CIÊNCIA

Sem energia competitiva, não há indústria verde

No dia 24 de junho, o Governo determinou a elaboração da Estratégia Industrial Verde, com horizonte até 2040. O objetivo é claro: transformar a transição energética numa alavanca de produtividade, modernizar a base industrial portuguesa e atrair atividades de maior valor acrescentado.
A decisão é acertada. Parte de um diagnóstico que há muito se impõe: a energia pode ser um dos principais ativos estratégicos de Portugal. Mas entre reconhecer uma vantagem e convertê-la em competitividade existe uma distância significativa.Portugal tem sol, vento, água, capacidade empresarial e uma indústria habituada a competir em mercados exigentes. O que ainda não conseguiu garantir é que esse potencial energético chegue às fábricas sob a forma de preços competitivos e previsíveis, acesso rápido à rede e segurança para investir.As empresas não competem com anúncios, metas ou médias nacionais. Competem com a fatura que pagam, com o prazo de ligação à rede, com o tempo de licenciamento e com as condições que outros países oferecem ao mesmo investimento.
Uma eletricidade renovável potencialmente mais barata pode tornar-se cara à porta da fábrica. Basta que faltem redes, armazenamento, capacidade de ligação, contratos de longo prazo ou decisões administrativas em tempo útil. Para uma empresa, uma ligação atrasada não é um detalhe técnico. É capital imobilizado, produção adiada e, muitas vezes, um investimento que muda de país.É aqui que a Estratégia Industrial Verde terá de provar que não será apenas mais um documento bem escrito. A transição não pode continuar a ser uma política energética de um lado e uma política industrial do outro. Tem de articular produção renovável, redes, autoconsumo, armazenamento, fiscalidade, financiamento, qualificações e licenciamento segundo uma lógica única: criar mais valor em Portugal.O despacho dá prioridade à modernização e à descarbonização da indústria existente, incluindo os setores eletrointensivos e de difícil descarbonização. Esta opção é essencial. A indústria verde não se constrói substituindo a economia real por uma economia imaginada em gabinete. Constrói-se ajudando as empresas que já exportam, empregam e investem a produzir melhor, com menos emissões e maior valor acrescentado.Também não pode transformar-se numa nova arquitetura de apoios dispersos. Uma estratégia industrial séria define prioridades, identifica bloqueios, atribui responsabilidades e mede resultados. O Governo prevê uma fase de auscultação até agosto e uma proposta consolidada, acompanhada de um roteiro de execução e investimento, até novembro. O calendário é exigente e deve ser cumprido. Mais importante ainda, tem de produzir decisões concretas que sobrevivam ao próprio documento.
O sucesso desta estratégia não se medirá pelo número de páginas, metas ou conferências. Medir-se-á no custo efetivo da energia para a indústria, no tempo necessário para ligar um projeto à rede, no investimento captado, nas exportações criadas e nos empregos qualificados que ficarem em Portugal.A energia só será uma vantagem competitiva quando deixar de ser apenas uma vantagem natural. Sem energia competitiva, não há indústria verde. Há apenas uma forma mais verde de perder indústria.

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