De n.º 2 para 3. Rui Tavares é o mestre da ilusão política?
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Ilve Soret na Rádio Observador e também no YouTube e nas redes sociais, hoje com a Judite França e o Alexandre Borges. O António Costa deverá juntar-se a nós um pouco mais tarde. Está preso no trânsito. Acontece. Um abraço, António, para ti que estás preso no trânsito e a todos os que estão ao teu lado no IC19 a esta hora, mas vamos ver se o António ainda chega a tempo. Hoje temos fundo soberano e também temos saída de Rui Tavares da coliderança do LIVRE, fica em número três. Jorge Pinto ascende, ficando a liderança com Isabel Mendes Lopes. Alexandre, agora o que vai ser?
Não tenho a certeza, porque eu precisei de ler vários jornais, tenho de confessar, para perceber exatamente o que é que aconteceu.
A hierarquia.
Exatamente.
O organigrama.
Senti em ti a segurança de quem já passou por este assunto várias vezes ao longo do dia e por isso já conseguiu dizer de certa forma.
Não, eu tenho na minha secretária o organigrama que é para não me livrar e do governo, que é para não me esquecer.
Mesmo assim vou questionar algumas das partes do que tu disseste.
Há co-porta-voz.
Algumas zonas. Exatamente, algumas zonas. Ora bem. Também estivemos todos a estudar.
Há co-porta-vozes?
Para já há co-porta-vozes. O que eu te posso dizer que é uma palavra composta por justaposição com mais de dois radicais ou encadeamentos vocabulares.
Há dois radicais neste…
É por isto que também pagam o meu salário.
Bom fim de semana a todos.
E já agora, radicais livres.
Radicais livres, ora bem. Perfeito.
Também é o nome de um programa de uma rádio concorrente.
Exatamente. E também é um problema de pele.
Os radicais livres também é um problema de pele?
Sim, os radicais livres fazem mal à pele.
Pronto. Sim.
Então é isso.
Estávamos a falar sobre?
Isto só em um programa completo. Íamos falar do LIVRE. Começámos o dia a ler a notícia: Rui Tavares abandona liderança do LIVRE. E eu pensei: “Epá, ok.” Ok, no sentido de que isto é de facto uma notícia. Vamos ver se o LIVRE é capaz de provar o que não provou até agora, quer se é mais do que o partido de um homem só. E seria interessante perceber isso neste momento, por quê, etc. Depois comecei a ler as notícias e de facto a ficar com dúvidas, e então começamos a entrar no detalhe. Porque se dizia: Rui Tavares vai deixar a liderança, mas continua na direção, mas é até julho, mas é até 2028, mas depois pode voltar em 2030, mas se o partido quiser, ele pode representá-lo nos debates nas legislativas de 2029.
Vai por partes.
O LIVRE não tem líderes, a esquerda não tem líderes, não tem presidentes, não tem sequer secretários-gerais. Esta esquerda.
Também não tem direções, tem grupos de contacto.
Era aí que eu também ia chegar, exatamente. Começa por ter ou um porta-voz, no caso do LIVRE, ou co-porta-vozes, como vemos, ou coordenadores, no caso do Bloco de Esquerda, que se bem me lembro, inaugurou também esta lógica da cooperação.
Teve Catarina Martins e João Semedo.
João Semedo, que sucederam a Francisco Louçã nas chamadas lideranças bicéfalas.
E acabaram com isso.
Não sei se por quais razões.
Não, sim.
Mas tiveram, tiveram-se algum tempo. É verdade. Penso que só depois Mariana Mortágua é que voltou a ser.
Bom, penso que a Catarina Martins ainda assumiu.
Catarina Martins foi líder por pequenos períodos.
Mas ainda antes de João Semedo falecer, penso eu, mas não tenho a certeza.
Muito bem. Depois precisamos de tirar mais um dia para estudar também todo o organigrama, no caso do Bloco de Esquerda. Temos os porta-vozes, que são escolhidos pelos 15 membros do grupo de contacto, que como dizia, e bem, a Judite, é aquilo a que nós, comum os mortais, chamamos de direção, é o órgão executivo. E este grupo de contacto, já agora, é escolhido pelo método de Hondt. Ao contrário das outras direções de partidos, em que há uma lista que triunfa e dirige, aqui há representantes de todos os concorrentes que tiverem conseguido uma percentagem suficiente para eleger um representante. Neste caso, em 2024, houve três listas, tal como vai haver agora ao Congresso em julho, ao novo Congresso do LIVRE. Houve três listas, essas três listas estão lá. Uma tem dois membros, outra tem três da direção e os outros 10 são da lista/moção A, que é aquela que é a corrente principal de Rui Tavares.
Chama Ampliar o LIVRE Contigo.
Que também é bem. Ampliar o LIVRE Contigo. Notem como estamos todos no Make America Great Again, Fazer Portugal Maior, que é o PSI. Este é o Ampliar o LIVRE Contigo. Está tudo aqui no wording.
ALC.
Diz?
ALC.
ALC, ora bem. E já agora, também vale a pena dizer, este é o 17º Congresso do LIVRE, este que vai ocorrer agora no mês de agosto.
Não pode se queixar de falta de debate interno.
Não há falta de debate interno. O LIVRE nasceu em 2014. Em 12 anos teve mais congressos do que anos. Eu estive a ver o PCP, acho que teve 21 ou 22 congressos em 125 anos de história. Aparentemente é isto. Tu dirias, e bem, e disseste: “Ricardo, não há falta de debate interno”, que curiosamente é justamente aquilo de que as oposições internas do LIVRE se queixam. Ou seja, temos toda esta lógica de não há cá direções, não há cá líderes, e depois as oposições, como já aqui acompanhámos em março, e é o tema das duas listas que aqui se candidatam, justamente dizem que não há liberdade interna, que há uma elite que verdadeiramente lidera o partido e que não ouve os outros. Há, por exemplo, um fundador, Filipe Caetano, que se afastou com algum ruído em março.
E que acusava a centralização do partido em Rui Tavares?
Exatamente, tal e qual.
Achas que há aqui um paradoxo LIVRE?
Depois do radical Livre há um paradoxo Livre. É justamente isso. A ideia do Livre pode enformar-se desta contradição no seu nome e nas suas intenções, com aquela que é a prática. E vimos a questão do que aconteceu com Joacine Katar Moreira, porque eles também tinham, além de tudo isto, eleições diretas para escolher os seus candidatos.
A questão de Francisco Paupério também não foi muito tranquila.
Francisco Paupério. Vamos recordar, Joacine Katar Moreira foi a primeira deputada única ao tempo do Livre, acabou afastada pelo próprio partido e, portanto, independente, e nas eleições seguintes já foi Rui Tavares. E nas europeias, Francisco Paupério, que durante este debate da corrida dentro do próprio Livre, havia pessoas que o achavam às vezes mais parecido com um liberal da Iniciativa Liberal do que com um liberal do Livre, também era alguém que não era membro do partido e fez com que houvesse uma mudança nos próprios estatutos, isto é, havendo uma segunda volta no Livre, essa já não é por eleições diretas. E tivemos aquele processo complicadíssimo também das presidenciais. Até a escolha de Jorge Pinto, que foi um processo delicado, como sabemos, acabou por dizer às pessoas: “Escolham quem quiserem e a gente no fim vê se está bem.” Foi mais ou menos isto, em resumo. Agora, Rui Tavares anuncia a sua saída, mas na verdade, tudo o que vai acontecer é que ele vai passar de número dois para número três. Reparem, sim, vale a pena dizer que ele era o número dois, também ninguém tinha reparado que ele era o número dois. Passa para número três, deixa de ser porta-voz, passando a ser Jorge Pinto, e Rui Tavares vai ficar ou propõe-se ficar, porque é isto, vale a pena dizer que há eleições. Para já, não há nada escolhido, mas na lista há Rui Tavares, propõe-se ficar só com o pelouro da estratégia, formação e comunicação. Não se preocupem, ele a partir daqui-
É que há limitação de mandatos.
Exatamente. Há limitação de mandatos para cada órgão. Ele vai atingir essa limitação de mandatos dentro da direção.
Desculpa, Alexandre.
Perdeste-me? Não percebo como.
Não, não perdi. Só queria perceber uma coisa.
É tão simples.
Eu estou a sentir-me desconfiado. Tu achas que pelo facto de Rui Tavares ter os pelouros da estratégia e da comunicação, vai continuar a aparecer?
Eu sei que são picuinhices minhas, mas só porque tu vais continuar a coordenar o que se passa dentro e fora, ou por outra, no fundo, Rui Tavares vai ficar só com o conteúdo e com a forma. Se calhar não é justo achar que ele vai continuar.
E continuar a ser deputado, claro.
Deixa-me só interromper-te. Temos de dar uma informação de trânsito. Vamos ligar ao nosso repórter móvel, o António Costa. António, arranjaste uma desculpa para não estar aqui porque estás aí no IC19.
Parado.
No bangão.
Parado. E estou em reportagem. Eu não estava a estar em estúdio com os meus amigos para podermos discutir o vencedor deste dia, mas na verdade estou metido numa fila imensa no IC19, no sentido Sintra-Lisboa e aconselho quem está a ouvir a não tentar vir por aqui porque está mesmo muito trânsito. Estou neste momento à frente do Hospital Amadora-Sintra, praticamente parado.
Pronto, olha, António, um forte abraço para ti.
Não, eu e se, no entretanto, houver algum outro ponto de reportagem tomarei a liberdade de ligar para partilhar com todos os ouvintes do “António Observador”.
Alerta António Costa.
Alerta António Costa.
Um abraço para ti, António. Faz boa viagem.
Um abraço e bom trabalho. Vou continuar ouvindo.
E para todos os que estão à tua volta agora no IC19. Nós vamos dar aqui o nosso melhor para que esse momento que estás a atravessar agora seja um momento bem passado. Está bem?
Tentarei. Vou ouvir o “Vencedor É” e tento conter-me para não entrar em direto e também para comentar pela reportagem os vossos próprios comentários.
Se tiveres alguma coisa, liga. Um abraço, António. Até já e boa viagem.
Um abraço. Obrigado.
Bom, antes de sermos interrompidos pelo António Costa Judite, tu também querias falar sobre o Livre.
Sim, porque de facto esta saída, estou a usar aspas com as mãos, saída de Rui Tavares não é de facto uma saída. Rui Tavares vai estar ali à espreita e vai continuar a ter o destaque que tem tido. Não acredito que mesmo internamente haja uma grande diferença, porque continua a ser o número três, quer dizer, passa de dois para três, a diferença é pouca, está na direção e tem pastas fundamentais: a estratégia e a comunicação. Eu recordo que no início do ano, a atual liderança do Livre, Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, foram alvos de críticas internas duras. Houve várias desfiliações. Falavas de Filipe Caetano, mas não foi o único.
Era só o mais mediático.
Houve demissões de dirigentes e a crítica era às dinâmicas de controle. Para um partido que se diz livre, dinâmicas de controle soa bastante mal, para além da sempre crítica que é a centralização do partido em Rui Tavares. E eu não sei se isto é uma roupagem nova num mecanismo que vai manter-se mais ou menos idêntico, ou se há, de facto, alguma vontade De mudar internamente. Até porque nós ouvimos nas últimas jornadas parlamentares frases tão interessantes como, vou citar: “O papel do LIVRE neste momento é tornar-se o partido mais bem preparado para governar o país.”
Isso foi há duas semanas.
Foi há duas semanas. Digamos que a ambição é governar o país. O LIVRE tem a ambição de governar o país e considera que é o partido mais bem preparado para isso. Não sei se Rui Tavares sai ligeiramente do grande foco para preparar essa estratégia, considerando que estão a preparar 2019, porque é o ano de todas as eleições.
2029.
2029, sim, desculpa. São aqueles anos em que se somam as eleições.
2019 já lá vai.
Já lá vai. Isto para dizer que mesmo assim não põem de parte, como ninguém pode pôr, eleições antecipadas. É preciso preparar esse tempo, aliás, para debates e para representação nas legislativas. Rui Tavares continua a ter o seu lugar fixo. Eu acho que há aqui alguma mudança de roupagem, vou lhe chamar assim, mas eu acho que o figurino vai continuar a ser mais ou menos o mesmo.
E tens uma nota?
Para esta pequeníssima alteração, dou um 10.
10. Interessante.
Eu também dou um 10, sobretudo porque é um pouco difícil de explicar como é que o LIVRE ainda não conseguiu crescer mais, dado todo o emagrecimento da esquerda, apesar de ter sido o único partido que cresceu.
Tem crescido um pouco.
Um pouco? Tem seis deputados. E depois olhas para as presidenciais e Jorge Pinto, que é a pessoa que vai ascender ao lugar do Rui Tavares, ficou em nono, teve pouco mais de 30 mil votos.
Atrás do Manuel João Vieira.
Atrás do Manuel João Vieira, que estava só a fazer uma piada. Acho que o LIVRE, de facto, precisa de perceber o que se passa aqui e não sei se este é o movimento adequado, mas oxalá que sim, desejo o maior sucesso.
Vamos falar sobre o Fundo Soberano, Dietra.
Vamos, sim, senhor. Vamos falar sobre o Fundo Soberano. Já falamos aqui no Fundo Soberano quando ele foi anunciado no congresso do PSD e na altura pareceu-me, sinceramente, uma forma de desviar o assunto para uma reforma laboral que tinha dado aquele buraco inesperado a que todos assistimos. E fico cada vez mais convencida disso, porque ontem, na conferência de imprensa, depois do Conselho de Ministros, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, não conseguiu explicar quase nada do que se espera deste Fundo Soberano. Disse que não é intervencionismo econômico, que é o que se tem ouvido do pouco que se sabe. Algumas das críticas apontam para aí, esta questão de intervir em áreas-chave ou empresas consideradas chave lembra-nos outro tempo de intervencionismo econômico que não correu bem. Veio garantir que a ideia não é apoiar empresas que não são rentáveis, a justificação está ligada à soberania econômica e à segurança nacional em três setores: banca, energia e seguros. Leitão Amaro argumentou basicamente que há áreas estratégicas onde já não existem empresas de capital aberto ou disperso em bolsa e que é preciso mecanismos para proteger o alinhamento com o interesse nacional. Há uma frase que eu tirei aqui que é: “Casos em que poderia justificar-se alguma intervenção soberana nacional face à participação soberana estrangeira já existente.” Quando nós ouvimos este tipo de declarações, pensamos imediatamente em que empresas é que se está a falar. Sabemos que é um fundo soberano para ser gerido pelo IGCP nesta área da energia, da banca, das comunicações. E na altura, já foi questionado o Ministério das Finanças, não houve resposta. Leitão Amaro foi questionado diretamente também na conferência de imprensa, não tem detalhes concretos para dar, mas sem ninguém confirmar os nomes, as empresas mais apontadas são sempre as mesmas. É a EDP, a REN, BCP e a Fidelidade.
Há várias que encaixam nesse perfil.
Nesse perfil. É curioso que o presidente da EDP, perguntado se teme o Estado como acionista, respondeu apenas que todos os acionistas são bem-vindos. Mas para mim, a melhor frase é do José Luís Carneiro, que considerou que o Fundo Soberano é um OVNI, Objeto Volátil Não Identificado. Acho que é uma boa designação. Um pouco mais à frente, o Expresso tinha avançado que o PS recusa negociações prévias por causa da questão do orçamento do Estado. A verdade é que nós não sabemos se este Fundo Soberano Pode ter algum tipo de interferência na discussão do próximo orçamento de Estado. Pode acontecer, não fazemos ideia como é que serão as negociações.
Há muita gente no PS que gosta desta ideia.
Há muita gente do PS que não sabe que ideia é ainda, porque é preciso concretizá-la. É evidente que há muita gente dentro do PS que prefere um fundo soberano do que, eventualmente, muita gente de direita. Isso acredito. Mas também acho que não se conhece a proposta do governo e não se sabe exatamente aquilo que pode caber dentro deste fundo soberano. E acho que anunciar foi mesmo para desviar assunto, desviar a atenção. Anunciou-se naquele fim de semana e passada uma semana não há nada a acrescentar, a não ser exatamente as mesmas questões da soberania nacional que já tinha falado Luís Montenegro no congresso.
Alexandre?
Sim, eu partilho da ideia da Judite de que parece ter sido um tema lançado para mostrar a imensa vontade reformista, imensas medidas, porque naquelas oito medidas, se não me engano, que são anunciadas no congresso do PSD, várias delas nós já conhecíamos. E vamos mesmo avançar com o fundo de catástrofe. Por exemplo, esta era uma das ideias não novas. Estou muito curioso por ver a mália que supostamente está pronta e que vai ser apresentada em julho. Estou mesmo. Agora, sobre o fundo, sim, o que mais me preocupou na intervenção ontem de Leitão Amaro foi a insistência na palavra banca. Foi reincidir na palavra banca como um exemplo de setor a intervir, porque acho que é o que nos faz mais tremer a todos de medo no histórico de intervenções estatais na banca e sobre que setor estratégico é esse, quando Portugal tem, até contra algumas vozes ou de forma unânime, um banco público enorme e que felizmente tem apresentado lucros para o Estado nos últimos anos, depois de muitos anos a salvar outros bancos, que é a Caixa Geral de Depósitos. Mas para recordar, Portugal tem participações, o Estado, esta ideia de fundo soberano, o Estado já está em 120 empresas, em 120 entidades, gere participações nelas, umas maioritárias, outras minoritárias. Tem a Parpública, e depois tem uma série de entidades que fazem isto, ainda por cima. Tem a Parpública, tem a Entidade do Tesouro das Finanças, que antigamente se chamava Direção Geral do Tesouro.
Tem o Banco de Fomento.
Tem o Banco de Fomento, tem o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, que também faz capitalização, e tem a própria Caixa Geral de Depósitos, cuja acionista única é o Estado e que pode e deve intervir onde quiser. Só para lembrar, destas 120 entidades, uma delas chama-se Parvalorem e tem em prejuízos mais de 4 mil milhões de euros, que é a entidade que ficou com os ativos complicados do BPN. Ainda está aqui, ainda estamos com isso nas mãos. Que eu imagino que fosse, perante a insistência do primeiro-ministro e do ministro da presidência em banca como setor estratégico, que era uma coisa que pelos vistos poderia voltar a acontecer. Voltamos a ter um banco qualquer numa situação destas e aqui estaria um ativo em que o Estado consideraria estratégico investir, salvar, não deixar fechar, outra coisa do gênero. Esse é um aspecto. E depois, outro é, de facto, com que dinheiro, porque há aquela sensação de que vamos fazer isto com o pelo do cão, porque no exemplo mais conhecido do fundo soberano, que é o da Noruega, eles têm uma pequena coisa chamada petróleo.
Há sempre a hipótese de agora vamos ser surpreendidos e nós também temos petróleo no Vietnã.
Só se for, exato, a tal ideia. Ou o lítio que enfim vai arrancar, que nunca se percebe muito bem quando é que vai arrancar. Porque é isso, é a Noruega, isto em termos muito simplistas, a Noruega o petróleo que vende não gasta esse dinheiro, aplica num fundo soberano que investe em imensos países, já agora, um deles Portugal.
Investe muito na bolsa portuguesa.
Exatamente. Portanto, nós não percebemos muito bem que dinheiro é este. Então agora que as contas públicas, por um conjunto de razões, enfrentam mais dificuldades, que dinheiro é este que vamos usar, mesmo que tivéssemos um saldo.
Sabemos, pelo eco, que virá do orçamento do Estado.
Que virá mesmo diretamente do orçamento do Estado.
Ou seja, ou é impostos ou é dívida.
Exato, ou são impostos ou é dívida.
Não temos outra coisa no orçamento do Estado.
Porque uma coisa que também não faz muito sentido nesta equação é saber que Portugal continua, apesar dos seus bons resultados nos últimos anos, a ter uma dívida pública muito grande. Isto é, que se use um hipotético superávit em fundos, que não estamos a ver de onde é que vem agora, em comprar ações de empresas e não para abater dívida como tem sido feito até aqui nestes últimos anos, também é uma decisão financeira muito duvidosa sobre qual é o rendimento que isto traz ao país.
Queres dar uma nota?
Eu às declarações de António Leitão Amaro, que me deixaram a zeros, dou um zero.
Um zero. E queres dar alguma nota ao fundo, Alexandre?
Ao fundo.
No fundo, queres dar alguma nota?
Eu pronto, ao fundo, que não sei o que é.
Ao fundo do ser.
Vou ficar do fundo do coração, vou ficar na mesma, como estamos naquele neutro, até saber mais, a mesma nota da Rui Tavares, é um 10 também.
Um 10 também. No fundo, o Natal é quando o homem quiser.
Deixa-me só acrescentar aqui muito rapidamente, porque não sei se vocês já repararam, mas o António, como não pode participar, vai escrevendo.
Sim, está a mandar mensagens.
O que é que ele diz?
Sobre o fundo, ele queria muito falar sobre o fundo Ele lembra que o Estado vendeu uma participação no Novo Banco.
Exatamente.
E deixa uma pergunta: se o problema é a soberania, para que serve uma qualquer lei sobre ativos estratégicos?
Sobre ativos estratégicos.
É isto.
E está a escrever mais, que eu vejo aqui reticências a saltar.
Eu nunca tinha feito rádio assim.
Desta forma. Isto é o futuro.
Espera, mas o António dá uma nota, dá um três.
Dá um três. A Rádio Observador faz amanhã sete anos.
É verdade.
Eu nunca tinha feito rádio por WhatsApp, desta forma.
Há sempre uma primeira vez.
É a magia da rádio, a rádio reinventa-se. O Natal é quando o homem quiser e os balanços também. E o Alexandre Borges quer hoje fazer o balanço dos 109 dias de António José Seguro.
Uma coisa que ninguém está a reparar. 14 dias em que ele fez 109 dias.
Tu estiveste nove dias à espera para ver se realmente aqueles primeiros 100 se confirmavam.
Para não falar ao mesmo tempo que falam as outras pessoas sobre os 100. Eu disse: “Não, sobre os 100, não. Eu vou fazer um balanço dos 109.”
Sobre os 109 dias, Alexandre.
Eu tenho dificuldade, de facto, no apuramento destes últimos nove, toda a diferença que fizeram. Sim, a semana passada houve acontecimentos muito tonitruantes, particularmente todo o abalo sísmico provocado pelo debate da reforma laboral e não houve muita ocasião.
Mas não te demores.
Tem que ir um bocadinho de improviso.
Olha as horas.
Sobre o trabalho-
Senão o António chega.
É verdade. Não era isso que estávamos a tentar fazer. Sobre António José Seguro. Os últimos dias acabaram por ser, apesar de tudo, razoavelmente interessantes. Eu acho que tem o corolário no veto às bandeiras, ao tema das bandeiras. Porque o grande desafio com António José Seguro parece-me que permanece o mesmo depois destes dias, que é: ele tem que conseguir ser moderado sem ser banal. E é difícil fazer isso. Num tempo de trincheiras, a procura desse equilíbrio da normalidade pode facilmente confundir-se com o clichê e com a vulgaridade. O Rui Pedro Antunes recordava na semana passada aqui numa crônica a moderação firme do François Mitterrand. E parece-me, de facto, que é isso que António José Seguro está a tentar conseguir, mas é uma quadratura do ciclo. Dito isso, e muito rapidamente, de facto, nos últimos dias, após o discurso do 10 de junho, a partir do 10 de junho e depois daí, parece-me que António José Seguro está a ser uma espécie de apanhador das boas ideias que por aí andam. E a fazê-lo bem, apesar de tudo. Isto é, não creio que exista uma outra forma muito melhor de fazer isso. Se ele for capaz de ser o apanhador das boas ideias, já não o estará a fazer mal. Se o ouviram na conferência, desculpa, que agora não me recordo em que ele estava na semana passada, mas em que ele claramente repescou o discurso de Miguel Montardino. Ele conseguiu fazer uma espécie de fusão entre o seu próprio discurso de 10 de junho e o de Miguel Montardino para pegar em todas as boas ideias que aí andam, as palavras do meio com que ele apareceu nesse dia, a aliança das potências médias de Mark Carney, a ideia de um país que precisa de estar atento aos seus aliados e aos seus inimigos, conservar uma boa relação com os Estados Unidos, mas ser amigo não significa dizer que sim a tudo, isto é muito de Miguel Montardino, e a sugerir também outras hipóteses de alianças ao Estado português, e que tem particularmente, por exemplo, com a relação com os PALOP. Terminando, diria, esteve bem no tema das tempestades, foi talvez o primeiro ponto alto na forma como acompanhou, se investiu dessa causa e apresentou uma novidade do ponto de vista da presidência, que é o relatório. Não tem medo de aproveitar as boas ideias que vêm de trás, como as presidências abertas ou os 10 de junho nas comunidades, e sinaliza, de facto, com o veto às bandeiras, a ideia de que este presidente normal e equilibrado não vai deixar de ser interventivo. Portanto, por enquanto, nestes 109 dias, é um 14.
Um 14 para os 109 dias de António José Seguro a fechar este “E o Vencedor é…”. Amanhã há mais, nas manhãs 360 de fim de semana, e dão notas a Mafalda Pratas e o Henrique Boné.









