CIÊNCIA

São Francisco de Assis: os diferentes rostos de um radical

Depois de Dante — Uma Vida, a Quetzal volta a publicar uma biografia dedicada a vultos italianos da Idade Média escrita pelo historiador e romancista Alessandro Barbero. Este São Francisco (com uma tradução irrepreensível de Marta Pinho) é um livro sobre São Francisco, claro, mas também, e talvez sobretudo, sobre a construção e modelação do santo ao longo dos tempos. Isso torna-se desde logo evidente na introdução, onde se narra a forma como Francisco foi usado como veículo de promoção do fascismo em Itália, através de uma equiparação, que hoje facilmente reconhecemos como tosca e descabida, entre Mussolini e o frade de Assis.
No entanto, o foco de Barbero está bem mais atrás, remontando ao período em que a hagiografia de Francisco de Assis se cristalizou. Como bem se explica na introdução, o primeiro texto biográfico a que temos acesso sobre esta figura maior do Cristianismo foi escrito precisamente pelo próprio, sendo que a esta espécie de autobiografia se seguiriam, pouco depois da morte do frade fundador da ordem franciscana em 1226, as duas biografias escritas por Tomás de Celano, sendo a segunda uma versão reduzida da primeira, mas com muito mais milagres, usados acima de tudo para o robustecimento  e certificação da santidade de Francisco, mas de que o próprio biógrafo parece por vezes desconfiar, ou pelo menos desvalorizar. Sucedem-se depois as biografias escritas por quem havia conhecido e privado com São Francisco, para no fim se produzir enfim a biografia que a Igreja pretendia que fosse a versão definitiva (e única) da história, escrita por Boaventura de Bagnoregio, com o intuito de “pôr ordem nas inúmeras, aliás demasiadas e, o que é pior, contraditórias e por vezes até inquietantes histórias que se tinham acumulado sobre o fundador” da ordem dos frades menores. Não satisfeita, a ordem franciscana decretaria a obrigatoriedade (felizmente desrespeitada) de se destruírem todos os exemplares das biografias anteriores, por forma a se assegurar que a versão derradeira da história seria contada nos termos que mais interessavam à Igreja e, acima de tudo, aos membros da ordem franciscana.Ora, de modo a criar um jogo de espelhos que nos mostre as diferentes versões de Francisco, permitindo-nos intuir, ainda que de forma necessariamente falível, o que haveria ou não de factual na história do biografado, mas também compreender como se pretendeu manipular esta vida por forma a que coubesse nos moldes que para ela se tinha preparado, Barbero irá então resumir e comentar em capítulos diferentes cada uma das biografias do santo de Assis. Sendo esse o maior motivo de interesse da obra e a única forma de se cumprir o objetivo a que o autor se propusera, é também, de um ponto de vista estrutural, o calcanhar de Aquiles da obra, visto que não raras vezes o leitor poderá sentir-se entediado, dada a reiteração das histórias narradas.

Título: São Francisco | Autor: Alessandro Barbero | Tradução: Marta Pinho | Editora: Quetzal | Páginas: 497Ao fim das quase quatrocentas páginas de texto (e mais oitenta de notas bibliográficas), emerge deste livro uma figura notável. É comum hoje falar-se de radicalismo como um conceito necessariamente repugnante, como se fosse indiferente a árvore a cujas raízes nos agarramos. Ora, São Francisco é inegavelmente um radical, mas dificilmente o leitor, não importa a fé que tenha, chegará ao fim da história sem sentir ao menos uma ligeira admiração pelo fundador dos franciscanos. É, por exemplo, possível, e, aliás, racional, rejeitarmos em absoluto a romantização da pobreza presente em premissas como a bem conhecida pobres mas honrados (se a pobreza confere dignidade aos pobres, se não os arrasta para uma vida pior, para quê então combatê-la?), sem com isso deixarmos de sentir espanto diante da radical opção pela pobreza de Francisco. É possível duvidarmos da existência de um Deus Pai Todo-Poderoso sem com isso deixarmos de admirar a devoção profunda de um homem que se predispunha a pedir esmola apenas para permitir aos demais um gesto de caridade que os aproximasse de um bem maiúsculo. E é possível admirarmos a arte e a ciência e mesmo assim curvarmo-nos diante de alguém que vê no desejo de saber uma vontade de afirmação narcísica. É, todavia, impossível não nos maravilharmos com a intransigência de alguém que teima em pregar acima de tudo pelas ações e em corrigir apenas através do exemplo.
A perspectiva cética, que, aliás, Barbero parece em grande medida partilhar, poderá, claro, fazer-nos duvidar da lista de milagres que vai aumentando à medida que nos vamos afastando cronologicamente da morte de Francisco. Podemos até, com certeza, imaginar que, no limite, todas as histórias contadas acerca de Francisco seriam liminarmente falsas ou, pelo menos, engrandecidas sobremaneira pelos seus seguidores. Seja. Ainda assim, para acreditarmos nessa hipótese, precisaríamos de uma teoria robusta que nos permita compreender ao serviço de quem seria feito esse engrandecimento ou embuste. Decerto não da Igreja Católica ou da ordem franciscana. Em vida e depois de morto, é incontroverso que Francisco terá aproximado bastantes fiéis do Catolicismo, o que poderia motivar uma subsequente hiperbolização da sua história. Contudo, quer a Igreja, quer sobretudo os franciscanos das gerações posteriores não se negariam a esforços para amolecer as rugosas arestas da fé e personalidade de Francisco. A interpretação literal do louvor à pobreza que encontramos nos evangelhos ia ao arrepio das constantes metaforizações anestesiantes feitas pelo Vaticano e, por mais devoto e respeitador da estrutura eclesial que o pequeno frade fosse, a sua rejeição absoluta do dinheiro e da propriedade não era exactamente consentânea com o fausto da igreja a que pertencia. Além disso, os franciscanos das gerações posteriores teriam todo o interesse em amenizar um pouco o discurso, de forma a tornarem menos rigorosa a vida devocional.Isso torna-se evidente no capítulo final do livro de Barbero onde, já familiarizados com as visões austeras da biografia de Francisco anteriormente apresentadas, conhecemos por fim a versão pretensamente definitiva da sua vida. Quando o ministro geral da ordem franciscana, Boaventura de Bagnoregio, conta a história de Francisco, metaforiza-se a radicalidade, apaga-se a complexidade do carácter do protagonista, que agora prega mais do que faz, e limam-se as arestas por forma a se criar um santo que nos convida, como o nome do capítulo bem sugere, a uma admiração mais do que a uma imitação. Ainda que os milagres sejam cada vez mais enaltecidos, a vida de Francisco é agora suavizada para que o jugo se torne leve e o fardo suave, não por conta da fé dos devotos, mas pela diminuição da carga que teremos de transportar às costas para entrar na Terra Prometida.Ora, esse passo de Boaventura será mais tarde decisivo, como percebemos na conclusão, para transformar um santo áspero e virulento numa criatura bondosa e mais ou menos anódina que amava os passarinhos e a natureza e nos pregava a humildade em termos tão neutros que tornam barata a nossa admiração.

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