Alerta vermelho: o Estado descobriu que a água hidrata
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You’ve Store na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com o Ancelmo Crespo, a Filomena Martins e o Alexandre Borges. Vamos falar sobre o José Sócrates, que ganhou uma ação contra o Estado, também sobre Mário Centeno e Miranda Sarmento, antigo e atual ministro das Finanças. Mas vamos começar pela preparação e a reação à onda de calor que já começou. Os próximos dias vão ser muito quentes em todo o país. Lisboa e Setúbal amanhã estão sob aviso vermelho e depois, na sexta-feira, as coisas pioram ainda um pouco mais. Filomena Martins, tivemos aqui alguns anúncios de criação de zonas frescas, aqui ao longo da tarde, da hora das 17h falámos com alguns autarcas de alguns concelhos muito habituados ao calor e no interior, com pouca população. Falámos com Odemira, Estremoz, Portalegre, também a Idanha a Nova. A grande preocupação vão ser os grandes centros urbanos, como é que tudo isto está a ser preparado?
Eu, já sabes, sou otimista e militante, mas desconfiada praticante. Eu gostava de acreditar que, de facto, está tudo a ser preparado. Os anúncios hoje sobrepuseram-se quase uns aos outros. É como se vai sobrepor nestes próximos dias. E de facto, falou-se nestes abrigos frescos, falou-se em fechar algumas creches, o que eu não sei depois é o que os pais vão fazer e pra onde é que levam as crianças, mas isso é outra conversa. Falou-se em ver como é que vão fazer para proibir pessoas de andar na rua. O próprio primeiro-ministro falou no problema que isto vai levantar na saúde. A própria ministra falou logo na segunda-feira que estava tudo a postos nos centros de saúde e nos hospitais, embora pudesse faltar pessoal, porque estamos naquela fase.
Já estão a começar as férias.
Já estamos com problemas nas escalas, portanto, ela levantou esse problema. E eu gostava de facto de acreditar que todas as instituições estão preparadas pra esta onda de calor, que começou hoje, se agrava amanhã e vai atingir picos na sexta-feira e no fim de semana, porque nós a cada tragédia, a cada problema destes, dizemos sempre que aprendemos com os erros do passado, só que isso é até acontecerem novos, mas quando acontecem novos, nós percebemos que não tínhamos aprendido nada.
E nestas coisas também há uma certa desvalorização destes avisos, destes alertas. É verão, estão 40 graus, sim, estamos habituados.
Sim, faz calor, é no verão.
Mas, no entanto, isto pode mesmo ter consequência e há um alerta, há um aviso de possibilidade de aumento da mortalidade agora nos próximos dias. Há pouco conversávamos também com a Direção Geral da Saúde, que não quis quantificar qual seria a dimensão desse aumento da mortalidade. Achas que da parte das autoridades, ainda há uma espécie de menosprezar em relação à necessidade de ter uma prevenção real e efetiva destes fenómenos?
Não há que, porque de facto, não só os avisos têm sido bem coerentes. Vou dar um exemplo. Na tempestade Christine, uma das coisas que o governo disse é que não estava preparado pra que fosse tão grave a tempestade.
Mas os avisos foram feitos.
Mas houve aviso e eles disseram que não houve avisos pra tal gravidade. Não é verdade. Uma das coisas que na altura falámos aqui, até quase na brincadeira, foi que a primeira notícia pra gravidade da tempestade, nós demos no Observador na sexta-feira. E na tarde de terça, portanto, na véspera daquela madrugada trágica, nós tínhamos um minuto a minuto já pra tempestade. Portanto, gravidade não podia ser mais, nós não estávamos nas consequências.
E nessa altura tivemos uma meteorologista do IPMA, e eu lembro-me de ouvir essa sua na Rádio Observador, a dizer que as consequências podem ser catastróficas.
Exatamente, por causa do vento que ali vinha. Neste momento, a ministra está a falar desde segunda-feira sobre os hospitais e isso. É verdade que a DGS não dá números. Eu venho a insistir com a DGS sobre os números da mortalidade desde, nem pedi muitos, desde 2020. E não foram dados. Sendo que se sabem os números de 2025. Não faz sentido nenhum se saber os números de 2025 da onda de calor de agosto do ano passado, que foram 1330 e qualquer coisa, eu não sei de cor. Não percebo por que não se sabem dos anos anteriores, portanto, se há os de 2025, também há dos anos anteriores. Não percebo porque este, não sei, tabu sobre estes números. E sabe-se mais. A DGS deu estes números do ano passado, sabe-se que foram sobretudo pessoas com mais de 75 anos, e sabe-se que em todas as regiões do país morreu gente, e sabe-se que muitas destas pessoas eram pessoas que tinham já outras doenças, porque o calor não mata por si, apesar de poder haver episódios de calor que matam, mas regra geral, são sempre pessoas que têm outras doenças, normalmente são doenças ou respiratórias, ou ligadas ao coração, ou pessoas que tenham tendências a ter AVCs, nestes episódios de calor acontece isso. E foram dados estes números: pessoas acima de 75 anos, em todo o país, 1300 e qualquer coisa que morreram em 2025, naquela onda de calor que começou no último dia de julho e acabou só dia 15 de agosto. E por isso eu não percebo por que não dizem isto. E sim, nós devíamos aprender com estes erros. Com os incêndios de 2017, dissemos que tínhamos aprendido, não aprendemos nada e não achamos erro. E agora eu não consigo entender porque se houver algum erro em relação a tudo o que vem aí. É fácil, estão previstas as temperaturas máximas para cada zona do país. Já há avisos vermelhos para Lisboa, Setúbal e depois para Leiria e Coimbra no dia a seguir. E para o fim de semana, o IPMA diz que vai aumentar. Hoje houve uma conferência conjunta com a DGS, com a Direção Executiva do SNS, com o Instituto Ricardo Jorge, com o INEM, com a Proteção Civil, todos se mostraram apostos. Todas as novas tendências dizem para se estudar estes fenómenos todos em conjunto, porque um provoca o outro, que provoca o outro, que provoca o outro e sempre numa rodinha. Nas redes sociais, há pouco, para ver aqui umas coisas, entrei e está cheia destes avisos. Os níveis de prontidão subiram em todos os índices, portanto, há essas indicações de que falaste, os sistemas de refrigeração, os lares, as creches. Portanto, agora só quero ver para perceber se aprendemos, de facto, a lição.
Confias-
Em quê?
…que está tudo preparado?
Não.
A minha pergunta é tendenciosa.
Não confio isso. Mas tem a ver exatamente com aquilo que eu queria dizer. Antes, deixa-me fazer uma declaração de interesses. Eu gosto muito de calor.
Sim, também.
Eu estava farto de chuva e frio.
Também.
Eu também, estamos aqui o time TMS.
Portanto, a mim não me ouvirão queixar de excesso de calor, mas obviamente que isto tem consequências e pressupõe alguma preparação. Eu acho que há um problema, como em muitas outras áreas do país, é um problema estrutural. O país não está nem preparado para o frio, nem preparado para o calor. Nós somos um país com alguma tradição de clima ameno e, portanto, nem a nossa construção, e temos esse debate durante o inverno, todos os invernos temos esse debate, que a nossa construção não está preparada para o frio.
Vai ser tema amanhã no Contracorrente.
Ainda há muita gente em Portugal a sofrer de pobreza energética precisamente por isso, mas depois também não está preparado para o calor extremo. As temperaturas que se vão registar nos próximos dias e que a Filomena acabou de enunciar, são temperaturas anormais para um país como Portugal, são temperaturas absolutamente normais para países do Golfo ou para países do Medio Oriente, onde às 11 da noite podem estar 43, 44 graus. E isso não faz com que as pessoas estejam todas em casa e ninguém saia à rua. Fazem com que o país esteja mais bem preparado para essas circunstâncias, porque esse tipo de clima é normal nesse tipo de país e, portanto, se no caso do frio, eu acho que nós já podíamos estar num outro patamar, no caso do calor, eu acho que nós temos que começar também a preparar-nos para estes fenómenos, porque eles são imprevisíveis. As alterações climáticas fazem com que comece a ser cada vez mais difícil de antecipar o que aí vem, seja frio, seja calor, seja tempestades de vento, enfim, temporais. E, portanto, eu acho que há um trabalho que o Estado tem a fazer, que não passa apenas por emitir alertas ou dizer: “Atenção, tenham cuidado e ponham-se ao fresco”. Há aqui uma lição que me parece que o governo aprendeu com a tempestade Cristina. É que aquilo que a Filomena dizia, que a ministra está a falar desde segunda-feira, é a prova evidente que o governo, pelo menos ao nível da comunicação, está a tentar ter uma postura diferente daquela que teve na tempestade Cristina. Se o resultado final vai ser diferente, eu tenho a maior das dúvidas. Obviamente, espero não será tão catastrófico como foi o da tempestade Cristina, mas no sentido de conseguir evitar mortes que resultem deste calor extremo, ou conseguir evitar que muita gente acabe por sofrer de alguns problemas provocados pelo calor. Eu tenho dúvidas que isso seja possível sequer de evitar, honestamente, seja com este governo ou com outro qualquer. Mas parece-me que do ponto de vista de comunicação política, há aqui uma preocupação do governo em estar muito mais presente no espaço público, de pôr as entidades responsáveis também muito mais presentes no espaço público para pelo menos não ser acusado de ter ignorado ou ter passado ao lado ou não ter avisado a população. E depois, aquilo que me preocupa, sem desvalorizar, obviamente, todas as consequências que já falámos, e termino com isto, aquilo que me preocupa ainda mais, tem a ver com o risco de incêndio.
Exatamente.
E tem a ver com o risco de incêndio, porque não é preciso em Portugal chegarmos aos 47 graus para nós termos incêndios e sabemos disso perfeitamente. Preocupa-me, sobretudo na região Centro, porque conheço bem o terreno, sei que há uma vastíssima área que não está limpa. Piora, há zonas do território onde ainda nem sequer é possível chegar lá. Não é possível, porque a queda de árvores e a queda de vegetação é tão grande que há terrenos aos quais os proprietários nem sequer conseguiram ir lá e ver como é que está o terreno deles. E preocupa-me, em terceiro lugar, porque eu percebo que tenha que haver um prazo para limpeza das matas. Acho que foi positivo haver incentivos financeiros para que as pessoas limpem as matas, mas eu até acho que foi no Vencedor esta semana que eu vi esse debate, nem sei se não era também com o Alexandre, em que vocês estavam a falar exatamente da-
Com a Helena Garrido, sim.
Com a Helena Garrido. E estavam a falar até das câmaras e da incapacidade que as câmaras têm em limpar. E eu estava a ouvi-los e estava a me lembrar de um pequeno grande pormenor: não há gente. Não há gente para limpar. Mesmo que haja dinheiro para pagar, não há gente para limpar. E, portanto, vocês devem compreender bem que se uma pessoa com 80 anos ou com mais de 80 anos, sozinha, dificilmente consegue limpar a quantidade de matéria combustível que está neste momento nos terrenos, imagine onde é que ela vai contratar, mesmo que o Estado diga: “Olhe, tem aqui 1.500 € contrata alguém para limpar.” Mas quem? Contrata quem?
Alexandre, ainda não te ouvimos sobre o teu grau de confiança na preparação das autoridades nacionais para lidar com a onda de calor que aí vai.
Eu não sei se nós estamos preparados para a normalidade, quanto mais para as emergências, particularmente na saúde, mas queremos todos crer que sim. Mas olhando para todos os avisos, as autoridades têm que fazer isto, mas o que a gente ouve não é nada de muito diferente do que aprendemos desde crianças. Bebe muita água.
Não tenhas pressa.
Não te ponhas ao sol nas horas do calor, usa um chapéu. Cuidado com as pessoas mais frágeis, é evidente. Ainda há pouquinho o primeiro-ministro era questionado sobre isto e dizia: “O governo está a fazer tudo para preparar esta onda de calor. Ainda agora estamos a mandar uma mensagem.” Pronto, vai daqui e de facto acho que mais do que para lá das tempestades de janeiro, eu penso que tem sido o comportamento das autoridades em Portugal, mais ou menos desde 2017, e bem, nesse sentido, isto é, a ideia dos avisos da proteção civil que recebemos nos nossos telemóveis, vem sobretudo desde esse ano catastrófico de colapso e em boa medida, de colapso de confiança das pessoas nas instituições. E bem, só que depois parece cair no reverso. Não sei se por culpa das autoridades, nossa, endêmica, e tendo mais para a segunda opção, que é a gente depois diz: “Elas exageram. Olha lá, alerta amarelo outra vez e está este calor normal ou laranja”. E portanto, nós tendemos muito rapidamente a relativizar todos esses alertas. Portanto, olhando para o que nos espera nestes dias de 44 de máxima, de mínimas, sobretudo, muito altas.
Muito quentes à noite.
Dos 20 e tal graus à noite, em que não haverá essa umidade, os solos não vão recuperar, não vão se refrescar.
As casas não vão arrefecer.
As casas também não. É de esperar, um, que as pessoas oiçam os conselhos e infelizmente nós vemos como todos os anos, particularmente os incêndios, são percentualmente e fundamentalmente causados por negligência humana. Apesar de todos os avisos, isso persiste, espero que não este ano, e esperar que o SIRESP funcione, sobretudo porque tem uma nova direção e precisamos todos que tenha a confiança, que seja mistadora da confiança das pessoas.
Na manhã derreteram os semáforos.
Deus do céu! E que estes abrigos, por exemplo, que foram pedidos e que parece uma boa ideia pedir que cada autarquia assegure que existe um abrigo, um local fresco, pelo menos um por autarquia, para onde as pessoas possam ir em caso de emergência, para que esse pedido, de facto, seja correspondido. E cá estaremos para ver se é correspondido. Há dias, só uma pequena nota, chamava para atenção isto o Pedro Candeias no Público, a questão das casas estarem preparadas. Para lá dos problemas estruturais que falava o Anselmo, no caso concreto português, da ineficiência energética que é conhecida, há um caso global a nível europeu e que tem a ver com o facto de não estar preparada para o que as alterações climáticas aparentemente já trouxeram, que é: nos Estados Unidos, 90% das casas têm ar-condicionado. Na Europa são 20%. É inacreditável a diferença. Num continente rico. Isso tem que mudar drasticamente. Imagine-se o que é uma solução simples no reflexo que tem nas consequências para a saúde, o que é ou não sofrer de calor uma pessoa que está em sua casa, particularmente um idoso. Portanto, é isto.
Vamos falar de algo mais alegre, Alexandre. De dinheiro.
Vamos falar de dinheiro.
Pessoas que não ligam ao dinheiro.
Não ligam, desprendidas. Não estão cá.
Queres dizermos quem é?
Não estão cá com materialismos. Eu estava a ouvir o José Sócrates. É claro que já foi notícia na segunda-feira a condenação do Estado português a pagar uma indemnização de 15 mil € a José Sócrates por não ter observado o segredo de justiça, julgo que é isto que é dito no acórdão. Mas ontem aconteceu o dado mais estimulante, que é o José Sócrates a responder aos jornalistas sobre este assunto. Está a falar, de repente, a jornalista da RTP diz: “Sr. engenheiro, desculpe, agora estamos em direto para o RTP notícias, mas diga lá, então o senhor pediu mais de 200 mil €, só recebeu 15 mil, acha que se fez justiça?” E José Sócrates diz com o ar mais, falta-me o adjetivo, mas sobranceiro, não sei.
Blasé.
Mais blasé, diz: “Mas você acha que isto é sobre dinheiro? Mas você acha que eu estou preocupado com dinheiro?” E isto, no mínimo, dá T-shirts.
Eu tenho um hashtag com os amigos, que é #dinheiroNãoÉProblema.
É isso, vai passar a ser este.
#dinheiroNãoÉProblema.
Temos que criar uma figura como a do Che Guevara, monocromática, “Hasta la victoria siempre”. O Obama com o “Yes, We Can”. E o rosto do Sócrates a dizer: “Mas você acha que eu estou preocupado com dinheiro?” Pronto, é isto. Eu acho que ele, de facto, não está, achamos todos, e isso é que é preocupante. Dá muitos anos. Porque é estranho que o José Sócrates não esteja preocupado com o dinheiro em tudo isto, quando aparentemente, durante anos, segundo ele, fez despesas acima daquele que era o seu rendimento, porque tinha uma mãe rica. Depois precisou-se que a mãe, pronto, tinha um T1 aqui, uma cave ali, umas posses, mas não era… Depois tinha o melhor amigo do mundo, aquele amigo com que nós sonhamos, Carlos Santos Silva, que entre outras coisas, dava
Toma lá € 1.500 ao advogado, ao homenzinho, e vai comprar livros do meu amigo. Todos os exemplares do mesmo, não era a obra extensa e variada do José Sócrates.
Ou seja, é mesmo amigo, porque não é aquela coisa do: “Agora não vais gastar isto tudo em álcool.” Gasta em livros.
Gasta em livros. Exato, educa. Os livros vão-te levar mais longe. Descobrimos ainda recentemente que José Sócrates pediu um parecer jurídico pelo qual pagou meio milhão de euros, mas que foi o primo que pagou, primo que calha também ser arguido na operação Marquês.
Detalhes.
Detalhes. Portanto, efetivamente, parece que o José Sócrates não está realmente preocupado com o dinheiro, mas isso é que é muito estranho. E é estranho porque ele, ao fim destes anos todos, parece ainda não ter percebido que esse é justamente o problema.
Queres dar alguma nota ao desprendimento?
20. Ao desprendimento dou 20. Estou de mãos largas.
Estou a pedir uma classificação, não notas de 20. Não é notas de 20 que eu estou a falar.
Acho que também deve interessar pouco.
Filomena, queres acrescentar alguma moedinha a isto?
Vou acrescentar algumas, porque aqui a pergunta é: Sócrates ganhou ou perdeu? E eu acho que há uma tendência para simplificar as decisões da Justiça nestes casos midiáticos, com títulos de impacto. E eu acho que temos que ser bem rigorosos. José Sócrates pediu mais de 205 mil ao Estado, recebeu apenas 15 mil, portanto, perdeu quase tudo. O tribunal não lhe deu razão quanto ao alegado atraso na Justiça, não reconheceu a maior parte dos prejuízos que ele invocava neste apêndice daquilo que verdadeiramente interessa, que é a decisão sobre os crimes que alegadamente terá cometido. Mas também é preciso sublinhar outra coisa: Sócrates está para já a ganhar num ponto muito importante, que é: um tribunal português condenou pela primeira vez o Estado por não ter protegido devidamente o segredo de Justiça num processo desta dimensão. Não é uma vitória total, como disse, estamos num pequeno atalho do processo, mas é uma vitória importante, porque pela primeira vez o Estado é confrontado com as suas responsabilidades e é condenado por não proteger o segredo que deveria ser o principal guardião.
Desculpe interromper, só Filomena, para te perguntar. Ou seja, ele disse isso, de facto, mas eu fiquei sem a certeza se foi realmente a primeira vez, porque o Luís Nouga Guedes, até na peça do Luís Rosa no Observador, refere isso, que o Luís Nouga Guedes, em 2014, durante as buscas ao escritório dele, teve as câmaras de televisão a entrarem por lá dentro ao mesmo tempo. E o Estado também foi condenado, acho que foi num valor inferior.
E acho que depois recorreu.
E ganhou o Estado?
Tenho essa ideia. Portanto, eu acho que isto não é uma vitória total, mas estamos nesse pequeno atalho do processo, mas é uma vitória importante por causa disso. E há aqui também um pormenor que eu acho muito importante, que é que a sentença refere-se àquele período inicial da investigação, quando o processo estava em segredo de Justiça interno, e nessa fase o acesso aos autos era extremamente limitado, restringia-se apenas aos órgãos do Estado envolvidos na investigação, portanto, o Ministério Público, os juízes de instrução, os órgãos de polícia criminal e algumas entidades públicas que colaboravam no inquérito. Os advogados de defesa ainda nem sequer lhe tinham tocado. E é por isso que a juíza conclui que as fugas de informação só podiam ter tido origem no interior da investigação. Depois, se já tivessem tido acesso os advogados de defesa, essa conclusão já não podia ser retirada. E, portanto, gostemos ou não de ter notícias que são do interesse público lá dentro, isto é significativo.
Queres dar uma nota, Filomena?
Se queres que eu vá para o dinheiro. Mas acha que eu estou preocupado com o dinheiro? Isto é socraticamente, uma expressão socrática. Havia, desde o início do processo, aquela expressão fantástica que era: quem cabras não tem, cabritos vende.
Quem cabritos vende, cabras não tem, de algum lado vem.
Portanto, o dinheiro do Sócrates, como dizia, é um dos grandes mistérios deste caso todo. De facto, ele paga a estes senhores que o defenderam no tribunal europeu e tem pago aos não sei quantos advogados, não sei quantos recursos e tudo isto, não sei de onde, porque é o amigo, é o primo, era o dinheiro que tinha na caixa, mas nunca ninguém soube quem era, é as subvenções vitalícias das quais agora precisa, porque é o rendimento que tem, é o único. E nós não sabemos, de facto, que dinheiro é este.
E já que estamos a falar de dinheiro, o Anselmo quer falar de Mário Centeno e Miranda Sarmento. Que grande ligação.
Não é?
Mas depois eu dou nota a quê? Queres que eu dê nota ao Sócrates?
Ainda não deste a nota. Diz lá.
Dos € 15 mil ficam € 1,5 mil. Penso eu, uma vírgula assim.
Um e meio. Está dado.
Também com isso ele não paga advogado nenhum, vou te dizer.
Ele não paga nunca.
Isso não sabemos. Há várias formas de pagar. Para falar rapidamente do queijo pecorino com trufa, não sei se já provaram. Que é quase uma metáfora, acho eu, do que se passa com o Partido Socialista neste momento. Mário Centeno foi às jornadas parlamentares do Partido Socialista dizer que não concorda com as políticas do Partido Socialista, o que só demonstra que o Partido Socialista é, de facto, um partido plural, democrático, e houve vozes, mesmo aquelas que não concordam com a linha seguida pela sua direção. Apesar de ser um bocadinho estranho, porque Mário Centeno está e integra este comitê, esta task force, não sei como é que se chama, que José Luís Carneiro formou para apresentar ou para organizar o programa económico do Partido Socialista. Portanto, eu gostava de ser mosca para estar lá dentro a assistir àquelas conversas, deve ser maravilhoso. E isto a propósito do IVA zero. E sobretudo a propósito daquilo que me parece ser neste momento alguma desorientação ou, se quiserem, uma espécie de crise de identidade que o Partido Socialista está a atravessar. Eu primeiro concordo com Mário Centeno e já agora com Susana Peralta, que também na mesma conversa se manifestou contra esta medida do IVA zero por achar que ela não é eficaz e sobretudo é perversa. Mas mais do que isso, eu não consigo entender como é que José Luís Carneiro, percebendo o foco de José Luís Carneiro no nível de vida e no custo de vida neste momento, a forma de fazer a oposição do José Luís Carneiro está muito focada nesse tema, e eu acho que é um tema importante e é um tema que de fato cabe ao líder da oposição puxar. Na dimensão em que José Luís Carneiro tem que apresentar uma proposta, tem que apresentar uma alternativa, o José Luís Carneiro insiste nesta questão do IVA zero, que está demonstrado à evidência que não funciona. E agora foi lá um ex-ministro das Finanças do Partido Socialista explicar a José Luís Carneiro que não funciona. E mesmo assim, José Luís Carneiro insiste nisto. Acho que isto tem dois problemas. Primeiro, é curto como proposta. Achar que alguém no país pensa que colocando o IVA dos produtos alimentares a zero vai resolver o problema da subida do custo de vida é estar completamente iludido em relação à realidade. E em segundo lugar, eu acho, de fato, que o Partido Socialista tem que perceber de uma vez por todas, já agora, tem que cumprir a promessa que fez quando teve a última derrota eleitoral. O Partido Socialista prometeu ao país que ia fazer uma reflexão profunda sobre as causas daquela derrota e prometeu ao país que se ia apresentar de forma renovada e com um projeto novo político para o país. Onde é que ele está passado este tempo todo? Onde é que está nesta comissão que José Luís Carneiro criou? Onde é que está nas propostas que José Luís Carneiro tem apresentado? Onde é que está esse projeto político renovado? Porque a única coisa que eu vejo é um projeto político requentado, que tenta andar no equilibrismo político permanente para não deitar fora a herança da governação do Partido Socialista e para conseguir trazer algumas vozes novas para dentro do partido. Eu sei que José Luís Carneiro está muito endofecido com as sondagens. Eu sei que ele está muito convencido que é o seu espetacular desempenho que o está a colocar em primeiro lugar neste momento nas sondagens, mas eu tenho uma má notícia para José Luís Carneiro. Estas sondagens dizem mais sobre a má performance do governo do que propriamente da boa performance do Partido Socialista.
E onde é que está a tua nota?
A minha nota neste momento, vou fazer ao contrário. Vou dar a Mário Centeno, que apesar de tudo, eu acho que teve alguma coragem em fazer aquilo que fez e, portanto, vou lhe dar um 12 por ter tido a coragem de ir às jornadas parlamentares do Partido Socialista explicar e fazer-lhes um desenho sobre uma coisa que eu achava que o Partido Socialista já devia ter abandonado há muito tempo.
E amanhã há mais e o vencedor é pela manhã, depois das 08h30.
Cá estarei










