Para Gakpo era caído do céu, para Bounou foi dádiva merecida
▲O guarda-redes marroquino decidiu a eliminatória com uma defesa brutal
AFP via Getty Images
Os últimos dias da concentração dos Países Baixos têm sido particularmente dolorosos. No fim de semana, Cody Gakpo anunciou que o segundo filho morreu durante a gravidez, tendo sido dispensado dos trabalhos dos neerlandeses para acompanhar a mulher e também o filho mais velho. Através das redes sociais, o avançado do Liverpool deu a notícia — mas também deixou de logo a ideia de que teria uma nova estrela a guiá-lo.
“Com os corações partidos, partilhamos a notícia devastadora de que o nosso menino morreu durante a gravidez. Obrigado pelo vosso amor e apoio. Elijah Raphael Gakpo. Amado para sempre, para sempre o nosso filho. Fomos à igreja acender uma vela. Depois, caminhámos até ao parque infantil da igreja com o nosso filho Samuel. Estava lá apenas mais uma criança e o nome dele era Elijah. Não poderia ter havido um sinal mais bonito de Deus. Relembrou-nos de que o nosso menino nunca está longe”, escreveu Gakpo, cujo filho mais velho tem apenas dois anos.
???????????? Heartbreaking news as Cody Gakpo and his partner, Noa van der Bij, have announced that they have lost their baby boy during pregnancy.
Gakpo, who is currently away with the Netherlands squad at the World Cup, had revealed earlier this year that the couple were expecting… pic.twitter.com/rJA5LUeXdT
— Football Tweet ⚽ (@Footballtweet) June 27, 2026Neste contexto, e até porque o futebol é apenas a coisa mais importante das menos importantes da vida, a certeza de que Cody Gakpo seria baixa para o jogo dos Países Baixos contra Marrocos começou a ganhar força. Até ao momento em que Ronald Koeman, com a devida autorização do avançado, confirmou que este queria jogar, ia jogar e nunca colocou em causa a hipótese de não entrar em campo nos 16 avos de final do Mundial 2026.
“Foi uma notícia muito triste. O Cody e a família… Fizemos tudo para o apoiar, como jogadores e como staff. Nos últimos dias ele foi dispensado para estar com a família. Lidou bem com isto e não houve nenhum momento em que tenha dito que queria sair. É a maneira de ser dele e acaba por mostrar maturidade. Está pronto para jogar e não acho que vá ser um peso na exibição, ele lida com as coisas à maneira dele. É forte e damos sempre o nosso apoio, pode contar connosco”, explicou o selecionador neerlandês.Assim e com Cody Gakpo no onze inicial, os Países Baixos defrontavam Marrocos no Estádio BBVA de Monterrey, no México, depois de terem vencido o Grupo F e já a saber que o eventual adversário dos quartos de final era o Canadá, que eliminou a África do Sul. Ronald Koeman sacrificava Reijnders para montar uma linha de três defesas, enquanto que Mohamed Ouahbi, do outro lado e numa seleção marroquina que ficou no segundo lugar do Grupo C, tinha Ounahi, El Khannouss e Brahim Díaz no apoio ao crónica Ismael Saibari.
Verbruggen ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #PaisesBaixos pic.twitter.com/LcYu1fJ3sK
— sport tv (@sporttvportugal) June 30, 2026
Um golo com um sentimento especial ????????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #PaisesBaixos pic.twitter.com/opyDr0YpzA
— sport tv (@sporttvportugal) June 30, 2026Numa primeira parte que terminou sem golos, mas que teve sempre muitos duelos e uma agressividade acima da média, os Países Baixos começaram por ter uma posse de bola inconsequente que rapidamente foi substituída pelo caos de Marrocos. El Aynaoui (20′) e Achraf Hakimi (21′) ficaram ambos muito perto de marcar, com Bart Verbruggen a responder com duas enormes defesas, a pausa para hidratação travou o entusiasmo africano e Micky van de Ven ainda assustou Bounou (44′). Ao intervalo, porém, estava ainda tudo empatado sem golos em Monterrey.
Os marroquinos regressaram dos balneários muito por cima e com uma capacidade brutal de entrar em velocidade no último terço contrário, com Hakimi a acertar na trave logo nos instantes iniciais (52′) e El Khannouss a atirar de fora de área para Verbruggen encaixar (58′). Os neerlandeses não tinham qualquer capacidade para contrariar o ascendente do adversário e só respondiam em transição rápida, sendo que raramente causavam grandes calafrios perto da baliza de Bounou.
Diop empata tudo nos descontos ????
Prolongamento à vista em Monterrey ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Marrocos pic.twitter.com/4cr3MBvLYv
— sport tv (@sporttvportugal) June 30, 2026 Koeman reagiu com Koopmeiners e Wout Weghorst e tudo mudou com a segunda pausa de hidratação: no primeiro lance depois de o jogo ser interrompido, numa jogada mais do que direta que começou no guarda-redes, Summerville apareceu lançado no ataque e conseguiu tocar para Cody Gakpo, que à saída de Bounou atirou para abrir o marcador (72′). De forma natural, o avançado não conseguiu conter as lágrimas e festejou de forma muito emocionada, sendo abraçado por todos os jogadores em campo e também por todos os suplentes antes de apontar para o céu.
Ainda assim, nada estava decidido: já nos descontos, Chemsdine Talbi cruzou na esquerda e Issa Diop, a saltar mais alto do que Van Dijk ao segundo poste, cabeceou para empatar e levar tudo para o prolongamento (90+1′). Nada mudou na meia-hora extra e o jogo seguiu mesmo para a decisão por grandes penalidades, onde entre vários falhanços e muitos remates ao poste, à trave ou até para fora, o herói acabou por ser Bounou, que defendeu o penálti de Summerville e permitiu a Ismael Saibari fechar as contas. Marrocos venceu os Países Baixos em Monterrey e está nos oitavos de final do Mundial 2026.
De forma inevitável, Bounou. Apesar de nem sequer ter sido um dos jogadores em destaque ao longo dos 120 minutos, cumprindo sempre que foi chamado a intervir e sem qualquer tipo de responsabilidade no golo sofrido, o guarda-redes do Al Hilal voltou a segurar um país inteiro com as mãos ao defender a grande penalidade de Summerville de pé, com um único movimento, quase como se já soubesse que a bola ia ali parar.
Simplesmente Bono ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Marrocos pic.twitter.com/lHB3QijzhO
— sport tv (@sporttvportugal) June 30, 2026
Ismael Saibari, Achraf Hakimi, El Khannouss ou Bouaddi, entre tantos outros, mereciam estar aqui — e só não estão porque existiu Bart Verbruggen. O guarda-redes do Brighton agigantou-se em Monterrey, entre duas defesas brutais ainda na primeira parte, outra junto ao poste que evitou um potencial canto olímpico de Hakimi e uma quarta já no prolongamento, e tornou-se uma das tábuas de salvação de uns Países Baixos que foram contando mais com a sobrevivência do que necessariamente com a inspiração para seguir em frente no Campeonato do Mundo. No fim, porém, nem Verbruggen — e aquele azar no penálti de Soufiane Rahimi, que chegou a defender — chegou.
Marrocos está nos oitavos de final do Mundial 2026 e vai defrontar o Canadá, que eliminou a África do Sul. Os marroquinos repetem assim o feito da última edição, quando ficaram num histórico quarto lugar no Qatar, mas também de 1986, ano em que também conseguiram chegar aos oitavos de final do Campeonato do Mundo — curiosamente, no México, onde esta segunda-feira carimbaram novamente o passaporte. Este ano, porém, têm a possibilidade de juntar uma excelente prestação no Mundial à conquista da CAN (ainda que alcançada de forma administrativa e na sequência da final perdida em campo contra o Senegal).
Os Países Baixos continuam muito longe da equipa que outrora nos fez sonhar. Apesar de ter discutido o apuramento até ao fim e de ter realizado uma boa fase de grupos, a equipa de Ronald Koeman foi quase sempre inferior a Marrocos e raramente merecer garantir a qualificação — marcando até na sequência de uma pausa para hidratação que inverteu todo o sentido do jogo. Com bons intérpretes, um bom treinador e uma boa mistura entre experiência e juventude, pedia-se muito mais aos neerlandeses.










