CIÊNCIA

A democracia está bem, está quase perfeita

1.De há uns anos a esta parte tornou-se corrente efabular sobre a doença das democracias. Não exactamente da Democracia mas das democracias – sendo que a primeira é uma entidade ideal à maneira de Platão, existindo essencialmente, e as segundas são a sua sombra imperfeita projectada nas paredes dos parlamentos. Os mais desanimados de entre todas as cabeças cívicas que se questionam sobre o futuro das democracias antevêem a sua morte. Outros, mais condescendentes, afirmam que são tudo efeitos mal conseguidos de sombra e luz. Na ideia destes a Democracia não contém no seu seio nenhum ovo de serpente, pelo contrário, é uma fénix que nunca chega a morrer, fulgurante e imarcescível (oh prodigioso Mário-Henrique Leiria). Estão todos enganados.
A Democracia está melhor do que alguma vez esteve, é possível afirmar que atingiu um acme de perfeição que emociona presidentes e faz inveja à velha da Adiça – aquela que quanto vê quanto cobiça. E percebe-se. A Democracia não está doente nem sequer a perder formosura. Se a Democracia existisse em embalagens de 33cl seria tão vendida como a coca-cola, se fosse às riscas enfeitaria as câmaras municipais. A Democracia é um programa de código aberto e todas as aplicações que se baseiam nele são excelentes. A Democracia é um produto sem açúcar, sem glúten, sem gordura, sem sal, sem cafeína e sem nicotina – é o sistema de governo mais parecido com um frasquinho de prota ou um abacate.2.Mas porque é que alguns pensadores se preocupam? As razões que têm posto em dúvida a saúde das democracias são de dois tipos. O primeiro desse conjunto de razões, fazendo fé no que as pessoas dizem, releva de uma excessiva quantidade de defeitos cumulativos e em agravamento nas sociedades democráticas. A pré-falência do estado social, que está a sangrar os sistemas assistenciais e lança sombras sobre o futuro das pensões, é a mais premente. Depois, a imigração brutal que dividiu as sociedades, que alimenta estados dentro dos estados, que espalhou insegurança, violência e, notam ainda as pessoas, aumentou exponencialmente o número de idiotas que acham que tudo isso é mentira. A isso acresce, de novo segundo as queixas, um sufocante estado de prevenção sobre uma coisa chamada discurso de ódio – um estado de tento na língua que tem embaraçado a descrição do encontro de um inquilino com o seu vizinho badocha do 2.º andar, não o que tem uma mulher preta, mas o outro, o que atraca de popa. Depois, e na aparência preenchendo-lhes todos os espaços da paciência ainda vazios, as pessoas referem que estão a ser encharcadas por um tropel de discursos alimentando o medo – as alterações climáticas, as pandemias que hão de vir… – também por delírios que desafiam a inteligência – as teorias de género, a transfiguração dos corpos, a racialização e o remorso colonial… – e, inevitavelmente, alegam sofrer todos os dias o martírio de apanhar com os enjeitados que protagonizam esse outro surto de idiotice. Finalmente, e em relação com aquelas predisposições do ambiente social, queixam-se as pessoas de uma fiscalidade insustentável e a consequente perda do conforto económico. E, se ainda podiam habituar-se à falta de juízo, parecem estar a ter mais dificuldade em se habituarem à falta de dinheiro.
Existe um segunda ordem de razões que tem posto em causa, no entender de pessoas mais picuinhas, o bom estado das sociedades democráticas. Serão os políticos cada vez mais mal extraídos, incompetentes e sem escrúpulos – dizem. São eles, assim como o consenso acéfalo de partisans que os suporta, que sugerem a possibilidade de existir uma falha no funcionamento democrático. As pessoas que dizem isso fazem-no certamente para desfazer na democracia. Mas cumpre dizer outra vez que estão enganados.3.Nos Estados Unidos, o Presidente Trump governa a mais poderosa democracia do mundo com mãos de meia-légua. A sua prepotência não é napoleónica, seria demencial. Os que não gostam dele ignoram se o homem sofre da variante comportamental de uma DFT, como dizem muitos médicos americanos, se sofre de neurosífilis como alguma parceira poderia aventar, se é portador de um transtorno de personalidade tipo B como lhe calharia melhor, se é um doido varrido vulgar, traiçoeiro e perigoso como a generalidade dos israelitas deve pensar ou, pode ser, se é apenas um pândego. Má vontade. Na verdade, este é o segundo mandato de Trump, por escolha dos americanos. A alternativa a Trump era uma senhora parcamente esperta, apadrinhada por um senhor alzheimeriado que acabava de ser informado que tinha de sair de presidente. Os que decidiram nas urnas a vitória republicana eram em boa parte recém-chegados ao mundo racializado pelos democratas, um mundo distópico onde eram divulgadas ideias estranhas sobre a cor dos homens e manias íntimas. Donald Trump, é verdade, não é um acidente, culmina uma degradação brutal da qualidade das administrações americanas. Os EUA sofrem uma sucessão de presidentes que desde Ronald Reagan, o último presidente decente, se têm aperfeiçoado em loucura e incompetência. Mas todos eles foram eleitos, emergiram de uma democracia com a mais complicada e selectiva rede de produção de presidentes.4.Na Inglaterra, o senhor Starmer demitiu-se há poucas horas. Saiu praticamente em glória, fazendo pouco de todos aqueles que lhe apontavam uma delicada incapacidade para decidir com acerto uma única vez. A sua linhagem começou após o desaparecimento de Margaret Thatcher, quando a política inglesa adoptou John Major para sarar o despeito dos despeitados. Onde havia rumo o senhor Major pôs indecisão, onde havia coragem passou a haver diálogo, consenso e conciliação. Depois, foi só descer por Tony Blair abaixo até ao estado actual. Thatcher tinha recuperado a economia, defendeu o povo da pesporrência sindical, esvaziou o poder fáctico dos sindicatos, percebeu os riscos de uma imigração descontrolada e controlou-a, ajudou ao lado de Reagan à desactivação do comunismo e à libertação dos países de Leste. Hoje, a Inglaterra é uma economia parada, com impostos e desemprego esmagadores. É um caldeirão pútrido onde as leis são viciadas a favor de islamitas e industânicos, panicada e submissa sem honra ao esquerdismo woke. A Inglaterra tornou-se o país onde o islamismo tem em marcha o plano mais bem sucedido para condicionar os costumes, manietar a autoridade e dominar a administração pública a todos os níveis. A recuperação do bom nome e da preponderância cívica que distinguiram a Inglaterra durante séculos vai ser muito difícil. E é de uma lucidez aterradora a previsão de que não venha a acontecer de modo pacífico. É sensato que os ingleses ponderem com Bernard Shaw, que nasceu inglês quando a Irlanda ainda pertencia ao Reino Unido –  “Democracy is a device that insures we shall be governed no better than we deserve” – e escolham.4.A França tem um regime presidencialista que destaca sem clemência o valor dos governantes. Emmanuel Macron é um infeliz que sucedeu a um Hollande incapaz e tonto, e este, como se não fosse suficiente sofrer os piores atributos de ser socialista, ainda teve que herdar o Estado francês de Nicolas Sarkozy, esse arguido recorrente e errático. A França está a ser governada há muito por homens pequenos e é hoje o mais desgraçado dos países europeus, o que se encontra mais perto de uma implosão calamitosa. À França está prometido ver nas ruas o confronto sangrento entre a França histórica e os estados de intocáveis sem lei que os seus governantes consentiram – e se a França não vencer as consequências para a Europa serão devastadoras. Não existe nenhum defeito na democracia francesa, funciona bem apesar do caos financeiro e social, de todas as bancarrotas iminentes e da vulgaridade dos políticos que tem produzido.
5.Também a Espanha pode ser considerada uma democracia sem mácula. Tem eleições e referendos, nenhum Francisco Franco está a tomar decisões arbitrárias sobre a Espanha e as suas Espanhas. Mas alguns notam que está a cavar um buraco de proporções vulcânicas com a sua abertura em espargata à imigração, com políticas sociais demagógicas e sem controle, com o apoio declarado ao activismo de esquerda e com o descaso que faz da confrontação doméstica e com os países do ocidente. Sobre os seus políticos não é necessário escavar mais fundo do que 2018, até achar a formidável minhoca que é Pedro Sánchez. Ele, os seus amigos, camaradas e família, ocupam as páginas dos jornais, vários juízes de direito e quatro celas nas prisões espanholas.6.Portugal é o exemplo mais próximo de uma democracia viva, com 52 anos de maturidade, outros tantos de adubo ideológico interno e quase tantos de carinho financeiro da Europa. Nos últimos anos o fulgor económico e social da democracia portuguesa tem beneficiado de estatísticas trabalhadas ao pormenor, revolvidas e inclinadas. Porém, para quem sabe ler a realidade é evidente, na percepção e por números honestos, que Portugal é um país em dissolução, sem dignidade e sem nobreza. É uma opinião, porque para a generalidade dos portugueses a pátria é boa, suficientemente prestativa, é o seu torrãozinho e tem a melhor linha avançada do mundo a jogar pela esquerda, encostada à linha e com diagonais para dentro. Portugal já foi governado por José Sócrates e António Costa, que foram bons para o povo. Luís Montenegro, que sucedeu a Costa, pareceu ser um pouco diferente, até melhor nalguns aspectos por uma daquelas erupções de optimismo que os portugueses têm dia sim-dia não. Ao mesmo tempo que LM, um partido novo, escolhido por quase 1 milhão e meio de fascistas que ainda havia em Portugal, tornou tremendo o receio de um recuo em todas as políticas boas. Esse risco foi identificado e logo promovido o necessário controle com a eleição do Presidente da República. Com António José Seguro a esperança reconstituiu-se. A.J. Seguro veio dar impulso ao imobilismo, injectou um suplemento de energia na estagnação e está a fazer crer ao PS e ao Chega que conseguirão chegar ao nível de alucinação já alcançado pelos partidos de esquerda. Com tudo isso a Assembleia da Rrepública, também chamada a casa da democracia, continua a ser um recreio onde os mais velhos imitam uma espécie de Mixed Martial Arts – socialismo vs. economia em 50 assaltos e os mais que forem precisos – isto sob o olhar dos mais pequenitos que olham das bancadas, e o aplauso dos tontos.7.É assim lícito concluir que a democracia degenerou, amadureceu em excesso, foi pervertida por um organismo estranho, não está a funcionar? Não, nada disso aconteceu. Ao contrário, a Democracia atingiu um nível de perfeição inédito na História, nunca foi tão exemplar e tão de acordo com os seus princípios fundadores. Evoluiu dentro dos seus pressupostos até um limite coerente – não se corrompeu, cumpre um destino que está contido na sua essência.A vocação igualitária da Democracia permitiu a chegada ao poder de um colégio combinado de indignos e desqualificados cada vez mais perfeitos. O facto de isso estar a acontecer numa sincronia óbvia não é estranho, significa que os sistemas políticos, aquecidos em meios semelhantes, se desenvolvem de acordo com os seus genes. A Democracia era para ser um sistema criticamente apetrechado para demitir ineptos – segundo os que teorizaram sobre ela. Na realidade, a Democracia tornou-se o meio mais acessível para os eleger e sustentar.
A Democracia é hoje o elevador social mais bem concebido para criaturas sem valimento, sem profissão e sem escrúpulos. A administração pública a todos os níveis e em todos os países de democracias avançadas é incapaz e acomodada. É incapaz de resolver problemas e está acomodada a um emprego. A maioria dos políticos teria dificuldade em sustentar-se se, retirados de uma junta, não fossem colocados numa secretaria de estado. Há alguns anos atrás homens de prestígio abandonavam as suas profissões bem sucedidas para servirem o estado, com prejuízo pessoal mas em atenção ao bem público. Hoje são poucos os que têm uma profissão bem sucedida para relegarem e, quando o fazem, é sem prejuízo próprio e em atenção ao seu bem pessoal.A Democracia será por muitos anos o sistema de governo menos mau dos países desenvolvidos do Ocidente. Os homens que elegem governos e deputados necessitam de educação académica e moral para perceberem em que plano de interesses fazem as suas escolhas – o seu, o do seu partido, o da sua terra, ou no interesse da terra de todos. Os países necessitam de uma classe governante que perceba a necessidade de abrir o conhecimento aos seus governados. Vai ser preciso tempo, tanto que ou começam já ou tudo estará perdido para os agentes das trevas e da submissão.8.E a começar por algum lado é avisado começar pelo princípio. Primeiro: ninguém será admitido a um cargo de governo se não tiver uma profissão e não provar que a exerceu com probidade durante 10 anos.
Segundo: ninguém será admitido a governar se não for capaz de dizer o que pensa, o que quer e para onde vai.Terceiro: deve jurar, e esse será o único juramento exigível, que se irá embora pelo seu próprio pé tão logo perceba, ou lhe dêem a perceber, que não está a respeitar o que pensava, que já se esqueceu do que quer e já não sabe para onde vai.

Receba um alerta sempre que Vieira Barbosa publique um novo artigo.
Seguir

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.