Lionel Boyce, o pasteleiro de "The Bear" e o fim da série
▲“Após cada temporada, refletia sobre a minha personagem. Na terceira, o Marcus é muito disciplinado, mais do que eu alguma vez fui. É o início da fase em que ele começa a fazer as coisas nos seus próprios termos. E creio que transportei um pouco disso para mim”
Como é estar em Paris durante estes dias muito quentes? O imprevisto torna-se protagonista. Entrevistas que eram para acontecer com atores são antecipadas, os rostos de toda a gente, apesar de virem com sorrisos, não escondem o desgaste de quando se passa uns minutos lá fora, sem ar condicionado. Nos supermercados sempre que se tira uma bebida do frigorífico, ela vem à temperatura ambiente e não refresca como se imaginaria. Posso corrigir isso? Não. Estar no interior de qualquer sítio com ar condicionado é quase a única coisa que faz esquecer o calor que está lá fora. Isso e um eventual mergulho.
Por isso, primeiro que tudo, deixem-me falar de Uli. É o petit nom de Ulrich, vindo de Munster, na Alemanha. O motorista que me levou do aeroporto para o hotel e, mal o vi, cumprimentou-me com um sorriso que, apesar de habitual nestas situações, era, neste caso, para lá de simpático. Fez esquecer a onda calorífica que senti mal saí do avião. Eram nove da manhã e estavam perto de 30 graus. O Uli disse-me que, quando foi fazer o seu primeiro transfer desse dia, às cinco da manhã, estavam 32. Difícil de acreditar, fácil de aceitar quando horas mais tarde, pelas nove da noite, se dá um passeio por Paris a 37 graus.O sorriso simpático de Uli, a conversa fácil, levaram-me a perguntar se era OK eu ir à frente com ele. A viagem ia ser longa e preferia conversar do que recuperar das três horas mal dormidas dessa noite no banco de trás. Ele diz que sim, claro, e mal me sento aponta para um botão na porta. “Carrega aí, o assento tem ar condicionado, refresca. Lá atrás há isso.” Escolha certa. O Uli começa a falar um pouco de tudo. Natural, bem disposto, apreciando cada momento de partilha. Até que lhe pergunto como vai ser o resto do dia e fala-me das restantes viagens que tem na agenda, quase todas elas relacionada com o evento de The Bear em que irei estar presente.Exceto uma: ao final da tarde iria buscar Isabelle Huppert ao aeroporto. Pela conversa, percebo que não é a primeira vez, por isso pergunto se é hábito e a resposta vem com um “sou o motorista favorito dela”. Diz que se entendem bem, que sabe dizer as coisas certas quando surgem os nervos dos stresses das viagens. Mesmo só estando há vinte minutos com Uli, percebo que não é difícil perceber os motivos. Passado algum tempo manda mais um bom facto para a conversa: noutros tempos, em Paris, viveu a duzentos metros de onde agora vive Huppert. Aquelas coincidências da vida.
[o trailer da quinta e última temporada de “The Bear”:]A viagem e a conversa continua, grande parte à volta de música, trocando ideias sobre o que pôr a tocar no carro. As quase duas horas passaram rápido e fizeram esquecer o choque que seria quando saísse daqueles assentos frescos. Nas espedidas, Uli diz que espera que me leve de volta daqui a uns dias. Eu também. No hotel sou imediatamente recebido por John, que me diz que a minha entrevista foi antecipada. Há problema? Não, até prefiro assim.A quinta temporada de The Bear é a última. E começa com um problema de canos. Os dois primeiros episódios são curtos, intensos, mas a acompanhar a questão técnica da canalização surge uma ideia de percurso, uma antevisão da tragicomédia que a série tem sido: apesar das vitórias pessoais, das conquistas de cada personagem, há uma sensação permanente de falhanço geral. Como se fosse impossível meter aquele negócio a funcionar. Esta temporada será o tira-teimas disso.
Quando a série sai da bolha e dedica um episódio a uma personagem, firma-se a ideia de um caminho a ser percorrido. Isso foi particularmente notório em alguns momentos — sobretudo na segunda temporada, com dois episódios em particular: o quarto, Honeydew, dedicado a Marcus, e o sétimo, Forks, em volta de Richie (Ebon Moss-Bachrach). Aconteceu mais vezes. Na terceira temporada, episódio seis, Napkins, em volta de Tina (Liza Colón-Zayas), e, de uma forma bastante diferente, em Groundhogs, primeiro da quarta temporada, um flashback sobre o passado de Carmy (Jeremy Allen White).Estes são os episódios que afirmam o “percurso interno e externo de The Bear” para Lionel Boyce, com quem falamos horas antes da série ficar disponível no mundo inteiro. “A minha personagem passa por muitas coisas. Internamente, há a morte da mãe do Marcus, que é uma montanha russa na vida dele. E depois há o lado externo, a evolução das sobremesas, veres o que ele faz, como o faz, que é tudo muito orgânico. Pessoalmente, vejo o tempo, a intenção e o trabalho que ele coloca nas sobremesas.” E, pessoalmente, como é que um ator vê este percurso? “Após cada temporada, refletia sobre a minha personagem. Na terceira, o Marcus é muito disciplinado, mais do que eu alguma vez fui. É o início da fase em que ele começa a fazer as coisas nos seus próprios termos. E creio que transportei um pouco disso para mim.”










