Vance pode ter razão
Adoro falar e ouvir falar de teologia. E, ainda que não me importe, não me interessa ter razão, estar certo ou concordar com aquilo que oiço. No fundo, agradam-me sobretudo as conversas sem ordem nem os formalismos do discurso técnico, algo que se faz só porque sim, porque apetece, porque não há alternativa. Sei bem o que isto é: quase um apego, um género de afeição, próximo da compensação que se procura depois da ressaca. Mas, como método, parece-me sempre mais fértil tentar compreender do que defender ou condenar. O debate só existe quando se entra com a predisposição de salvar a proposição do próximo.
J. D. Vance deu uma entrevista ao New York Times. Poucas pessoas, confesso, me têm dado tantas dores de cabeça. Embaraçosamente cordial, a conversa anunciava-se como uma análise à moralidade da administração americana, mas acabou por deter-se, ao início, no acordo com o Irão. A meio, a propósito do livro que acaba de publicar — onde narra o seu regresso à religião —, Vance diz três coisas que merecem ser destacadas.A primeira é mais pessoal. Vance explica que, como vice-presidente, o seu papel consiste em duas coisas: dar ao Presidente o “melhor conselho” e a “melhor informação”; e apoiá-lo quando ele decide, mesmo discordando. Como padre, entendo bem o que quer dizer. Ser vice-presidente não é ser comentador. Não faria sentido, nem seria moral ou sequer apropriado. O número dois não pode ser a criança mimada que se queixa do chefe em público. O exercício do poder exige e pressupõe lealdade, institucional e pessoal. Não tenhamos ilusões quanto a isso. Engolir sapos faz parte da vida pública, e é por isso que são tão perigosos os perfis messiânicos e narcísicos. Nenhuma instituição sobrevive sem posições que se sobreponham às posições individuais; nenhum Estado se aguenta sem consensos que suplantem as idealizações, os sonhos e os caprichos de cada um.A segunda ideia relevante surge quando Vance afirma que a voz do Papa é diferente da voz do Presidente dos Estados Unidos. A resposta tem por trás, claro, a recente polémica entre Trump e o Papa Leão XIV, mas a explicação que ele avança reforça quanto é redutor ver em Leão e Trump uma espécie de reedição da rivalidade entre Borg e McEnroe. Pode defender-se que, sem condenar a Igreja a um idealismo irrazoável, o Papa, ao pregar o Evangelho, se torna “uma importante voz moral”, e que isso é distinto de “aplicar princípios morais para que produzam os melhores resultados”. Felizmente, não me cabe julgar a capacidade de Vance para levar a cabo essa tarefa, mas não se pode excluir que “aplicar princípios morais” em busca dos “melhores resultados” exija, por vezes, sacrificar o “bem maior” ao “bem possível”. É pena que este terreno da nuance ande a ser substituído pela pressa e pelo simplismo moral. E não estou certo do que Vance, autoproclamado adepto da clareza moral, diria de uma abordagem assente mais no discernimento do que na objetividade.
O terceiro ponto parece-me, no entanto, o mais relevante. Vance conta que o seu afastamento da Igreja resultou de a sentir demasiado envolvida nas “guerras culturais”. Chega a dizer que foi “num momento em que a sua família sofria, lidava com a toxicodependência e com vários problemas que pareciam distantes desse debate” que se desligou da religião. Aqui está um aviso que deveríamos escutar. É certo que a teologia tem que ver com o espaço público, supõe uma visão do mundo e exige uma adequação moral, mas é uma armadilha sufocar a presença da Igreja nas ditas questões culturais. Sejam elas os temas fraturantes, as questões das minorias sexuais ou – e peço atenção a este ponto — os temas migratórios, a descristianização da Europa ou a natalidade. Se Vance tem razão, e creio que tem, a exploração desses temas produzirá um balão de oxigénio meramente aparente. Crescerá o interesse pela Igreja e por Jesus, mas isso tenderá a esgotar-se, porque quem lê o Evangelho sabe: Deus não está aqui para responder às nossas exigências. Além disso, não é de excluir que, ao mesmo tempo que muitos fazem das migrações o novo aborto e da “decadência da civilização ocidental” a nova eutanásia, outros, tal como Vance, andem zangados com a Igreja por não encontrarem nela quem lhes fale de “todas as coisas normais com que os miúdos de 21 anos se debatem”.É difícil encontrar o equilíbrio entre a Igreja da sacristia e a Igreja das causas, mas convém saber que os riscos não habitam apenas na primeira. A fé prossupõe a cultura. E a chave para uma relação sensata com ela deveria ser a posição de Jesus perante a Lei: não a legitima nem a põe em causa; não contesta a sua autoridade, mas discute a sua interpretação; recusa que a impureza do outro seja contagiosa, mas assinala que só a pureza tem capacidade de contaminação.Será que Vance concordaria com isto?
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