"A Ucrânia tem capacidade para impor uma derrota à Rússia"
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Começa agora mais um Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. A análise esta manhã é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá, Miguel. Steve Witkoff estará a caminho de Doha, no Qatar, para reunir com a delegação iraniana, mas Teerão nega que estejam agendadas quaisquer negociações com os Estados Unidos, nem hoje nem nos próximos dias. Irão diz que está focado na implementação do memorando de entendimento. Miguel, tens defendido que o Irão tem as cartas a seu favor e que joga com um relógio muito mais calmo do que a Casa Branca. Teerão continua a fazer o que quer, ciente de que Trump está politicamente encurralado pela proximidade das eleições intercalares.
Bom dia novamente, Maria João. Essa pergunta é muito inteligente, porque nos traz àquilo que temos vindo a conversar de há uns meses para cá. Efetivamente, há relógios que andam a velocidades diferentes. Há o relógio dos Estados Unidos, que anda a uma velocidade muito mais acelerada, porque tem um período eleitoral que está a chegar e que é importante para Donald Trump, mesmo que não o queira reconhecer. É importante que corra bem, até porque já se fala, e havia inclusive uma entrevista no Washington Post com um antigo senador democrata, que disse que se os democratas tiverem a maioria no Senado e a maioria na Casa dos Representantes, o possível impeachment pode acontecer. Obviamente, nesse sentido, o relógio tem que andar mais acelerado e a obrigatoriedade de ter, acima de tudo, duas questões: estabilidade econômica, os preços a voltarem a baixar, a inflação a voltar a baixar e, portanto, a sensação à vida do americano é de que as coisas estão a melhorar. Isso é essencial para um período eleitoral. Estabilidade também política, no sentido de o presidente americano e o Partido Republicano aparecerem como alguém que consegue entrar nos conflitos, mas resolvê-los e trazer a paz. Isso é importante. Do outro lado, nós temos um relógio que anda a uma velocidade diferente, uma velocidade talvez mais devagar, que é o próprio Irão. É assim: dá uma imagem para fora, mas depois tem uma imagem para dentro. Vou explicar: a imagem para fora é que está no controle do compasso das negociações, daquilo que nós vamos discutindo e debatendo, porque tem uma resistência política superior aos Estados Unidos. Não é uma democracia, não tem por que prestar contas, tem um controle interno e um controle da narrativa muito diferente. Mas nós também sabemos que, em termos econômicos, existe uma pressão sobre o Irão que o obriga, o quanto antes, a resolver estes conflitos, no sentido de que possa ter libertado o valor acordado com os Estados Unidos daquilo que são quer as sanções sobre a venda do petróleo, quer os valores que estão congelados, os ativos congelados, que são importantes serem devolvidos por razão de que a economia iraniana está num pré-colapso. Dito isto, a narrativa é controlada por parte do Irão. Steve Witkoff vai a caminho, o eterno Steve Witkoff, o senhor do imobiliário vai novamente discutir assuntos que possivelmente não conhece. E isso também é um problema, porque a última vez que estiveram em Doha, isto antes da guerra, saiu de lá a informação através de um observador britânico que ficou chocadíssimo ao ver Steve Witkoff e Gerard Kushner sentados a uma mesa a discutir as questões do nuclear, quando não tinham o mínimo conhecimento do que estavam falando. Mas lá vai o homem que representa Donald Trump e os interesses econômicos de Donald Trump e dos seus amigos, vai tentar reunir. O Irão diz que não aceita por outra razão. E com isto termino. Uma das questões que está aqui, que são as questões efetivas dos primeiros cinco pontos do memorando de entendimento, e cabe lembrar que o memorando de entendimento não é um acordo de paz, é um acordo para não se voltar à guerra. E há aqui uma premissa que é importante, que é a questão do Líbano. E enquanto a questão do Líbano não estiver devidamente superada, o que vai ser praticamente impossível, porque envolve um terceiro, que é Israel, que não está envolvido, vai ser difícil voltar-se à mesa. A questão dos mísseis balísticos então nem se põe, porque isso está fora, inclusive, do próprio memorando.
Sim. Quanto à guerra na Ucrânia, Miguel, a Crimeia está em estado de emergência. Há milhares de pessoas que estão a sair da península controlada pela Rússia. Miguel, com este êxodo forçado e com os pontes de Kerch e Conhar sob fogo, será esta a maior humilhação militar de Putin, que prova de que nada serve fustigar Kiev com mísseis, se a Rússia já não consegue sequer segurar e abastecer os territórios que anexou em 2014?
Se ouvíssemos as palavras de Vladimir Putin em 2014 e ouvíssemos aquilo que foram as palavras de Vladimir Putin nos últimos dias, nomeadamente ontem, nós pensaríamos que não era a mesma pessoa e que não estaríamos a falar do mesmo assunto. Mas isto mostra uma coisa que me parece importante e que temos que celebrar de alguma forma: a Ucrânia, neste momento, não vai perder a guerra militar. E a Ucrânia, neste momento, tem capacidade militar para impor uma derrota política à Rússia e obrigar a Rússia a sentar-se à mesa, não com os trunfos na mão, não numa posição política superior, não enquanto uma potência que venceu ou que está praticamente a vencer e que se vem sentar à mesa Efetivamente, com aquela ideia de que “eu sou superior e portanto vou ter superioridade nas negociações”, não. Neste momento nós temos a Rússia a poder perder a sua joia da coroa, que é a Crimeia, ou pelo menos ter na Crimeia uma derrota infligida. Isto vem representar duas coisas: em termos económicos, a Rússia está extremamente pressionada. Quando nós temos na televisão pública o próprio presidente russo a admitir que tem escassez de combustível é uma derrota. Quando nós temos o presidente do Banco Central russo a dizer que há escassez de mão de obra e por isso muita da indústria militar está a ter dificuldades de produção, isso é uma derrota. Quando nós temos, como dizias e muito bem, essa fuga da Crimeia e nós vemos gente que quer sair da Crimeia, porque a Crimeia está a começar a ficar isolada, mas também a começar a ser bombardeada, significa que é uma derrota pra Rússia e o que estamos a assistir é uma capacidade militar por parte da Ucrânia, não só de resistir, mas de forçar uma derrota política, não é total, obviamente, mas é no sentido de quando se sentar à mesa, poder olhar olhos nos olhos com o Vladimir Putin. E isto é extremamente importante. Falta o que agora, Maria João, à Europa? Falta a Europa agora vir com um representante sério, com um caderno de encargos sério e o quanto antes forçar a Rússia a sentar-se à mesa com a Europa. Não é com Donald Trump, porque nós europeus não queremos representação de terceiros. Nós queremos encarar o problema cara a cara, mas temos que apresentar um caderno de encargos, o que é que queremos, como queremos e como vamos implementar a paz na Ucrânia e a paz na Europa.
Miguel Baumgart, muito obrigada pela tua análise. É sempre um gosto contar contigo. Boa semana, Miguel.
Muito obrigado. A mesma, Maria. Obrigado.










