CIÊNCIA

Um homem não chora?


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa “Porque Sim Não é Resposta” com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos falar sobre choros. Será que um homem não chora? Isto é verdade? Foi alguma vez verdade? Continua a ser verdade? Boa tarde, Eduardo. Afinal de contas, os homens choram ou não choram? Ou até choram mais do que as mulheres?
Bom dia, boa tarde, Bruno. Eu acho que há uma educação um bocadinho sexista em alguns aspectos, e não só uma educação, acho que há alguns pontos de vista que perduram da mesma forma como há muito tempo vem acontecendo. Criou-se esta ideia de que um homem, para ser homem, não chora, de preferência não fala e não se excita, Bruno. Portanto, é como se, no fundo, fosse tanto mais homem quanto mais blocos de gelo se tornasse. E eu acho que isto foi condicionando os homens. Sinceramente, eu acho que a educação do gênero masculino é uma questão de saúde pública, para dizer a verdade, porque não é por acaso. Os homens são feitos da mesma massa, têm particularidades diferentes, é verdade que sim, mas depois é muita educação que acabam por ter, que faz com que reajam desta ou daquela forma. E aquilo que nós observamos é que os homens têm muita dificuldade em expressar os sentimentos. Quando uma namorada diz: “Eu amo-te”, o melhor que um homem consegue muitas vezes dizer é: “Eu também”. E raramente tomam a iniciativa pra falar do que sentem, do que pensam, do que imaginam, e de uma forma aberta, humilde, franca. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, eu acho que se continua a criar a ideia, uma ideia muito silenciosa, mas que no fundo vai marcando gerações, de que um homem não chora. E os homens têm lágrimas com cloreto de sódio, também querem ser felizes, também se sensibilizam, também se comovem. E é a altura de deixarem de engolir aquilo que sentem para fazerem de conta que são quem não são, porque um homem que manifesta os seus sentimentos é mais homem por isso.
Mas está associado a uma ideia de fraqueza o mostrar os sentimentos?
Sem dúvida nenhuma, Bruno. Sim, nós também vivemos num tempo estranho, não é, Bruno? Porque eu acho que favorece muito aquela ideia de que quanto mais saudáveis, mais nós nos tornamos controlados em relação àquilo que sentimos. O cúmulo do controle, às vezes nós não nos damos conta, mas convém chamar a atenção, é a indiferença, como se fôssemos tanto mais saudáveis quanto mais indiferentes, que é uma tolice pegada. E, portanto, sim, parte-se do pressuposto que as pessoas, às vezes não só os homens, particularmente os homens, que controlam melhor aquilo que sentem, são pessoas mais saudáveis, são pessoas mais robustas, mais corajosas. E é exatamente o contrário. Quanto mais as pessoas manifestam os seus sentimentos sem porem barreiras, fronteiras, linhas vermelhas, o que seja, aquelas que manifestam mais os seus sentimentos são pessoas mais seguras, por estranho que pareça, muito mais corajosas, porque não têm que andar a fazer de conta que são quem não são, e são pessoas que, de facto, acabam por ser muito mais saudáveis.
Mas pode uma pessoa, independentemente de ser um homem, estamos a falar dos homens, mas pode uma pessoa reprogramar-se depois de passar uma vida toda a controlar-se e a ouvir que mostrar os sentimentos é um sintoma de fraqueza?
Pode. Da mesma forma que as pessoas se disciplinam para porem uma espécie de colete de forças à volta do coração, da mesma forma que o fazem, podem perfeitamente forçar-se um bocadinho, num primeiro momento, a dizerem aquilo que estão a sentir. E é verdade, aliás, que muitas relações novas, de pessoas que até determinada altura pareciam mais ou menos distantes, mais ou menos frias, levam a que se reaprenda a falar do que se sente, com tudo o que isso implica. Quando nós o fazemos, ficamos menos sisudos, ficamos mais luminosos, ficamos mais bonitos até, para dizer a verdade. E, portanto, nessas circunstâncias, essa reprogramação de que fala não só é possível, como eu acho que é indispensável.
Mas imaginemos que este homem está numa relação há muitos anos, tem filhos, os filhos sempre o conheceram de uma determinada forma, a mulher também. Tem os familiares, os amigos. Uma alteração do comportamento que seja muito brusca, não pode gerar precisamente a percepção de que há algum problema com aquela pessoa, de que há alguma fraqueza com aquela pessoa?
Pode. Pode, num primeiro momento, admito que sim. Mas repare, muitos homens começam finalmente a manifestar aquilo que sentem quando são avós. Muitos homens com os netos têm uma abertura em relação a tudo o que sentem, em relação ao brincar, em relação ao sorrir, Bruno, em relação ao comover, de uma forma completamente distinta quando são avós, do que quando são pais, o que diz bem da forma como foram sendo condicionados. É verdade, isso tem toda a razão, que depois quando eles a determinada altura manifestam os seus sentimentos nessas alturas, há sempre alguém a dizer: “É porque estão mais velhos, é porque estão mais moles, é porque estão mais frágeis.” Raramente dizem: “É porque finalmente-
Cresceu.
…podem assumir aquilo que sentem sem grandes reservas”, que é, de facto, aquilo que se passa com um desperdício incrível, no entretanto, em relação a todas as pessoas que foram vivendo com eles, nomeadamente os filhos.
Temos os homens que não choram, nunca choram, foram educados para não chorar, mas também temos os choramingas, aqueles que choram por tudo e por nada e que são muito queixinhas.
Bruno, vamos lá separar os queixinhas dos choramingas. Quer dizer, os queixinhas, dito ainda por cima dessa forma, Bruno, não são propriamente um exemplo magnífico de homens, porque no fundo parecem estar sempre a puxar para uma posição de vítimas, como se só dessa forma tivessem atenção e tivessem cuidados.
Não têm de ser necessariamente choramingas, queixinhas é uma outra categoria.
Exato, completamente ao lado, Bruno. Agora, os choramingas, aqueles que choram quando estão no cinema, é um homem, calma aí. Um homem que é capaz de se comover numa festa de final de ano, estamos agora nesses períodos, terminar esses períodos, quando os seus filhos terminam o quarto ano ou quando passam do jardim de infância para o primeiro ano de escolaridade, continua a ser um homem. Um homem que, a determinada altura, só porque é exposto a uma situação que tem impacto dentro de si e se comove, continua a ser um homem. Portanto, um choramingas pode ser muitas vezes mal interpretado. Note-se, deixe-me só fazer este parêntesis, é muito importante que fique claro, ninguém está aqui a querer, nas entrelinhas, empurrar estas questões para opções de homo ou transexualidade. Nada a ver, porque este tipo de dificuldades são transversais. Um homem que acaba por ter este tipo de manifestações, em que deixa mais a nu a sua sensibilidade, corre o risco de ser, aos olhos de muitos, um choramingas, e significativamente mais bonito por uma razão simples: porque não deixa de ser uma força tranquila se for preciso, não deixa de ser um guerreiro se for necessário, independentemente de manifestar, sem um registo de comportas a limitá-lo, tudo aquilo que sente.
Portanto, homens de todo o mundo, saquem dos lenços para enxugar as lágrimas. É um bom conselho para o final do nosso programa de hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e podem enviar-nos sempre questões, dúvidas, partilhas, através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.
Obrigado, um abraço pra você também e até amanhã.

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