A romaria de Nº Sr. dos Caminhos
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Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias nesta semana tão especial em que nos despedimos do Alberto Correia, que durante 400 crônicas, 400 textos, nos fez companhia ao longo destas 80 semanas. Vamos hoje, com um cheirinho a agradecimento, a gratidão por todo este trabalho do Alberto, ouvir nesta última semana. E vamos começar hoje com uma romaria muito especial também, uma das terras do Dême que Quilino tanto descreveu. Vamos começar pela romaria de Nosso Senhor dos Caminhos. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo esta última semana.
Ano a ano, quando era criança, no último dia de maio, eu ia com meus pais, todos os anos, à romaria de Nosso Senhor dos Caminhos, que tinha a sua capela nas Rãs, uma pequena povoação do concelho de Sátão, na Beira Alta plena. Partíamos às 06h na camioneta da carreira e 30 km andados estávamos nas Rãs, pequeno povoado do concelho do Sátão, a que se associam hoje as povoações de Romãs e de Cermilo. Descíamos agora a pé, meia hora a bom andar, até ao santuário do Senhor dos Caminhos, levantado num chão com uma cercania de pinheiros, não longe do curso do rio Vouga, que tem nascente perto, a dois passos da Senhora da Lapa, e que ali corre ainda devagar. Havia já tendas armadas no lugar, ouvia-se o burburinho de gente em redor do pio, romeiros que, de joelhos, davam voltas à capela e outros como nós, entrando na capela, dávamos três voltas em redor do altar-mor, que isso permitia a arquitetura do lugar. Meu pai entregava umas moedas por esmola ao mordomo sentado numa mesa ali ao pé e trazia para casa o registo do Senhor dos Caminhos no seu altar de cor azul, que minha mãe, ao chegar a casa, colava no frontal com massa de pão e ali ficava até à próxima romaria. A procissão vinha da aldeia, santo lenho sob o pálio, a banda seguindo a tocar, foguetes no ar a estrelejar, anjinhos no seu lento caminhar, um mar de gente e os andores com imagens que pareciam naturais e que contavam a caminhada de Cristo para o Calvário, imagens que deslumbravam meus olhos de criança. Havia missa e o sermão, missa cantada com a banda a acompanhar, gente apertada na capela, incenso perfumando o ar. Ao findar da cerimônia, meio-dia já passado, voltava o alegre buzinar da gente. A gente sentava-se numa mesa de taberna improvisada, cheirava bem ao abrir-se uma bolsa de retalhos, onde vinham galo assado, salpicão, pastéis de bacalhau, as fritas que hoje chamamos rabanadas. Compradas ao vender o vinho, que supostamente era do Dão, e os pães de trigo de quatro quartos, que ainda hoje comprados na Lapa, sabem bem. Demorava-se a gente no terreiro, encontravam-se por lá amigos certos com os quais os adultos se entretinham a falar. Armado numa vara, um homem circulava vendendo os eternos moinhos de papel, que nós chamávamos ventoinhas, e que uma brisa leve fazia rodopiar. Em tendas pequeninas, que os mordomos deixavam armar no lugar já marcado por velha tradição, as doceiras vendiam confeitos e beijinhos, doce da teixeira, cavacas e santinhas doces com a imagem de papel. E quando a tarde caía demorada, subíamos a ladeira por onde toda a gente vinha a pé e esperávamos na estrada, a meio da aldeia, a paragem da camioneta que vinha de Viseu e nos levava.
Belíssima memória, como sempre, desta romaria famosa de Nosso Senhor dos Caminhos. Esta romaria das terras do Dême, que Quilino também fala. Muito obrigado, Alberto. Marcamos assim o encontro amanhã. Bem haja. Até amanhã.
Até amanhã.









