CIÊNCIA

O Grau académico que morreu e a Universidade que ainda não

Há pouco tempo, escrevia que valia a pena ir às aulas e poucas semanas depois, perguntava se deveríamos regular a inteligência artificial ou reinventar o ensino. Essas duas perguntas não pertencem a capítulos separados, cruzam-se no mesmo ponto de fratura. A primeira interrogava a presença: o que se perde quando a universidade se transforma numa sucessão de ficheiros, vídeos e tarefas submetidas à distância da experiência comum. A segunda interrogava a confiança: o que acontece quando a IA passa a escrever, resumir, programar, argumentar e simular competências que antes permitiam distinguir o esforço próprio da mera reprodução. Entre uma e outra há um fio silencioso, mas decisivo: a universidade deixou de poder justificar-se apenas pelo acesso ao conhecimento, porque o conhecimento está hoje disponível, acelerado, multiplicado e, por vezes, falsamente domesticado por máquinas capazes de responder antes de o estudante ter aprendido a perguntar.
Hoje, a questão impõe-se com maior gravidade. O grau universitário, tal como o conhecemos durante séculos, está a perder parte da sua evidência social. Não por morte súbita, mas por lenta erosão. Três fatores convergem: a diminuição da frequência das aulas, a desconfiança pública sobre o valor económico do diploma e a disrupção tecnológica que transforma competências em mercadorias de validade curta. A pergunta já não é apenas se a universidade deve mudar. A pergunta é se conseguirá mudar a tempo sem perder aquilo que a torna insubstituível.Em maio de 2026, o Higher Education Policy Institute publicou um relatório que confirma o que muitos docentes já sentiam nas salas vazias: no Reino Unido, a proporção de estudantes que frequentam todas as aulas caiu de 63% em 2006 para 48% em 2025, e as horas de ensino perdidas duplicaram no mesmo período. A ausência tornou-se barata, mas o seu custo permanece alto; apenas se tornou menos visível. Diapositivos, gravações, plataformas digitais, chatbots de IA e instituições que continuam, hoje, a investirem em tecnologias a olharem pelo retrovisor reduziram drasticamente o esforço imediato de faltar. A pandemia, por sua vez, normalizou uma relação mais fragmentada com o ensino. O estudante sente, muitas vezes, que não perdeu a aula, apenas a adiou. O problema é que esse “mais tarde” raramente regressa com a mesma intensidade intelectual.Mas a crise da frequência é apenas sintoma de uma crise maior. Em junho de 2026, o British Social Attitudes, do National Centre for Social Research, revelou que 34% dos inquiridos em Inglaterra concordavam que a educação universitária “simplesmente não vale o tempo e o dinheiro que normalmente exige”, valor que era de 14% em 2005. No mesmo inquérito, apenas 36% acreditavam que quem frequenta a universidade acaba por ficar muito melhor financeiramente do que quem não o faz, contra 50% em 2005. Quando questionados sobre se um grau representa uma boa relação custo-benefício, 77% responderam que não. Estes números não são apenas estatística. São o eco de uma sociedade que começa a olhar para a universidade como se olha para um contrato: paga-se muito, promete-se muito, mas já não se sabe se o retorno compensa o sacrifício.
A erosão do chamado graduate premium reforça esta perceção. De acordo com o National Institute of Economic and Social Research, o valor salarial dos diplomados no Reino Unido caiu de cerca de 50% para 36% entre 2007 e 2024, no caso dos adultos em idade ativa. Para os trabalhadores jovens, a queda foi igualmente expressiva: de cerca de 35% para 24%. Ao mesmo tempo, a expansão do número de diplomados não foi acompanhada por um crescimento proporcional de empregos de nível superior. O resultado é uma tensão nova: mais pessoas chegam à universidade, mas nem todas encontram depois funções compatíveis com a promessa implícita do grau.Foi neste contexto que o artigo publicado na Poets&Quants, em 22 de junho de 2026, lançou a provocação: “Your Degree Is Dead. Long Live The Lifelong Degree”. O título não anuncia o fim da educação superior. Anuncia, isso sim, a morte do grau único, obtido uma vez e usado como salvo-conduto durante toda a vida. A tese é simples e profunda: o modelo tradicional assentava na ideia de que se aprende primeiro e se adapta depois pela experiência profissional. Essa sequência está a desfazer-se. Entrámos numa era de aprendizagem contínua, feita de experimentação, atualização, iteração e revisão. A IA não criou este movimento, mas acelerou-o de forma brutal.A vantagem competitiva já não reside apenas na especialização adquirida numa fase inicial da vida. Reside na agilidade de aprendizagem através da capacidade de rever pressupostos, trabalhar com máquinas sem ficar dependente delas, decidir quando as respostas são incertas, colaborar em ambientes instáveis e navegar a ambiguidade sem se refugiar em soluções automáticas. Esta mudança é particularmente desafiante para as universidades, porque muitas continuam organizadas em torno de trajetórias profissionais relativamente estáveis, precisamente quando a estabilidade deixou de ser uma promessa plausível.O relatório Alumni Matters, da CarringtonCrisp em parceria com a EFMD, mostra uma contradição reveladora: num inquérito a 2130 antigos alunos, distribuídos por 87 países, 46% desejam mais oportunidades de aprendizagem, mas apenas 30% planeiam regressar à sua escola para formação adicional. Isto significa que os profissionais sabem que precisam de continuar a aprender, mas nem sempre reconhecem a universidade como o lugar natural para esse regresso. A alma mater tornou-se, demasiadas vezes, uma memória cerimonial, não uma parceira permanente de desenvolvimento.
Daqui emerge um risco subtil conhecido como diploma washing. A aprendizagem ao longo da vida pode degenerar numa acumulação de certificados curtos, distintivos digitais e credenciais de marca, mais úteis para sinalizar atualização do que para produzir verdadeira transformação intelectual. A universidade deve entrar na formação contínua, mas não pode converter-se numa feira de selos. Um certificado de prestígio pode abrir portas, mas não deve substituir pensamento. A formação curta pode ser necessária, mas não deve vender atalhos como se fossem caminhos.A convergência entre ausência, desconfiança e disrupção tecnológica cria uma tempestade perfeita. Porém, as tempestades não servem apenas para destruir, também limpam o terreno onde novas construções se tornam inevitáveis. A IA obriga-nos a regressar ao essencial. Se uma avaliação pode ser resolvida por uma máquina sem que o estudante pense, talvez essa avaliação já estivesse demasiado próxima da reprodução mecânica. Se uma pergunta pode ser respondida por um modelo sem contexto, talvez fosse uma pergunta pobre. Se um trabalho final é aceite sem etapas, sem discussão oral, sem defesa e sem reflexão sobre o processo, talvez a universidade já tivesse confundido produto com aprendizagem.Há, portanto, riscos evidentes. Se a universidade se tornar uma fábrica de credenciais frágeis, produzirá diplomas, mas não comunidades de pensamento. Uma sociedade que desaprende a estar junta para compreender problemas difíceis torna-se mais vulnerável à simplificação, ao ruído, à polarização e à dependência de tutores digitais que oferecem facilidade sem formar critério. Quando os estudantes aprendem a ausentar-se sempre que o estímulo não é imediato, podem levar consigo o hábito perigoso da incapacidade de permanecer intelectualmente disponíveis perante tarefas longas, ambíguas ou pouco sedutoras.Mas há também uma oportunidade decisiva. A IA pode forçar a universidade a abandonar o acessório e a recuperar a sua missão mais nobre: formar pessoas capazes de pensar, decidir, criar, verificar, discordar e responder perante os outros. As capacidades muitas vezes designadas, de forma pobre, como soft skills (pensamento crítico, comunicação, colaboração, empatia, julgamento ético, responsabilidade) tornam-se precisamente as mais difíceis de automatizar. Não são ornamentos do currículo. São o seu núcleo humano.
A universidade depois da IA deve ser mais exigente, não menos; mais humana, não menos tecnológica; mais clara nas regras, mas mais corajosa no currículo, desde que tenha abertura por parte de que quem a tutela politicamente. Para isso, precisa de agir em três planos: curricular, pedagógico e institucional.No plano curricular, é necessário distinguir entre conteúdos que envelhecem e fundamentos que amadurecem. Algumas ferramentas serão substituídas rapidamente. Certas linguagens, plataformas e técnicas perderão relevância. Mas a capacidade de formular problemas, decompor sistemas, interpretar dados, avaliar riscos, escrever com clareza, compreender limites e decidir sob incerteza tornar-se-á ainda mais valiosa. A universidade deve ensinar os estudantes a trabalhar com IA, mas também a resistir à sua sedução. Usar IA não pode significar abdicar do juízo. A máquina pode sugerir; o estudante deve compreender. A máquina pode acelerar; o estudante deve verificar. A máquina pode produzir; o estudante deve responder pelo que entrega.No plano pedagógico, a avaliação tem de abandonar a ingenuidade. Trabalhos genéricos, perguntas previsíveis e relatórios sem defesa tornaram-se frágeis. A resposta, contudo, não deve ser uma universidade policial, dominada por suspeita, vigilância e detetores falíveis. A resposta deve ser avaliação mais autêntica: etapas intermédias, discussão oral, resolução em aula, portefólios de processo, análise crítica de respostas geradas por IA, projetos ligados a contextos concretos, reflexão individual e demonstração pública de compreensão. Avaliar apenas o produto final é como julgar uma travessia olhando apenas para a fotografia tirada à chegada.No plano institucional, a universidade deve deixar de tratar os antigos estudantes como antigos. Num mundo de aprendizagem contínua, os diplomados não são visitantes ocasionais da memória académica; são estudantes intermitentes ao longo da vida. A universidade deve criar uma relação que não termina na cerimónia de graduação. O diploma deve abrir uma porta, não fechar um ciclo. Isso implica percursos de atualização para diplomados, módulos curtos com qualidade académica, formação avançada flexível, comunidades profissionais, mentoria, redes de investigação aplicada e espaços regulares de reencontro com novos conhecimentos.
A sociedade ganhará muito se o ensino superior fizer bem esta transição. Ganhará profissionais mais adaptáveis, cidadãos menos vulneráveis à manipulação, organizações mais capazes de incorporar tecnologia com responsabilidade e regiões mais preparadas para reter talento. Ganhará, sobretudo, uma ideia mais adulta de empregabilidade. Empregabilidade não é apenas conseguir o primeiro emprego. É conservar a capacidade de aprender quando o emprego muda, quando a profissão se desloca, quando a ferramenta se torna obsoleta e quando a resposta automática parece suficiente, mas não é.Também aqui há perigos. Se a universidade responder mal, poderá aprofundar desigualdades. Os estudantes com mais recursos terão melhores ferramentas, melhores redes, melhores estágios e melhor formação complementar. Os restantes poderão receber versões empobrecidas da inovação: plataformas automáticas, cursos rápidos, pouca presença e pouca orientação. A IA pode democratizar apoio ao estudo, mas também pode criar dependência cognitiva. Pode ajudar estudantes com dificuldades, mas também pode esconder lacunas. Pode libertar tempo para pensar melhor, ou transformar a aprendizagem num sistema de encomendas rápidas.Há ainda um risco cívico. Quando a universidade se reduz a credenciais, a sociedade perde um dos poucos lugares onde se aprende a discordar com método, a escutar argumentos longos e a conviver com a complexidade. A aula é uma pequena república de atenção. O grau universitário, quando é sério, é uma república mais longa: ensina a habitar uma disciplina, a aceitar critérios, a corrigir erros, a responder perante outros, a suportar a demora. A IA pode dar respostas; a universidade deve formar pessoas capazes de perguntar melhor.O grau universitário deve, por isso, evoluir para um grau vivo. Um grau vivo combina profundidade inicial com atualização permanente. Tem uma componente fundacional forte, experiências práticas supervisionadas, investigação aplicada, relação com empregadores, mobilidade entre áreas, retorno periódico à universidade e registo verificável de competências demonstradas. Não é um diploma eterno no sentido antigo. É uma aliança duradoura entre uma pessoa e uma instituição que se responsabiliza por continuar a formar.Esta mudança exige políticas públicas adequadas. O financiamento do ensino superior deve reconhecer a aprendizagem ao longo da vida como missão central, não como atividade lateral. Devem existir incentivos para que as instituições acompanhem diplomados ao longo da carreira, desenvolvam formação curta de elevada qualidade, colaborem com empresas sem se submeterem a elas e criem mecanismos sérios de reconhecimento de aprendizagens. Será igualmente necessário proteger o acesso. Se a atualização permanente ficar entregue apenas ao bolso de cada um, a promessa democrática da universidade será enfraquecida.As empresas, por sua vez, devem deixar de olhar para a universidade apenas como fornecedora de recém-formados. Devem colaborar na definição de problemas reais, acolher projetos, apoiar estágios, participar em formação contínua e respeitar o tempo de estudo. A formação não é uma interrupção da produtividade; é uma das suas condições futuras. Uma sociedade que não protege tempo para aprender condena-se a reagir sempre tarde.
E os estudantes também devem mudar a pergunta. Já não basta perguntar: “Que emprego consigo com este curso?” A pergunta deve ser mais exigente: “Que capacidade de aprender, decidir, criar e responder perante o mundo este curso me dá?” O primeiro emprego importa, naturalmente. Mas a universidade que só prepara para o primeiro emprego prepara mal para a vida inteira. Num tempo em que a IA executa tarefas, a formação superior deve desenvolver critério. O critério é a competência que resta quando a resposta automática já foi produzida.Por isso, o grau universitário não morreu. Morreu, talvez, a ilusão de que um grau, sozinho, fechado sobre si mesmo, obtido numa juventude apressada, bastaria para atravessar uma vida profissional inteira. A universidade depois da IA terá de ser mais clara, mais exigente, mais aberta e mais humana. Deve regular sem sufocar, inovar sem se vender à moda, digitalizar sem esvaziar a presença, flexibilizar sem perder profundidade.Talvez seja essa a verdadeira resposta à provocação da Poets&Quants: o grau morto é o grau imóvel. O grau vivo é aquele que continua a aprender connosco. E, nessa diferença, está o futuro da universidade.

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