EUA-Israel. "É apenas um arrufo"
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Segunda edição do dia de Gabinete de Guerra na rádio Observador, como o Nelson aqui fazia referência, hoje com o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, professor. Bem-vindo mais uma vez. Sugiro que comecemos pela suposta ronda de negociações que deveria acontecer hoje em Doha, no Qatar. Há pouca indicação de que Steve Witkoff e Jared Kushner, os enviados especiais da Casa Branca para o Médio Oriente, já chegaram ao Qatar. A verdade é que Teerão nega qualquer reunião. Vamos ter encontro ou não? O que é que este impasse representa?
Boa tarde, Miguel. Em boa verdade, nós não temos muita certeza do que vai acontecer. A informação que nos vai chegando acaba por ser meias-verdades e afinal irá uma delegação iraniana para Doha, mas supostamente só irá falar com mediadores. O que isso quer dizer? Não haverá contacto direto. Isso tem a sua importância, porque o contacto direto permite definitivamente avançar bastante mais e transmite mais confiança e portanto poderia ser um passo mais efetivo. De qualquer maneira, só o simples facto de estarem presentes já permite algum tipo de ligação que, de algum modo, não corta completamente com o ritmo, abrandam mais uma vez. Em boa verdade, é normal haver este tipo de perturbações nos sarfocos, atrasos, ações cinéticas, inclusivamente, de algum tipo de pressão, tudo isso faz parte. A guerra comunicacional à la Trump, já nem tanto, acaba por colocar os adversários numa posição difícil se não reagirem. Mas em boa verdade, nós temos aqui o Irão a aproveitar esta desestabilização e estas perdas de tempo. Algumas questões poderão ser ligadas com a luta interna pelo poder, portanto, o sistema interno a quem tem que responder, qual é a fação mais pujante no momento, a que tem mais capacidade de intervir e aí parece-nos que obviamente a ala mais extremista a nível interno poderá ganhar força, principalmente na área comunicacional, mas verdadeiramente estarão sempre aqui com um grande objetivo que é ganhar tempo. O tempo está a favor do Irão. Sabe da urgência dos Estados Unidos, sabe que serão menos efetivos na luta pelo que consideram vital, pelas tais linhas vermelhas que os Estados Unidos foram estabelecendo, aliás, alguns temas já nem se tem ouvido falar, e uma questão particularmente importante, poderão forçar Israel a restringir as suas ações. Isso é determinante para o Irão e para os seus aliados, para os seus proxies. Em suma, o Irão procura melhorar a sua posição não só na mesa como também numa ordem regional que se está a reorganizar e portanto conseguir novamente ter uma posição com algum leverage e que obviamente vai usar tudo o que puder para atrasar o processo, seja o Líbano, seja o descongelamento das verbas, seja Ormuz, o acesso, as taxas, a desminagem, agora a França não poderá fazer parte dessa desminagem, etc. Portanto, vai sempre tentar trocar aqui algumas cedências pelo fator tempo.
O senhor professor falava numa nova ordem regional no Médio Oriente. Tem havido um certo afastamento entre Estados Unidos e Israel, tal já levou o ministro da Defesa israelita a afirmar que Israel pode atacar sozinho o Irão e há uns dias Netanyahu afirmou que Israel precisa de ser independente em matéria de armamento. Confirma-se um corte definitivo de Israel com o seu aliado preferencial, os Estados Unidos?
Eu acho que não. Há, de facto, um afastamento, os interesses neste momento não são coincidentes, mas parece-me ser conjuntural, ou seja, a grande aliança que já vem de décadas, desde que os Estados Unidos identificaram realmente que no Médio Oriente o seu parceiro, o parceiro mais forte que poderia representar os interesses norte-americanos na região era Israel e portanto eu julgo que isso se vai manter. Mas há aqui algo que tem que ser considerado. Há, de facto, um afastamento, como eu dizia há pouco, a nível de interesses conjunturais. Há uma dimensão interna a Israel que é muito relevante e depois haverá uma outra dimensão externa. A dimensão interna é muito simples e resume-se a estar contra tudo e contra todos, é algo que vende bem e acaba por unir Israel contra uma ameaça existencial. É das narrativas mais fortes que um Estado pode utilizar. Israel, naturalmente, com este governo, acaba por fazer uso com algum sucesso dessa mensagem. A nível externo, está a marcar posição contra, ou melhor, junto dos Estados Unidos, não é contra, mas junto dos Estados Unidos, que também poderá ter muito a perder neste esfriamento conjuntural. E depois há uma consciência que Trump poderá abandonar os aliados sempre que os interesses deixem de ser comuns. Já o fez no passado e há aqui uma mensagem relevante que Netanyahu também pretende transmitir para a Casa Branca. Depois há o que eu diria uma mudança na continuidade. Israel tem feito um grande esforço em procurar ser mais evoluído na dimensão da indústria de defesa e depender menos do exterior, inclusivamente a nível de esquema de defesa aérea, tem desenvolvido um esquema laser particularmente relevante e tenta ganhar algum tipo de soberania para os seus objetivos vitais sem depender de terceiros. Portanto, não me parece que seja um corte, muito longe disso. As relações ainda são fortes, há aqui um arrufo conjuntural não permanente, até porque ambos precisam um do outro, mas em boa verdade há aqui também um pouco de autonomia estratégica por parte de Israel, um bocadinho obrigado, um bocadinho forçado, visto que foi colocado inclusivamente fora do grande processo negocial entre os Estados Unidos e o Irão, e tem sido uma das armas, uma das cartas usadas pelo Irão nesse sentido, mas em boa verdade, não me parece que nada de vital esteja a ser colocado em causa.
E o que dizer, senhor professor, das relações do chefe do governo de Israel, Netanyahu, e o presidente da Turquia, Recep Erdoğan? Netanyahu disse há dias que não passa um dia sem que Recep Erdoğan deseje a destruição de Israel. Está aqui aberto o caminho para mais um conflito tendo Israel como protagonista?
Miguel, isto é a geopolítica pura e dura, eu diria. São duas potências pra regional. Há bocado falávamos na nova ordem regional. Eu penso que é exatamente isso que eles procuram, ganhar uma posição na nova ordem regional. Do lado turco, não é escondido um certo saudosismo, um neo-otomanismo recuperado por Erdoğan, que desde sempre quis ser um líder muçulmano. Lembro-me bem da Primavera Árabe e dos seus discursos no Egito e noutros países norte-africanos, em que ele pretendia aproveitar alavancas para conseguir ser esse tal líder. E o adversário Israel é muito vendável. Já falamos várias vezes isso aqui. Desde Davos 2009, em que Erdoğan chamou assassino a Shimon Peres e abandonou uma famosa entrevista, que se percebeu que Israel seria sempre uma arma utilizada por Erdoğan sempre que quer apelar ao mundo muçulmano. Isto é uma demonstração de força para o consumo interno, para o consumo externo. Tem outras linhas, a posicionamento na NATO, regressar ao programa F-35, que me parece vai acontecer, tentar envolver-se no programa de defesa da União Europeia, mas também ser, de alguma forma, uma tentativa de ser um mediador em alguns conflitos, ser uma ponte entre dois mundos, como tentou realmente no Irão e não conseguiu, e como tentou também na Ucrânia, ainda com algum êxito em pequenos, nomeadamente aqueles corredores ferroviários. Exatamente. E portanto, vai tentando marcar a sua posição neste mundo, nesse sistema político internacional. O Netanyahu precisa ter um adversário em permanência, portanto, justifica os tal estados de exceção que falávamos há pouco e realmente a retórica Erdoğan é muito agressiva e o estar no tal programa dos F-35, ou regressar ao programa do F-35, para ser mais correto, não traz definitivamente segurança a Israel, visto que há aqui uma competição em várias áreas, inclusivamente na própria ligação ao Ocidente, aos Estados Unidos, que vai flutuando, mas há uma competição grande em vários territórios, como por exemplo, no território da Síria, em que a competição é muito aberta, mas ambas as capitais, eu acho que esse ponto é o mais determinante, têm consciência até onde podem ir na retórica e mantêm algum pragmatismo e aliás, continuam a cooperar em certas áreas e nomeadamente mesmo dentro da área de informações e de segurança, há algum tipo de cooperação entre as duas capitais, o que me parece que não conduz diretamente a um conflito, mas naturalmente há aqui uma crise, e essa crise não é recente, tem é apenas picos e neste momento está um pico dos mais elevados, isso é uma verdade.
Sr. Professor, sugiro que voltemos agora o nosso olhar para o conflito no leste da Europa. A Crimeia está em estado de emergência. Há uma fuga massiva de civis da região. Uma derrota para a Rússia?
Não diria uma derrota. Uma derrota implicaria um conjunto de condições que não estão definitivamente a ser cumpridas, mas é um importante sucesso estratégico-militar da Ucrânia, não há dúvida nenhuma. Já falámos várias vezes aqui da estratégia Budanov, da capacidade de atingir alvos em profundidade na retaguarda, e alvos de grande valor estratégico, seja logística, energias, forças de reserva, aeroportos, bases militares, o comando e controle na retaguarda. Isso, de facto, tem sido um sucesso incrível dessa estratégia que está a ser assumida pela Ucrânia. A Crimeia ser uma ilha ou ficar uma ilha seria desastroso para a Rússia. Tem um impacto militar e logístico tremendo, obriga a deslocamento de capacidades que seriam retirados do esforço operacional da frente, da capacidade de avançar no terreno, mas tinha um maior impacto psicológico. É aqui que está verdadeiramente a questão. A Crimeia é mesmo russa na perspectiva de Moscovo, seja a visão de Putin, seja de seus opositores, é algo em questão comum. Foi um erro histórico de Khrushchev, em 54, e todos os russos são comuns na ideia de que a Crimeia pertence à Rússia. E portanto, isso ainda foi mais cimentado a partir de 2014, com a invasão. Não era uma coisa “negociável” e agora começa a ser colocada em causa. Claro que não acreditamos que vá haver uma invasão. Não nos parece isso lógico, mas vai criar algum tipo de desequilíbrio. Moscovo vai ter que movimentar forças, vai ter que balancear forças para esta região e de alguma forma isso vai colocar dificuldades para todo o esforço operacional, sem dúvida alguma.
Ainda sobre o conflito nesta zona do globo, o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko pediu há dias perdão a Volodymyr Zelensky e admite que exagerou nas críticas ao presidente ucraniano. Como é que interpreta esta declaração, porventura surpreendente, do presidente bielorruso?
A questão na Bielorrússia eu acho que é muito difícil. Há aqui o que chamaria muito de nevoeiro estratégico, se a expressão existe, não é propriamente uma definição. Mudou de retórica, realmente pediu desculpa. Por pressão de Zelensky, Lukashenko inibiu torres transmissoras que apoiavam o esforço dos drones russos, é uma verdade, mas por outro, é o aliado mais próximo da Rússia, com uma dependência tremenda a nível político, militar, financeiro e até pessoal, porque verdadeiramente Lukashenko só está no poder porque Putin assim o quis e vai mantendo esse apoio. Repare que tem armamento nuclear russo no seu território, logo demonstra bem que a Rússia se importa com o território, inclusivamente levou a alterar a doutrina de emprego nuclear para incluir a Rússia e o Donbass também, mas a Bielorrússia nessa reação, caso sejam os interesses em causa. Portanto, há aqui, de facto, um conjunto de dimensões que vieram alterar um pouco, mas há outras que são mais sólidas e que, na minha perspectiva, se irão manter. E essa ligação à Rússia será sempre a grande base. Agora, há um aproveitamento económico, mais que tudo. Eu acho que o Lukashenko tem aqui um aproveitamento, aproveitando a fragilidade econômica e energética da Rússia, está a aproveitar o seu momento. Mas não é só. Há aqui também algumas características que nos têm que deixar pensar um pouco, que é fazer uma preparação do terreno na fronteira. A engenharia está a preparar não só de hipóteses de munições, como infraestruturas para deslocamento, inclusivamente algum tipo de vias rodoviárias para chegar mais facilmente à fronteira. E nós sabemos que foi muito por aí que falhou a invasão 2022, por falta dessas infraestruturas. Foi criando condições legais, a Constituição agora já passa a permitir ataques preventivos. Foi criando condições militares, as capacidades militares foram desenvolvidas nesses quatro anos de uma forma extraordinária e, portanto, isso pode abrir caminho a ser parte de uma escalada por parte de Moscovo. E que vetores é que poderão ser desenvolvidos? Um ataque direto a Kiev, como foi em 2022, e repare bem a distância, estamos perto da fronteira, Kiev, portanto, isso poderá ser altamente perigoso, obriga a ter esse eixo de aproximação muito defendido. O ferir o sistema logístico com avanço eventualmente para oeste, ou seja, mais perto da fronteira com a Polónia, ou apenas abrir, e este um apenas é entre aspas, uma nova frente de 1100 km. Seja o que for que isso venha a desenvolver, só essa possibilidade de ser uma modalidade de ação já obriga a um balanceamento de forças tremendo por parte das forças ucranianas, seja forças efetivas para defesa, seja a sua reserva, seja toda a infraestrutura logística e todo o sistema logístico, que obviamente tem que ser alterado, só com a simples probabilidade de isto vir a acontecer. Portanto, é algo que me parece estar definitivamente como uma possibilidade e por muito que Lukashenko tenha atitudes mais apaziguadoras, lá está aquela ligação umbilical e a consciência de Lukashenko que se Putin cair, Lukashenko muito provavelmente cairá também.
A ver vamos quais são os próximos capítulos deste conflito e o posicionamento da Bielorrússia, presidida por Alexander Lukashenko. Senhor professor, ainda tinha aqui mais uma sugestão, a afirmação de Vladimir Putin que a NATO se está a preparar para atacar a Rússia. Havemos de abordar este tema numa outra ocasião. Quero agradecer, professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco da Porto Business School, a sua presença nesta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. Boa tarde, senhor professor.









