CIÊNCIA

Livre admite ter Tavares como candidato a primeiro-ministro

O Livre não exclui que Rui Tavares seja o candidato a primeiro-ministro do partido nas próximas eleições legislativas, apesar do historiador estar prestes a deixar o cargo de co-porta-voz no congresso que se realiza em meados de julho. As próximas eleições legislativas vão realizar-se o mais tardar em 2029 e Rui Tavares só poderá voltar a candidatar-se à liderança do partido no congresso de 2030. Ainda assim, a lista A — maioritária no partido e da qual fazem parte todos os seus seis deputados — admite que Tavares seja o representante máximo do Livre nas próximas legislativas, numa reedição do que aconteceu nas eleições de 2022.
Fontes da ala maioritária do Livre, ouvidas pelo Observador, separam de forma clara a liderança da candidatura a primeiro-ministro. “É possível ser o Rui Tavares”, diz um destacado membro. Também Tomás Cardoso Pereira, o número cinco da lista A ao Grupo de Contacto (direção), não exclui que se repita esse cenário, mesmo considerando que o exercício não passa de “especulação”. Ao Observador, explica que a decisão sobre o próximo candidato a primeiro-ministro será sempre das bases. “Isso vale para o Rui Tavares como vale para qualquer outro membro do Livre. Nós escolhemos os nossos candidatos e representantes em eleições primárias. Tudo isso é decidido mais perto dos processos eleitorais. Ainda estamos muito longe de legislativas, se não forem antecipadas. Estar aqui a especular quem é que vai ser não passa de especulação.”Apesar do partido organizar primárias para definir os candidatos a deputados, a escolha do candidato a primeiro-ministro, que representa o partido nos debates e é o dirigente máximo da candidatura às legislativas, não é diretamente feita pelos militantes. As primárias do Livre nas legislativas servem exclusivamente para definir os candidatos, e a posição dos mesmos, a cada círculo eleitoral. Desde a fundação do partido, a escolha do candidato a primeiro-ministro tem recaído sempre sobre o cabeça de lista em Lisboa, mas Tomás Cardoso Pereira esclarece ao Observador que esta decisão é tomada pelo Grupo de Contacto e pela Assembleia do Livre (direção alargada) antes da campanha eleitoral.Por exemplo, nas legislativas de 2022, Rui Tavares foi o candidato a primeiro-ministro do Livre sem que fosse membro da direção nem porta-voz do partido. Antes dessas eleições, o partido não tinha representação parlamentar e o historiador foi o escolhido após ganhar as primárias para o círculo eleitoral de Lisboa. Meses depois de garantir o regresso do Livre à Assembleia da República, Rui Tavares seria eleito em congresso um dos porta-vozes do partido.
Desde a fundação do partido em 2014, o historiador é a principal figura mediática do partido, tendo sempre sido próximo da direção do Livre. No entanto, caso Rui Tavares seja o candidato a primeiro-ministro do Livre nas próximas legislativas, o contexto seria muito diferente ao de 2022. Antes dessa data, nunca tinha sido o porta-voz. Agora, acaba de terminar um ciclo de quatro anos na liderança máxima do Livre. Questionado sobre se este contexto recente poderia levar o Livre a riscar definitivamente Rui Tavares da lista de potenciais candidatos a primeiro-ministro, Tomás Cardoso Pereira rejeita a hipótese, não querendo condicionar a futura escolha das bases.“Não há outra coisa que se possa fazer que não seja deixar em aberto, porque ainda temos um congresso com a eleição de uma nova direcção do partido e respetivos porta-vozes. Depois, temos as primárias a realizar antes dos próximos atos eleitorais, que estão marcados e são daqui a alguns anos. Tudo o que não seja deixar em aberto é um exercício de especulação. Para além de especulação, é especulação errada, porque, a não ser que algo mudasse drasticamente o funcionamento do Livre, essa decisão final cabe sempre houve mesmo do Partido”, assegura o chefe de gabinete do grupo parlamentar do partido.Apesar de estar prestes a abandonar o cargo de porta-voz, Rui Tavares vai manter-se como membro do Grupo de Contacto do Livre, sendo o terceiro candidato da lista A ao órgão que dirige o partido. No entanto, após o anúncio desta decisão, o historiador deu uma entrevista que levantou dúvidas sobre em que medida se vai afastar do centro de decisão do Livre. Isto por ter dito ao Jornal de Notícias e à TSF que, em conjunto com Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto, iria constituir “um tridente de ataque para derrotar a extrema-direita”.
Tomás Cardoso Pereira esclarece que Rui Tavares “não passará a ser um terceiro porta-voz” e volta a apostar na metáfora futebolística para explicar a dinâmica entre os três: “Basicamente, isto é o tal trio de ataque, mas que tem dois ponta-de-lança muito bem identificados e depois tem um médio distribuidor de jogo.”Não obstante o Grupo de Contacto do Livre ter 15 membros efetivos, tanto Rui Tavares como Tomás Cardoso Pereira, sublinham a importância que os três primeiros candidatos da lista A terão no futuro do partido. “Tanto o Rui Tavares, como a Isabel Mendes Lopes, como o Jorge Pinto, são três pessoas que achamos que são muito importantes no combate que há a fazerna construção de uma alternativa progressista e ecologista de que o País precisa. São provavelmente as três figuras mais conhecidas do Livre e, por isso, têm este destaque.”Ainda assim, o candidato da lista A confirma que Rui Tavares terá inevitavelmente uma menor presença mediática enquanto representante do partido. “Quem fala pelo Livre são os seus porta-vozes. O Rui Tavares continua a ser deputado, tem pastas que estão mais ao cuidado dele no âmbito do trabalho parlamentar, continuará a falar delas, à imagem do que fazem os outros deputados com os seus dossiês. Mas, em termos daquilo que é o ciclo mediático, coisas que acontecem no quotidiano da política portuguesa, quem fala são os porta-vozes”, termina o representante da lista A.A tomada de posse de Jorge Pinto e Isabel Mendes Lopes como novos co-porta-vozes está ainda dependente dos resultados do congresso eletivo do Livre, a realizar entre 10 a 12 de junho. No último congresso, a lista que encabeçavam venceu confortavelmente as restantes, elegendo dois terços dos membros do Grupo de Contacto com 61% dos votos. Porém, as duas listas que se candaditam agora à direção do partido acreditam num desfecho diferente e criticam a lista A por anunciar novos porta-vozes, antes de saber se vai manter o controlo do Grupo de Contacto.
Tiago Mota, primeiro candidato da lista V à direção, sublinha a “imensa importância da rotatividade” na liderança para o Livre. Contudo, acredita que esta renovação não vai acontecerá por decisão da linha maioritária do partido — até porque “nada está decidido” antes da contagem dos votos no congresso a realizar no Hockey Club de Sintra, lembra em declarações ao Observador. “A lista A vai ter uma surpresa significativa com o decréscimo de mandatos. O grande potencial do Livre está em ter três listas em minoria, obrigadas a procurar soluções de consenso”, avisa Tiago Mota.O cabeça de lista da lista V acusa a tendência maioritária do partido de ter adotado uma “extratégia de centralização do poder”, que esvaziou o Grupo de Contacto e está a alienar as bases. “O Grupo de Contacto quase não está sequer em funcionamento, não há quase reuniões. A política do partido está concentrada no gabinete parlamentar. Há uma direção informal que é o gabinete parlamentar“, atira Tiago Mota. Por sentir que os “elementos de base não estão a ser escutados de forma nenhuma”, o representante da lista V prevê uma penalização da lista A nas próximas eleições para o Grupo de Contacto.A verificar-se esse cenário, os resultados teriam um impacto decisivo na organização da direção do Livre. Se a lista de Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto não conseguir revalidar a maioria absoluta na direção, o modelo de liderança do partido terá de ser negociado entre os membros eleitos das várias listas. O cabeça de lista da lista S, Rodrigo Brito, afirma que as duas listas da oposição não se revêem na atual distribuição de poder dentro do Grupo de Contacto.“A sermos coerentes com a posição que temos tomado até aqui, nenhuma das outras duas listas vai querer ter porta-vozes fixos. Não vamos criar porta-vozes únicos, vamos criar porta-vozes setoriais”, afirma Rodrigo Brito. As duas listas da oposição alertam que o modelo de liderança bicéfala não está previsto nos estatutos do Livre. “Os nossos estatutos dizem que nós não temos um co-porta-voz, nem sequer um porta-voz. O que os nossos estatutos dizem é que as 15 pessoas [o número de eleitos para o Grupo de Contacto] devem, rotativamente, dependendo do tema em discussão, representar o partido”, defende Tiago Mota.
Rodrigo Brito também se junta às críticas à lista A, que ambos censuram por já ter atribuído pelouros e cargos (como a novidade do “secretário-geral”) aos seus candidatos antes de ser conhecida a nova composição da direção. “Por que raio deveria o Rui Tavares ficar com os pelouros de formação e estratégia, quando se calhar temos outras pessoas nas outras listas que vão ser eleitas e talvez também são muito boas em formação e estratégia? Parece-nos muito extemporâneo“, questiona o candidato da lista V.Não concordando com o modelo de liderança bicéfala, os membros das listas da oposição ouvidos pelo Observador desvalorizam o anúncio da não continuidade de Rui Tavares no cargo de co-porta-voz. “Eu não posso falar pelo Rui Tavares nem sobre o que ele pretende fazer da sua posição no partido no futuro. O que sei é que, neste momento, ele está a mostrar de forma muito clara que pretende manter-se ativamente nesta grande na maioria dirigente no partido”, afirma Rodrigo Brito.Já Tiago Mota acredita que o historiador não vai abdicar de ser o principal representante do Livre junto da opinião pública. “O Rui Tavares vai continuar a ser claramente o porta-voz informal do partido, tal como sempre foi. Mesmo que seja informal, na prática, é isso que acontece”, declara o candidato da lista V.De qualquer modo, Rodrigo Brito defende que Mendes Lopes e Jorge Pinto representam a “continuidade” da política do partido sob a liderança de Rui Tavares, visto que os três estão juntos à frente do Livre “de uma forma ou de outra, desde a sua fundação”. Na verdade, o candidato da lista S considera Jorge Pinto um “bom deputado”, mas questiona a sua capacidade de trazer novidade ao partido por pertencer à “maioria dirigente” do Livre.
Rodrigo Brito põe em causa as “decisões estratégicas eleitorais problemáticas” tomadas nos últimos anos, nomeadamente relativamente à candidatura de Jorge Pinto à Presidência da República. “O problema das presidenciais foi ser uma candidatura às eleições erradas. Houve sérias dúvidas no partido se devíamos apoiar alguém do partido e parece-se evidente que o nosso eleitorado não rejeitou o candidato, rejeitou foi a pertinência da candidatura”, conclui.Por outro lado, Tiago Mota viu no resultado de Jorge Pinto um indício de que este poderá não ser bem acolhido pelo eleitorado. “Estranhamos [a escolha], porque nos pareceu nas eleições que a popularidade do Jorge Pinto não é assim tão espetacular. No entanto, é óbvio que nós achamos que a lista A deve escolher as posições que entende para os seus membros. São livres e devem, na sua total liberdade, escolher quem encabeça a lista.”

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