CIÊNCIA

Pode a Crimeia ser o calcanhar de Aquiles da Rússia?


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Esta é a história do dia da Rádio Observador: pode a Crimeia ser o calcanhar de Aquiles da Rússia? Ocupada há mais de 10 anos pela Rússia, a península da Crimeia é, nesta altura, uma zona estratégica e um calcanhar de Aquiles para Vladimir Putin. Foi onde a guerra contra a Ucrânia começou e pode também simbolizar o começo do fim, de acordo com uma mensagem partilhada pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no X. A Ucrânia tem atacado as ligações para abastecimento da península, pondo em causa a defesa do território e a sobrevivência dos seus habitantes. As autoridades russas já declararam o estado de emergência. Há relatos de falta de combustível, água e eletricidade e milhares de pessoas já saíram da península. Considerado uma joia da coroa para Putin, este território está a tornar-se agora uma vulnerabilidade para o esforço de guerra russo. Como é que tem evoluído a guerra na Ucrânia? E de que forma é que a Crimeia pode mudar o rumo do conflito? Vou falar com José Carlos Duarte, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou a Teresa de Cassis e esta é a história do dia de terça-feira, 30 de junho. Bem-vindo, José Carlos Duarte.
Olá, Teresa.
Para contextualizarmos, a Rússia invadiu a península da Crimeia em 2014, já lá vão mais de 10 anos. Embora internacionalmente o território seja reconhecido como fazendo parte da Ucrânia, a verdade é que já há muitos anos que é administrado pela Rússia. Como é que tem sido a vida na península nestes anos?
Sim, exato. A Rússia controla, de facto, a Crimeia desde 2014 e muitos russos veem mesmo já a península como parte do país, ou seja, aquele território é russo, já não é ucraniano. E isto é um controle de facto, ou seja, é um controle que não é de jure, que não é reconhecido pelo direito internacional, mas o que é facto é que a Rússia gere a vida toda na península, gere a questão económica, gere a questão militar, gere a questão da soberania. Ou seja, a Crimeia é efetivamente parte da Rússia, mesmo que a Ucrânia conteste isso, assim como grande parte da comunidade internacional. E nestes últimos anos, a Crimeia transformou-se quase numa instância balnear. Muitos russos vão passar lá férias, o tempo lá é mais agradável do que no restante território. E também se transformou num importante posto militar. Existe aqui uma grande componente estratégica na Crimeia, que é muito importante e quer seja a Rússia, quer seja a Ucrânia a controlá-la, tem efetivamente aqui uma grande vantagem no terreno.
E o que está a acontecer agora que pode mudar a situação na Crimeia?
A Ucrânia, neste momento, tem uma estratégia definida, tem um plano em marcha para isolar a Crimeia. A Ucrânia quer cortar todas as cadeias de abastecimento que chegam desde a Rússia à Crimeia e transformar quase numa ilha. Estas são as palavras do ministro da Defesa ucraniano, é transformar a Crimeia quase numa plataforma em que a Rússia não consegue providenciar bases alimentares, não consegue providenciar combustível, isolá-la totalmente da Rússia. Este cerco faz com que o Kremlin perca a possibilidade de controlar a península, ou seja, mesmo que na Crimeia se fale russo, se use o rublo, se não chega lá nenhum alimento russo, nada russo, é bastante complicado controlá-la de facto, ou seja, há aqui grandes dificuldades. E, portanto, essa é a estratégia da Ucrânia, que é isolar a Crimeia para que a Crimeia não dependa da Rússia e fique ali em terra de ninguém e isso possa, obviamente, beneficiar a Ucrânia.
A estratégia da Ucrânia na Crimeia tem agora efeitos também por causa de uma forma mais moderna de fazer a guerra com recurso a drones. Como é que tem funcionado esta estratégia?
Sim, diria mesmo que esta estratégia foi a grande reviravolta da Ucrânia em 2026. Nos últimos anos, a Ucrânia tinha estado numa guerra de atrito constante com a Rússia na linha da frente, principalmente no Donbass, ou seja, era uma guerra muito custosa, muito longa. A Rússia tinha uma dinâmica que estava a avançar, ou seja, a Rússia estava um bocadinho na frente, conquistava uns quilômetros quadrados, às vezes a Ucrânia recuperava parte deles. Portanto, era quase um impasse, não se saía deste impasse. A Rússia queria controlar Donbass, a Ucrânia tentava resistir, tentava suster a ofensiva russa e era esta dinâmica que se repetiu, diria, em 2024, 2025. Este ano as coisas mudaram graças precisamente aos drones. A Ucrânia percebeu que as novas tecnologias eram capazes de criar disrupções à Rússia e eliminar a grande vantagem da Rússia, que é a superioridade numérica. Ou seja, a Rússia conseguia manter esta guerra de atrito e avançar uns quilômetros na linha da frente porque tinha mais homens. Há mais russos do que ucranianos a combater. A diferença é considerável e, portanto, a Rússia tinha esta vantagem, mas os drones vêm alterar aqui um bocadinho as coisas. A Ucrânia usa-os para conquistar territórios e não precisa de homens e, portanto, é aqui uma grande vantagem. Mesmo que atualmente ainda não haja uma grande eficácia, que haja alguns obstáculos e obviamente que a tecnologia ainda não é perfeita, mas estes veículos aéreos não tripulados Tem sido capaz de desmontar a vantagem russa no terreno. E agora a Ucrânia tem uma nova fase do conflito, uma nova fase também, se então nova, já tem alguns meses, que é atacar alvos dentro da Rússia e alvos como instalações petrolíferas, infraestruturas críticas. Isso faz com que a população russa sinta na pele os efeitos da guerra e também economicamente, por causa dos ataques a refinarias, por exemplo, a Rússia enfrenta aqui problemas não só a financiar a máquina de guerra, que com estes recursos naturais, como também existe escassez de combustível. E este cenário está-se a repetir um pouquinho na Crimeia, sendo que na Crimeia ainda é mais intenso, porque a Ucrânia não precisa de tantos drones de longo alcance ou mísseis de longo alcance pra alcançar a Crimeia. A Crimeia geograficamente está mais próxima da Ucrânia do que Moscovo, por exemplo. Portanto, esta estratégia tem sido muito importante pra Ucrânia quebrar a ideia de que Rússia estava à frente, quebrar este mito de que a Rússia estava a avançar. E tem sido precisamente através dos drones que Kiev tem conseguido fazer isso.
E qual é que é a importância deste território para a Rússia? Na altura da anexação da Crimeia, ela foi celebrada como uma joia da coroa russa.
Sim, esse é o termo utilizado e cunhado pela Rússia. É muito importante. A Crimeia tem um importante valor simbólico pra Rússia, porque foi o início do expansionismo da Rússia na Ucrânia.
Em 2014.
Exato. Há 12 anos, a Rússia entrou na Crimeia quase sem contestação e controlou o território de forma muito fácil, quase sem oposição. A Ucrânia militarmente não conseguiu reagir e controlou, fez um referendo cuja legitimidade internacional foi muito contestada e quase nenhum país na comunidade internacional aceitou, que disse que grande parte da população da Crimeia queria ser russa. E a Rússia passou a controlar quase de forma automática a Crimeia, não houve contestação. No Ocidente condenou-se, obviamente, houve várias vozes críticas da ação russa, mas o que é fato é que a Rússia, até 2022, continuou a fazer negócios com a Europa e com os Estados Unidos. Não houve um cerco, não houve aqui um cordão sanitário como há agora, com a invasão desde 2022. Ou seja, a Rússia teve aqui uma prova da sua, eu diria, de quão forte é, de ser uma potência que pode chegar a um sítio e controlá-lo sem grande contestação. E é essa imagem que Vladimir Putin sempre tentou projetar da Rússia, uma potência forte que obtém o que quer, quando quer. E a Crimeia, efetivamente resultou. Ele conseguiu controlar a Crimeia muito facilmente. E acho que também esta questão da história da coroa também tem a ver com motivo histórico. Durante a União Soviética, a Crimeia foi “oferecida” à Ucrânia, e a Ucrânia passou a controlá-la desde 1954, mas muitos russos sempre se opuseram, nunca entenderam bem a lógica desta escolha. E portanto, houve sempre ali um certo desconforto que Vladimir Putin também conseguiu eliminar ao anexar o território. Portanto, foi aqui uma demonstração de força do presidente russo, que correu muito bem. Daí ser esta joia da coroa, este território, que também tem uma importância estratégica bastante grande pra Rússia.
Exatamente. A Crimeia é uma região muito importante para quem a controla. Vive muito do turismo, falaste também na base militar, e preparava-se agora para mais uma época alta no turismo, mas não é só uma estância balnear.
Claro que não. Apesar de agora ser a imagem que se tem da Crimeia, a Crimeia está longe de ser apenas um sítio onde os russos vão passar férias. É efetivamente um posto nevrálgico na estratégia do Mar Negro. Quem controla a península consegue mais ou menos controlar o tráfego marítimo e aéreo que entra e que sai do Mar Negro. Portanto, é efetivamente uma posição estratégica extremamente importante pra quem controlar a Crimeia. E também é importante porque atualmente a Rússia controla partes do sul da Ucrânia, mais ou menos até Kherson, portanto, desde território russo até Kherson, que fica perto da Crimeia, a Rússia controla isso tudo. E a Crimeia também acaba por ser aqui um auxílio importante pras cadeias de abastecimento que a Rússia construiu desde 2022 no sul da Ucrânia. Aliás, durante a invasão de larga escala, durante os primeiros meses, a Rússia usou a Crimeia exatamente como uma base pra conquistar certos territórios. Portanto, aqui, militarmente, tem uma importância muito grande pra Rússia. E nestes últimos anos, a Rússia fez grandes investimentos na região, criou várias bases militares, criou a infraestrutura, uma grande infraestrutura, que foi a Ponte Kerch, que liga a península à Federação Russa. Portanto, é um ponto nevrálgico da estratégia russa e é uma forma de ter superioridade no Mar Negro. E é por isso que a Rússia vê a Crimeia também como um território que não quer de todo perder. E, portanto, a Ucrânia sabe também desse valor estratégico que a Rússia dá à Crimeia e também, obviamente, que cria disrupções a essa dependência que a Rússia também tem da Crimeia no Mar Negro.
E mesmo apesar da península estar sob administração russa há tantos anos, mesmo para a Ucrânia, a Ucrânia nunca aceitou, mesmo quando se falava em acordos e em perder este território, pra Ucrânia, isso nunca foi um ponto de que pudesse abdicar, tal como a região ocupada do Donbass.
Exato. Pra Ucrânia, a questão é simples, a Crimeia é Ucrânia, e não há outra forma de ver o assunto. Aliás, como disseste, durante as negociações da administração Trump pra tentar terminar a guerra no ano passado, surgiu na imprensa a possibilidade de que, como parte desse acordo de paz, os Estados Unidos reconheceriam efetivamente a anexação da Crimeia como tendo acontecido, e portanto passaria a ser uma anexação de jure. E a Ucrânia Contestou e nunca, na minha perspectiva, vai permitir que isso aconteça, pelo menos a não ser que seja forçada a fazer isso. A Crimeia tem este importante valor simbólico, foi onde tudo começou. E também existe uma minoria étnica, que é os tártaros, que vivem na Crimeia e que sempre rejeitaram o domínio russo e a Ucrânia sente-se no dever de proteger esta minoria. Portanto, a Ucrânia sente-se que ficou amputada de parte do seu território, numa operação militar em que quase não teve tempo para reagir, em que o Ocidente sim condenou, mas que não fez nada para evitar, para pará-la e, acima de tudo, para travar as ambições imperialistas de Vladimir Putin, porque depois da anexação da Crimeia, começou uma guerra no Donbass em 2014 e houve uma invasão em larga escala em 2022. Portanto, a Ucrânia sente que a Crimeia foi o início e que se não recuperarem a Crimeia, esta lógica, este padrão de a Rússia tentar sempre controlar territórios ucranianos vai prolongar no futuro. Portanto, a Crimeia é uma forma de mostrar que a resistência continua e que a Ucrânia sente que a situação não pode ser através de apaziguamento, não se pode apaziguar Putin, tem que se combatê-lo, porque senão esta lógica de que vai haver sempre invasões e novas guerras russas vai permanecer na memória dos ucranianos e a Crimeia é uma prova viva disso mesmo.
E como é que a Rússia e Vladimir Putin, em particular, têm reagido a estes últimos avanços?
Surpreendentemente, a Rússia tem admitido que há problemas. Eu acho que já faz parte um pouco da lógica, desde que, como eu estava a explicar, a Ucrânia trouxe a guerra para dentro da Rússia, é impossível agora esconder que a situação não impacta a vida das pessoas, tornou-se impossível. E Vladimir Putin admitiu este fim de semana que há efetivamente uma escassez de combustível na Crimeia e que vai aumentar o abastecimento nos próximos dias e diz que vai fazê-lo por terra e por mar. E também concedeu, mas isto na semana passada, que há ataques ucranianos na Crimeia e que devem parar e instruiu o Ministério da Defesa a tentar fazê-lo. No local, as autoridades pró-russas que controlam atualmente a Crimeia acionaram o estado de emergência na sexta-feira, ou seja, já estão num estado em que efetivamente já reconhecem que a situação não se vai resolver propriamente em pouco tempo. E eu diria que existe a mesma preocupação na forma como as coisas se vão desenrolar. Acho que ainda não há um desenlace do que pode dar esta operação militar ucraniana. Eu não acho que talvez ainda não haja pânico entre os russos, mas há efetivamente cautela e preocupação, porque é verdade que a Ucrânia está a criar muitos problemas na Crimeia. Há relatos que não há luz, que não há eletricidade, que não há água, combustível, não há nas bombas de gasolina, ainda que obviamente haja relatos inversos que também dizem o contrário, mas o que é facto é que a Crimeia-
Há milhares de pessoas a saírem da península.
Exato, isso também é verdade. Portanto, a Ucrânia tem conseguido criar problemas. Agora, de que forma é que a Rússia vai reagir a isto, acho que ainda é uma incógnita.
Já descreveste há bocado o estado da guerra neste momento. Consideras que a Crimeia pode mesmo vir a ser o calcanhar daquiles da Rússia?
Eu acho que neste momento o objetivo da Ucrânia é claro. A Ucrânia, eu acho que para já não quer controlar a Crimeia, controlar no sentido de fazer uma operação terrestre de controle da península, porque isso demoraria muito tempo e é realmente um bastião militar da Rússia, está extremamente bem protegido em termos terrestres. Mas eu acho que aquilo que a Ucrânia quer é criar pressão no Kremlin. A Ucrânia quer que Vladimir Putin aceite negociar, ceda à pressão e recue nesta posição maximalista que o presidente russo tem adotado nas negociações. E a Crimeia é uma ótima forma de fazer pressão, porque é uma região que os russos realmente já veem como sua, é uma prova de que o expansionismo russo pode ser bem-sucedido. E estes reveses na Crimeia são sem dúvida um incômodo, eu diria até para o orgulho nacional russo, porque como é que a Ucrânia está a conseguir cercar aquele território e a Rússia parece que não consegue reagir. E acho que isso é efetivamente uma forma de fazer pressão. Mas não sei até que ponto é que esta pressão vai funcionar, porque a Rússia é um Estado autocrático, existe uma censura, as críticas à guerra continuam a ser censuradas, as críticas mais explícitas à guerra continuam a ser censuradas, portanto, não sei até que ponto é que vai funcionar esta pressão. Mas o que é facto é que é uma prova também de que a Ucrânia consegue efetivamente ter vantagem no campo de batalha e consegue trazer a guerra para os russos, para a Rússia, que vivem num estado de incerteza, que não sabe muito bem se amanhã o território deles vai ser atacado ou não. Portanto, se vai produzir esta estratégia alguns efeitos, logo se vê, mas o que é facto é que esta nova estratégia ucraniana é a prova que a Rússia não é assim tão invencível e que há aqui pontos que a Ucrânia sabe que pode exercer pressão e que pode efetivamente levar a Rússia a talvez conceder alguns pontos.
Obrigada, José Carlos Duarte.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d’O Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa de Cassis. Até amanhã.

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