Trump à espera do Irão para saber se há mais negociações
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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja de novo muito bem-vindo à antena da Rádio Observador. Vamos começar por falar do Médio Oriente. Steve Witkoff e Jared Kushner vão viajar amanhã para Doha, é o que diz um porta-voz da Casa Branca. Ainda assim, esta viagem acontece numa altura em que o Irão diz que não estão previstas negociações entre o Irão e os Estados Unidos. A minha pergunta, Bruno Cardoso Reis, é se Steve Witkoff e Jared Kushner vão perder tempo nesta viagem até Doha.
Boa tarde a todos. O problema aqui, José, é que realmente é muito difícil saber em quem confiar, porque historicamente o Irão é um regime muito dado à propaganda e cuja relação com a verdade também é bastante complicada. Por outro lado, sobretudo com Donald Trump, também temos uma administração nos Estados Unidos e um presidente que realmente, por regra, não se preocupa muito com a questão do rigor. Portanto, sistematicamente temos declarações completamente hiperbólicas e muitas vezes declarações que manifestamente não têm nada a ver com a realidade. Isso torna sempre muito difícil perceber exatamente o que está a acontecer. Eu diria, apesar de tudo, o padrão que se tem verificado aqui é que, por regra, Donald Trump anuncia rapidamente que há avanços, que há negociações que eles vão verificar, mesmo que nem sempre se confirmem. E também por regra, o Irão desmente ou não confirma até praticamente ao momento em que as coisas estão a acontecer. Portanto, pode ser que seja isso, ou seja, que Donald Trump esteja aqui a antecipar-se e que o Irão esteja a manter-se de reserva pra ver se realmente há condições ou não pra se concretizar esse encontro, que alguma coisa estará apalavrada, mas tudo isto também mostra realmente a enorme fragilidade deste cessar-fogo, sobretudo um cessar-fogo que tinha como objetivo libertar a navegação no Estreito de Ormuz. Nós agora temos novamente declarações de Donald Trump a dizer: “Não há nenhum problema na navegação no Estreito, está tudo normal outra vez”. A verdade é que a perceção de risco alterou-se novamente, completamente com estes ataques iranianos e chegamos a ter 70 navios a passar pelo Estreito de Ormuz, que era mais ou menos metade do que era o normal antes deste conflito começar. Agora as últimas notícias são que haverá talvez meia dúzia de navios a tentar transitar pelo Estreito de Ormuz. É evidente que a situação se tornou mais frágil e isso tem um impacto imediato direto nesta questão crucial que é a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, com as implicações que nós temos visto em termos de preço dos combustíveis.
Bruno, entretanto o presidente de Israel deixa mensagens a quem na Europa pede boicotes e sanções, diz que as ameaças não contribuem para a paz. Está o governo israelita a sentir-se pressionado com tudo o que tem vindo a acontecer no Médio Oriente?
Eu acho que se devia sentir pressionado não só pelo que está acontecendo no Médio Oriente, mas sobretudo pelo que está acontecendo no Ocidente, nos aliados tradicionais de Israel, sobretudo nos Estados Unidos e em alguns países europeus que tradicionalmente se mantiveram muito alinhados com Israel, mesmo quando eram críticos do governo Netanyahu, países como a Alemanha ou a Grã-Bretanha, porque realmente o que vemos é uma mudança nos últimos anos, depois do início deste conflito. Essa tendência já se vinha verificando, mas de forma mais lenta e depois acelera-se muito depois do início do conflito e toda aquela destruição em Gaza. O resultado disso é que, por exemplo, pela primeira vez em muitas e muitas décadas, basicamente desde que nós temos sondagens, uma maioria dos norte-americanos, uma clara maioria dos norte-americanos tem mais simpatia pela causa palestiniana do que por Israel. Essa tendência já se verificava mais na Europa, mas está a acentuar-se. Também há muito esta ideia: a Europa é completamente irrelevante. Eu próprio muitas vezes sublinho que a Europa tem aqui um papel limitado, nomeadamente porque isto no Médio Oriente é sobretudo uma questão de conflitos armados. Aí quem conta é sobretudo quem tem as armas e a Europa não é comparável nem aos atores regionais, como Israel, por exemplo, nem a atores como os Estados Unidos, mas não está, apesar de tudo, completamente desarmada, sobretudo alguns países europeus, países como a França ou a Itália, por exemplo, ou a Grã-Bretanha, e portanto podem ter algum peso. Mas sobretudo, onde conta alguma coisa, e isso torna-se relevante não tanto no momento mais agudo do conflito, mas depois a prazo, é na dimensão econômica. E aí realmente Netanyahu deveria ter algumas razões pra preocupação, porque a Europa é de longe o principal mercado de Israel, o principal parceiro econômico de Israel. Se avançar esta tendência, se estas pressões, discussões que têm estado em curso de suspender pelo menos parte do acordo de associação comercial, que permite acesso em condições relativamente favoráveis de Israel ao mercado europeu, se isso for posto em questão, realmente pode ter um impacto econômico negativo em Israel e obviamente Israel continua a ser uma democracia e Netanyahu precisa ganhar eleições e vai haver eleições nos próximos meses. Portanto, suponho que tenha a ver com estas dinâmicas.
Bruno, vamos continuar a falar da situação no Médio Oriente, até porque o Hezbollah diz que tem o direito de defender a pátria. Ora, o Hezbollah é um movimento extremista. Pode falar pelo Líbano, que é a verdadeira nação, a verdadeira pátria?
Toda a questão do Líbano realmente mostra como as coisas no Médio Oriente são complexas e não podem ser reduzidas apenas a um vilão ou a uma narrativa muito simplista. A questão palestiniana é realmente muito importante e a situação dos palestinianos é dramática, em Gaza e também cada vez mais na Cisjordânia. Tivemos, aliás, um apelo muito importante de elementos da elite israelita, antigos dirigentes até dos serviços de informações, de membros de anteriores governos, etc., a denunciarem o que eles chamam uma política sistemática de aterrorizar a população palestiniana na Cisjordânia, que é inaceitável, com completa impunidade. Mas há outras questões, há outros conflitos que se entrecruzam, complexificam a coisa e outra grande vítima de toda esta situação no Médio Oriente, nas últimas décadas, tem sido o Líbano, que é uma sociedade multiétnica e multirreligiosa. É uma das poucas regiões do Médio Oriente onde ainda há uma comunidade cristã importante, sendo que os cristãos foram, durante a maior parte da história, uma comunidade tão ou mais importante que os muçulmanos em muitas regiões do Médio Oriente e mais antiga. Portanto, há realmente aqui um processo de limpeza étnica mais ou menos lento e que se tem acelerado nas últimas décadas dos cristãos orientais. E isso é particularmente dramático no caso do Líbano, que tem sido uma vítima de uma sistemática política de dividir para reinar de uma série de vizinhos hostis, Israel, mas também a Síria, mas também o Irão, e o Hezbollah tem sido aqui o grande instrumento realmente de projeção de poder do Irão. E, portanto, a questão não é bem se eu acho que isso é assim ou não. A questão é que muitos libaneses, cada vez mais libaneses, publicamente dizem que realmente isso não é aceitável, que o Hezbollah é um instrumento do Irão, que é contrário ao interesse nacional do Líbano, que está constantemente a mergulhar o Líbano novamente em conflitos que não são do interesse do Líbano, que impedem que o país consiga reconstruir e recuperar economicamente. E, portanto, realmente a resposta de cada vez mais libaneses, inclusive muitos libaneses muçulmanos e até setores xiitas, o que era algo muito raro até há pouco tempo, realmente são cada vez mais críticos dessa ideia de que o Hezbollah pode ser um Estado dentro do Estado, pode ser um exército privado dentro do país e que pode, no fundo, arrastar constantemente o país para conflitos armados, sem que haja uma decisão nesse sentido, sem que o resto dos libaneses sejam ouvidos, sejam escutados.
Bruno Cardoso Reis, temos ainda quatro minutos para falar da situação entre a Ucrânia e a Rússia, na guerra na Ucrânia. Vladimir Putin reconhece que existem falhas de combustível e filas para abastecer na Rússia. Não deixa de ser um assumir de problemas raro por parte da Federação Russa e pergunto-lhe, Bruno Cardoso Reis, se este é o sinal de que a estratégia da Ucrânia de atacar infraestruturas está a funcionar da melhor forma.
É um sinal, claro. Têm-se acentuado muito esses sinais nas últimas semanas de que esta última iniciativa da Ucrânia, que lhe permitiu recuperar alguma iniciativa estratégica, está a ter um real impacto, um impacto estratégico e não apenas tático. Ou seja, está a atingir a dimensão do político e do econômico do inimigo e realmente está a causar também grandes preocupações nas elites russas, inclusive no próprio presidente russo, que já se referiu a esta questão mais do que uma vez. Está a obrigar a medidas excepcionais, por exemplo, de restrição, de racionamento do uso de combustíveis. Temos também rumores de apagões, de dificuldades mesmo de abastecimento de energia, por exemplo, em zonas como a da Crimeia. E, portanto, tudo isso realmente é muito embaraçoso para o poder russo, que apostou sempre nesta ideia de que esta era uma guerra distante, nem sequer era realmente uma guerra. Supostamente, a legislação russa, aliás, impede e pode condenar alguém até a 15 anos de cadeia por criticar esta operação militar especial e designá-la como guerra. Portanto, tudo isto era no sentido, obviamente, de minimizar o impacto, o esforço que estava a ser feito e realmente cada vez é mais difícil fazer isso, quer pelo número de baixas. Estamos a falar de dezenas de milhares de baixas todos os meses, ou seja, mortos e feridos graves do lado russo, e que também se tem acentuado. E de facto, esta aposta da Ucrânia nos drones, que é algo que se verifica desde o início da guerra, mas que se tem intensificado na quantidade, na qualidade, na variedade, também no alcance, na carga explosiva que conseguem transportar, tudo isso se tem revelado bastante eficaz em vários aspectos. Agora, infelizmente, há sempre a sublinhar isto, que é a Ucrânia está sempre aqui a lutar com esta questão de fundo, que é a enorme assimetria de poder, de meios, de população, da dimensão de recursos entre a Rússia, que é favorável à Rússia. E, portanto, a Ucrânia está sempre, no fundo, a tentar nivelar esse desnível, atenuar esse desnível, e portanto, isso significa que mesmo quando está a ter bastante sucesso, isso infelizmente não quer dizer que seja garantido que haja aqui uma rutura na capacidade ou na vontade de resistência militar russa. Isso não aconteceu, para já, em relação a nenhum dos lados. Mesmo em alturas mais complicadas para a Ucrânia, também não houve esse colapso completo da resistência ucraniana e também não se verificou até agora do lado russo, e não podemos garantir que vá acontecer.
Chegamos ao final do nosso tempo. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. O programa, o Gabinete de Guerra, fica como sempre também disponível em podcast.









