito mas sei que o futebol é feito de resultados, independentemente da justiça ou não dessa avaliação. Sei que ainda não consegui entrar no coração dos adeptos. Conquistei a confiança dos meus jogadores, das pessoas que trabalham comigo e de quem está na seleção mas não dos adeptos. Se calhar há cois em mim que talvez não gostem…”, assumira Sebastián Beccacece, numa conferência que parecia mais uma despedida antecipada do que propriamente a antecâmara de um dia histórico. Com um ponto em dois jogos, nenhum golo marcado e o primeiro classificado do grupo E pela frente, nem as próprias palavras do selecionador pareciam querer enganar o destino de quem lamentava mais o passado do que vivia o presente para ter ainda um futuro neste Mundial. No entanto, e como se veria 90 minutos depois, aquilo que parecia na teoria era outra realidade na prática. Já com tudo definido, Nagelsmann tinha outras preocupações.Após ter abordado sem rodeios as opções iniciais que iria apresentar com o Equador já com a qualificação no bolso e na primeira posição, explicando que só Nico Schlotterbeck (que falhará o resto do torneio por lesão) e Nathaniel Brown, com dores nos adutores, ficariam de fora para as entradas de Antonio Rüdiger e David Raum,  o selecionador alemão fez uma reflexão sobre o calendário desenhado nesta primeira fase final de sempre com 48 seleções, lamentando ter de ficar à espera até sábado para saber quem será o adversário nos 16 avos, que sairá de um dos melhores terceiros classificados. “Há coisas melhores do que ter de ficar a pé até tarde no sábado para no domingo apresentar o adversário à nossa equipa. Dividimos aqueles que seriam os mais prováveis a jogar contra nós, já vimos três ou quatro jogos de cada, mas temos de esperar”, lamentou, entre elogios a um conjunto que não estava no leque de opções possíveis mas que foi aquele que mais o impressionou até este momento na fase final: os Estados Unidos, contra quem jogou um particular.Ou seja, e voltando à questão da equipa inicial, Deniz Undav, a grande figura da Mannschaft nas partidas iniciais com números que mais nenhum titular conseguiu entre três golos e duas assistências, iria continuar no banco, faltando apenas saber quando seria lançado e o que poderia fazer. Mais uma vez, entrou durante a segunda parte. Ao contrário das outras ocasiões, não teve impacto apesar de um míssil na esquerda da área que ficou nas malhas laterais. Aquilo que podia ser um grande teste para a Alemanha e um adeus do Equador transformou-se numa viagem ao paraíso para os sul-americanos e num pesadelo para os alemães.
Ainda assim, nada podia prever esse desfecho. Muito menos quando, logo no segundo minuto, a Alemanha marcou num lance em que Pavlovic atingiu na cabeça Vite antes do desenvolvimento da jogada até ao remate certeiro de Leroy Sané na área. A árbitra não viu falta, o VAR também o gesto por alguma razão normal e o golo foi mesmo validado. Podia ter sido um golpe fatal para os equatorianos, pela desvantagem madrugadora e pela forma como os jogadores demoraram a ficar recentrados no encontro, mas o virtuosismo de Nilson Angulo veio ao de cima, arriscando uma meia distância de fora da área e marcando o primeiro golo dos sul-americanos neste Mundial sem hipóteses para Neuer (9). Voltava tudo à estaca zero, com a Alemanha a ter um ascendente até ao intervalo mas sem que o Equador vivesse situações de grande pânico na área.O segundo tempo começou com mais um lance polémico, com Kai Havertz a ser travado na área por Ordóñez para uma grande penalidade que seria revertida pelo VAR. Mais um susto que abalou os equatorianos mas não conseguiu desregular uma equipa com um coração enorme, do tamanho do carisma do seu selecionador. O antigo adjunto de Sampaoli trouxe muito do ex-técnico principal consigo na forma como consegue gerir um grupo de trabalho mas tem também o condão de, nos momentos limite, encontrar respostas onde eles não parecem existir. Mais uma vez, foi isso que aconteceu: depois de ter lançado em campo Kevin Rodríguez, o avançado do Union Saint-Gilloise teve um desvio determinante ao primeiro poste para enganar a marcação germânica e assistiu Gonzalo Plata para o 2-1 da reviravolta (77′). Estava carimbada aquela que foi a maior vitória de sempre do Equador num Mundial e o apuramento, festejado como se fosse quase a final perante a reviravolta épica contra uma das candidatas à vitória. Já a Alemanha acabou com Nagelsmann a falar, e muito, com os adjuntos. Mais do que o próximo adversário, há problemas próprios para reseolver…
Era no mínimo estranho que o Equador, que terminou a qualificação sul-americana como a melhor das equipas atrás da campeã mundial Argentina, chegasse à terceira jornada do Mundial como única equipa ainda sem golos apenas a par dos já eliminados Turquia e Panamá (que ainda vão jogar). Não fazia sentido, mesmo nada – até com Eloy Room, o guarda-redes de Curaçau, a fazer 15 (!) defesas num só jogo. Nilson Angulo, avançado do Anderlecht que já assinou pelo Sunderland, quebrou essa série de 188 minutos sem marcar e resgatou a equipa quando mais precisava, dando muito ao jogo do Equador com e sem bola, entre as nove recuperações, os quatro dribles e as três conduções progressivas.

Gonzalo Plata parece andar no futebol da alta roda internacional há mais de uma década, tem apenas 25 anos mas, ao mesmo tempo, continua a ser visto mais como uma promessa do que como um jogador afirmado. É essa inconstância que tem desacelerado o crescimento do ala equatoriano que passou pelo Sporting e que joga nesta altura nos brasileiros do Flamengo, de Leonardo Jardim. No entanto, quando a equipa mais precisava, o canhoto apareceu, com um desvio providencial na pequena área após canto que fez o 2-1 para o Equador e confirmou aquela que foi a maior vitória de sempre do país num Mundial.

Ainda antes desta partida, a Alemanha já sabia que iria terminar na primeira posição do grupo E e que iria jogar os 16 avos em Boston no dia 29, segunda-feira, ficando apenas por saber quem irá defrontar entre os melhores terceiros classificados, que poderiam sair dos grupos A (Coreia do Sul), B (Bósnia), C (Escócia), D ou F. Já o Equador, apesar da vitória da Costa do Marfim frente a Curaçau, já garantiu a qualificação para a próxima fase mas como terceiro classificado, não conhecendo ainda o adversário.

Ao contrário do que chegou a ser levantado (e com razão de ser), um Mundial alargado a 48 equipas não teve tanto impacto em termos de desnível entre equipas como se pensava. Houve margem para todos os extraterrestres encherem o saco de golos como podia não acontecer noutro contexto mas, à exceção do 7-1 no Alemanha-Curaçau ou do 5-0 no Portugal-Uzbequistão (houve mais goleadas mas entre equipas que, com apenas 32 apurados, podiam lá estar também), o desequilíbrio foi menor do que previsto e até houve margem para surgirem fenómenos como Cabo Verde. No entanto, há um problema nesta fórmula que foi apontado por Julian Nagelsmann: não é normal que alguém que vença um grupo tenha de ficar à espera mais umas horas (e tarde) para saber quem vai defrontar nos 16 avos entre os melhores terceiros classificados. Como resolver essa questão? Não havendo um recuo possível para 32, aumentar para 64. E não é que já existem algumas vozes que defendem esse incremenento?

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