CIÊNCIA

Alexandre Pitta de Abreu: “A dieta equilibrada retira a n…


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A nutrição do futuro tem que ter conveniência, tem que ser conveniente, formatos convenientes, tem que ter sabor, porque senão há uma porcentagem muito pequena das pessoas que compram pelo tema da sustentabilidade. E vamos ser muito claros.
Sim, claro. Eu percebo isso.
Se não tem sabor.
É verdade. Eu ligo imenso a isso.
Portanto, é super relevante não só aliar a ciência, mas também à indulgência, ao sabor, ao prazer de consumir.
Suplementos alimentares. Eis um setor que há anos está em franco crescimento em todo o mundo ocidental, sem sinais de abrandamento. Só em Portugal, onde metade da população os consome, nos primeiros nove meses do ano passado, as vendas ultrapassaram 223 milhões de euros. E só nas farmácias, sem contar com o mercado online. Alexandre Pita de Abreu é gestor, consultor, coach e mentor, mas tem também um lado empreendedor que o levou, depois de uma espécie de epifania num trekking nos Himalaias, a fundar, em plena pandemia, a Batterii, com dois Es, uma startup portuguesa de biotecnologia dedicada ao desenvolvimento de soluções nutricionais 100% vegetais, com base científica, pensadas para ajudar as pessoas a sentirem-se e a funcionarem melhor. Olá, Alexandre, e bem-hajas por teres aceitado o meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Eu é que agradeço, é um prazer estar aqui.
Não é a tua estreia na rádio, mas quase.
É.
Digamos que chegaste ao topo de carreira. Muito bem, já uma semana antes do Natal, acolhi aqui o Tiago Ferreira, da Supleni, também um bocadinho a falar deste tema, que é uma coisa muito curiosa. Tu, só para situar-te aqui no teu percurso académico, estudaste num colégio maravilhoso, São João de Brito, onde tu dizes: “Aprendi a servir”. É bonitinho, porque é o lema do colégio, educar para servir, os jesuítas. Tem alguns valores importantes que tu lembras que tenha vindo dessa formação?
Sem dúvida. A começar por aquilo que é o chavão do colégio, de educar para servir. Claramente, procuro pautar toda a minha vida pessoal, familiar e profissional com essa diretriz, porque para mim é a única forma de estar na vida. E outros valores como camaradagem, o esforço, o rigor, a procura pela verdade, seja ela mais espiritual ou mais científica.
Que eu sei que é uma coisa que te atrai muito, e gostas muito dessas coisas, também dessas leituras. Procura da verdade é uma coisa que tu– és um homem inquieto, em geral.
Não diria inquieto, mas mais curioso e com muita vontade de ser melhor e melhor todos os dias.
Gostas de fazer perguntas e aprender com os outros. Percebo que viajas também e gostas.
Sim, gosto muito porque ajuda-me a alargar o meu campo de visão, literalmente. E é dessa forma que acho que me enriqueço e que de alguma forma posso refletir essa riqueza nos outros.
Tu divulgas, também gostas de espiritualidade, o que é curioso. E tudo que é, como tu dizes, ou tudo que parece ser alternativo. Na espiritualidade, também, isto tem a ver com New Age e coisas dessas novas, ou meditação.
Não gosto de colocar muito chavões New Age ou o caminho A, o caminho B. Eu acho que cada um tem que encontrar o seu caminho.
A sua verdade.
Exatamente, o seu caminho. E sempre com muita humildade e com muito sentido de abertura, sem dogmas. Eu acho que tem que fazer sentido, e o sentir é o barômetro ou o termômetro ou o instrumento que entendermos que nos vai permitir, no fundo, dando passo a passo.
A emoção também pode nos guiar um bocadinho nesse caminho.
As emoções, claramente. Eu acho que sentir, ou seja, a parte da intenção do pensamento sem a emoção, acho que é uma visão coxa da vida.
Tem uma lacuna aí, claro.
É, claramente.
Foste depois para o técnico, outra grande escola, tirar Engenharia do Território, e aí tu dizes: “Aprendi a olhar para as cidades, para a mobilidade, para os sistemas, para as pessoas”. Temas que te acompanharam toda a tua vida. Esta Engenharia do Território serve um bocadinho para quê? Para programas de transportes, ordenamento de território, planeamento, mobilidade, é mais isso?
Sim, eu sabia que gostaria de seguir uma engenharia, mas as engenharias ditas mais tradicionais nunca foram aquelas que me seduziram.
Ok.
No final dos anos 90, meados dos anos 90, foram surgindo cursos novos no âmbito das engenharias, nomeadamente Engenharia do Ambiente, Gestão Industrial, Território, que me pareceram ser todos cursos mais adaptados e mais ajustados a uma nova realidade, ao desenvolvimento da sociedade, da economia, do planeta em geral. E acho que fui seduzido, sobretudo, pelo ecletismo, pela diversidade curricular que estes novos cursos estavam a apresentar. E eu acho que foi isso que me atraiu. No fundo, a diversidade, não aprofundar demasiado uma determinada área de conhecimento, mas alargar.
Não especializar. Exatamente.
E a partir daí, fazendo–
É uma coisa que eu acho a grande vantagem das engenharias. Olha, eu passei pela Engenharia Civil, mas já a própria Engenharia Civil, que é uma das tradicionais, para mim, tem isso, porque estávamos em arquitetura e economia e direito. O pensamento científico, isso eu nunca perdi, porque fui usando mesmo no jornalismo, fomos usando isso, essa abertura de horizontes e de temas que a engenharia permite, de fato, porque não é muito especializada só construir casas.
Exatamente.
A formação passa por isso, que é muito curioso. Tu começaste logo a trabalhar no técnico, no Centro de Sistemas Urbanos e Regionais E depois foste para a BCG. Portanto, oito anos estiveste nesta Boston Consulting Group. Estive cá ainda há pouco tempo, o Carlos Eleve e o Tiago Marques também, dois convidados que passaram por lá também, a fazerem tudo. Tiago Marques, que hoje é investigador de inteligência artificial e ótica na Fundação Champalimaud, fez na BCG sistemas de remoção do lixo no Rio de Janeiro, este género de coisas. No fundo, também é muito vasto este campo para ajudar os outros também, é muito giro.
Sim.
É uma grande escola também.
Sim, eu fui abordado enquanto estava no técnico e de gestão sabia o básico do que era fazer gestão, mas na realidade fui desafiado e fui por curiosidade a algumas entrevistas e dessas entrevistas surgiu uma proposta e depois dias e dias foram passando, experiências, projetos, os mais diversos, sejam em mídia, comunicações, energia.
Entidades, energias, entretenimento, até.
E sobretudo, acho que aquilo que é interessante aqui é, mais uma vez, seguindo a lógica do técnico, é a diversidade de exposição, de desafios e de questões que são colocadas num contexto, neste caso, de consultoria. E acho que isso me mantém vivo e desafia toda a parte intelectual, que é algo que me interessa e sempre me interessou, a performance intelectual.
Exatamente. E talvez é um reflexo disso. Tu estás sempre a dizer isso. Saúde e saúde mental, é impossível dissociar a parte de performance física, mas também tem a ver com o sono e com o relaxamento, com tudo isso. E esses suplementos também têm a ver com esse vasto programa.
E eu acho que aí foi o princípio. No fundo, nós estudamos e achamos que temos uma vida que é um horror, e que temos que ser muito competentes, etc. Mas também nos divertimos brutalmente, mas o corpo e a mente aguentam. À medida que vamos avançando e vamos ganhando responsabilidades, e a idade também vai avançando, de facto, foi aí que eu comecei a sentir que o impacto das minhas decisões, do meu estilo de vida, seja na alimentação, seja nas horas de sono, seja na qualidade das interações e no equilíbrio entre casa e trabalho, que me começaram a fazer refletir.
E também o pai. Acrescento logo outra dimensão importante, essa dádiva e esse serviço, obviamente. Estes oito anos que estiveste na BCG, uma altura em que tu decidiste largar tudo e tu arrumaste ao voluntariado para a Tanzânia, depois Índia e depois Nepal. Isto te veio de algum estresse, algum burnout? Estou um bocadinho infarto, a ista, podia-se me pendurar o fato.
Não diria burnout, porque nunca fui diagnosticado dessa forma, mas claramente senti que tinha chegado o momento, na altura da minha vida, em que profissionalmente eu deveria e queria fazer algo mais. E, portanto, decidi fazer uma pausa para refletir. E essa reflexição passou, entre outras coisas, por procurar aprofundar temas pessoais, seja mais ligados a coaching ou à espiritualidade, ou a conhecer o mundo e a conhecer outras culturas num contexto não de turismo, mas num contexto verdadeiramente de aprendizagem.
E de colaboração, de ser voluntariado nesse aspecto.
Sim, também.
Esta coisa do trust fund ligado à Tanzânia, aos produtores do chá. Descobriste pela net, fizeste uma pesquisa na net?
Não, foi através da rede da BCG que havia a possibilidade de fazer uma ligação, neste caso, com uma ONG americana que estava à procura de perfis como o meu para desenvolver e apoiar, do ponto de vista de negócio, um trust fund que geria a recolha de produto, matéria-prima de 14, 15 mil pequenos agricultores de chá.
Na Tanzânia, extraordinário. Seis meses não é tão pouco como isso, mas foi bastante uma experiência.
Sim, foi.
Estavas solteiro na altura, ainda?
Não, eu namoro há cerca de 30 anos.
Curto, mas intenso. Já viajava contigo nessa altura.
Sim, e sempre tivemos essa cumplicidade e essa abertura para podermos fazer as nossas coisas individuais e foi supertranquilo e continuamos sempre com esse mindset em tudo que fazemos e também na educação que passamos à Inês. E surgiu um bocadinho dessa forma. E a Tanzânia foi porque a única coisa que tinha dito: “Eu não quero ir para uma capital ou para um sítio”, digamos assim.
Urbano.
Mais urbano, queria mesmo mudar os chips, mudar mesmo o contexto.
E foste mudar completamente. Despertaste para este setor social, não é? Terceiro setor. Este teu lado empreendedor também vem desde pequenino? Sempre gostaste muito de organizar coisas, vender coisas, vendias limonada à porta de casa.
Não.
Davas espetáculos em casa e cobravas bilhetes, este género de coisas.
Não.
Mas tu dizes que tens sempre este lado, gostas desse lado de criar um negócio, não é?
De criar. A criação pode materializar-se de várias formas. No caso das empresas, materializa-se da criação de algo. Eu costumo dizer que a empresa que fundei há seis anos, a Battery, mais do que uma empresa, ou mais do que uma empresa de biotecnologia, é Uma empresa que procura dar uma melhor solução nutricional ao cidadão comum. É isso que nos motiva.
É isso que te move, a questão de podermos escolher. Escolher para melhorar sempre. Daí Better & Better, daí o nome.
Exatamente.
Que é uma ideia muito boa. Então lá vais tu muitas vezes com o mochila às costas, com a Rita, andaram a passear a Europa. Não mencionaste nenhum país, eu perguntei talvez que viagem mais curiosa que tivesses feito. Conheces bastante a Europa, mas é tudo igual, não vale a pena falar muito.
Não é tudo igual, acho que é bastante diverso, mas digamos que é aquela que é a nossa realidade mais próxima.
Preocupe-te mais a Namíbia ou este género de destinos.
Sim.
O Chile, o Belize.
São muito diferentes esses contextos. Mas sempre com muita humildade e curiosidade no sentido de pensar o que vou aprender, como é que eu vou crescer e aprender mais com o contexto em que estou a experienciar e viver.
Mas isso é porque tu naturalmente és um homem aberto a isso. Tens o coração aberto a experiências e queres sempre melhorar e sabes que vem pelo contato com o outro.
Eu acho que sim. É a abertura, a colaboração, esta comunicação, sem dúvida, é a única forma que eu concebo de crescer e de me desenvolver. E a Better & Better é precisamente isso. E a Better é numa lógica de apenas uma dimensão, que é a dimensão da alimentação. Porque há muitas outras formas, como o coaching. No fundo, levar o outro e acompanhar o outro a uma melhor versão de si mesmo, que parece que é uma palavra e um chavão que já é muito repetido, mas na realidade é aquilo em que eu acredito, efetivamente. E a alimentação tem um papel tremendo naquilo que é o nosso bem-estar.
Tudo. As relações, o bem-estar mental, tudo. Muito bem, até chegaram aos Himalaias, então, uma experiência de autoconhecimento. Engraçado, para a semana vou receber o Pedro Queiroz outra vez, vai voltar cá. Outro aventureiro solidário, como sabes, ele é aventureiro solidário, e vai cá voltar dia 28, falar daquele livro grande que ele escreveu sobre o Everest. Mas que também estava no Nepal quando foi o terremoto e decidiu que a sua vida tinha de ser isso. “Não posso ir embora para o meu confortozinho, minha zona de conforto em Lisboa, quando está o mundo a ruir à minha volta”. E desde então fez todas estas aventuras que ele tem feito. Tu superaste imensos desafios, só a chegar a este camp base do Kangchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo. De facto, foi uma conquista.
E para quem não tinha qualquer experiência e realidade de preparação física.
E disso tinhas. Tu sempre foste treinar e coisas, ou nem por isso?
Sim, mas há pessoas que têm hábitos tabágicos, que adaptam-se e que conseguem resistir melhor em altitude, porque têm uma maior eficiência.
Viverem correndo menos.
Exato. Têm mais eficiência e, portanto, têm mais força e vão fazendo mais carga cardiovascular, isso sem dúvida. Não tenhamos qualquer dúvida, mas cada corpo é um corpo e eu acho que o futuro da nutrição passa muito por personalização e pelo autoconhecimento de quem procura uma melhor solução nutricional e viver melhor. E eu aí nos Himalaias claramente percebi que…
Aí tiveste de decidir, não ias chegar ao topo daquela montanha e pensaste: “O meu corpo, a minha mente, se calhar, não estão preparados para isto. O que me falta aqui?” E foi aí que nasceu a ideia.
Foi criando e foi se tornando, quase que num quadro impressionista, num quadro realista, foi-se definindo os contornos daquilo que mais tarde vai ser.
Que veio a ser a Better.
Exatamente.
Percebeste que a alimentação determina, de facto, em grande parte, o nosso estado mental e físico. Em outubro de 2021, então, nasce esta Better, muito giro este nome, é com dois E, Better and Better.
Dois E e dois T.
Dois E e dois T, exatamente, uma brincadeira com Battery homófona. Quer dizer, o vosso lema, “Charge a Better Life”, é muito giro a ideia. E, portanto, rendimento físico e mental. Produtos é o vosso ADN, 100% de base vegetal, e aí sim, algo que não existia em Portugal ainda. Aí foram inovadores.
Soluções de base vegetal existiam, não muitas, mas existiam, sempre vindo de empresas ou de companhias que adicionaram essa componente alternativa, vou lhe chamar alternativa, porque na realidade o mainstream é proteínas de base animal, aos seus portefólios. A Better surgiu de um pressuposto de que com 9,2 bilhões de pessoas no planeta. Até 2050, segundo a ONU, podemos chegar aos 10,3, 10,4. Portanto, temos crescimentos absolutamente absurdos. Há formas para poder alimentar e para gerir os ecossistemas de uma forma equilibrada para servir a população. Claramente, uma das vias ou uma das ações é conseguirmos diversificar as nossas fontes de proteína, as nossas fontes de ingestão proteicas, e aí as de base vegetal, que já não eram nicho e que agora estão cada vez mais mainstream, são uma das respostas, e a Better centra-se muito nesta dinâmica. Obviamente, alimentos de uma densidade nutricional maior vão ajudar a alimentar a população, a gestão dos ecossistemas, sem dúvida, mas a Better o que procurou também foi Isto também vai buscar um bocadinho à parte da engenharia, do rigor, da ciência, da quantificação, que é a parte da ciência. A Battery constituiu-se desde o início com o Battery Life Lab, no fundo, que é a nossa marca e o nosso laboratório.
Funciona aqui também no Lagos Parque, aqui em Oeiras?
Não. Universidade Atlântica. Exatamente. Nós começamos o Battery Life Lab dentro das nossas instalações em 2020 e chegamos a um momento muito recentemente em que decidimos dar o passo, que já estava pensado de alguma forma desde a fundação, que era alojar o Battery Life Lab numa instituição de ensino. E é aqui que entra a parceria que fizemos com a Atlântica.
Fábrica da Pólvora?
Fábrica da Pólvora. Sendo um parceiro que está alinhado com a nossa visão da nutrição do futuro.
Onde tem tudo, o ginásio, a zona de treino, digamos assim, a zona de pesquisa.
Sim, o Battery Life Lab tem uma zona de bioquímica, onde fazemos prototipagem dos produtos. Todos os nossos produtos são desenhados, pensados, idealizados e depois prototipados no laboratório. A partir daí, o que nós fazemos é: “Ok, esta é uma ideia que temos aqui um conceito que pode funcionar, mas será que funciona no corpo?”
E depois tem que fazer testes humanos também, não é?
Exatamente. E portanto, fazemos ensaios clínicos, muito à semelhança de uma empresa farmacêutica. Por quê? Porque a ciência para nós, a evidência e o impacto real daquilo que nós-
Isto também está no vosso ADN
…é absolutamente essencial. Portanto, eu estar a comer, entre aspas, farinha, ou um produto que pode ter um marketing fantástico, mas que depois não dá o rendimento, é a mesma coisa do que estar a defraudar a expectativa do consumidor.
Alexandre Pita de Abreu, temos que fazer aqui um curvíssimo intervalo. Já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Alexandre Pita de Abreu, ele é o CEO da Battery, uma startup portuguesa de biotecnologia dedicada ao desenvolvimento de soluções nutricionais 100% vegetais, que está a revolucionar o mercado. É engraçado, nasceu então esta Battery com base nesta tua pesquisa. Aliás, diz este sócio, o Filipe Teixeira, que é doutorado em nutrição e fisiologia do exercício, ajudou-te nisso.
Ajudou e ajuda.
E ajuda, sim. Tu foi em conversa com ele numa consulta de nutrição, aliás, que se falou nisso, não é? E tu procuraste uma marca baseada na ciência, que tivesse impacto na performance física e mental. É um bocado uma linha de alimentação saudável, digamos assim. Nasceu então nesta pandemia, tu tinhas esta noção que nós podemos sempre fazer melhores escolhas, independentemente do ponto onde nos encontramos. Isto é importante porque o teu target não é só os atletas de alta competição, é toda a gente. Apostam em dois pilares de diferenciação, este de se tornarem especialistas nessas soluções nutricionais de base vegetal e ligados, como tu disseste agora, ao conhecimento, à ciência. Estavas um bocadinho consciente ao optar por esta base vegetal, um bocadinho também pela tua preocupação ambiental e alterações climáticas e tudo. Vamos ajudar o planeta e a pecuária, de facto, tudo o que é procurar a proteína animal. É engraçado, explicaste há bocado, o whey, por exemplo, é sempre de proteína de leite, portanto, não é uma coisa vegan.
Exato.
Não pode ser considerada. Vocês têm aveias funcionais, mas nunca poderão chamar whey, como aquelas bebidas de soja, não pode ser leite de soja como havia até agora.
Tudo de base vegetal.
Que eu acho que é o vosso ADN.
Em parte, foi uma oportunidade que nós identificamos quando estávamos em fase de business planning da ideia. Estar a fazer mais uma marca para ser um mito de marcas que já fazem e vendem soluções de base animal, não faria muito sentido para nós. E num mercado em particular, o português, que é extremamente exíguo. Era quase dizer assim, votar aqui em mais uma empresa de suplementos ou de bens alimentares.
O nosso mercado também é pequeno. Vocês apostaram logo desde o início na internacionalização por causa disso, porque nós não damos vazão.
Sim.
Para se tornar interessante a nível de negócio.
O nosso mercado é muito pequeno, passa muito tempo em promoção, é uma das características.
Mas consumimos muito também, de facto, mesmo para o nosso pequeno mercado.
Sim.
Vendemos milhões de embalagens por ano.
O cabaz de compras do cidadão médio é relativamente baixo, ou seja, a capacidade de poder de compra é baixa.
Vocês apostaram na Amazon, que foi uma boa ideia. Assim chegaram aos alemães, aos ingleses.
Sim, começámos a chegar a outros mercados. Somos uma empresa portuguesa, queríamos começar e estar sediados em Portugal, é o que faz sentido. Mas a ideia é poder escalar e poder continuar a fazer o nosso percurso de internacionalização.
Apostando em novos produtos.
Novos produtos, novos mercados, exatamente. Mas só para complementar, porque acho que é uma ideia que é importante passar, que é a Battery e o laboratório. Isto é o ADN e é o cerne da empresa. E nós desde o início pensamos, e chegou a fase que foi recentemente com a parceria com a Universidade Atlântica, de colocar o laboratório num contexto universitário, que é onde também se produz muito e bom conhecimento e às vezes que não vê a luz do dia.
Para mim, é o que falham muitas empresas de suplementos, não haver essa ligação à academia, e é importante.
Nós sempre tivemos desde o início, só que a academia vinha ter conosco. Nós quisemos ir agora ter com a academia e formalizar esta parceria num instituto que nos dá esse apoio. E eu acho que aqui é importante também dizer que nós somos ainda uma empresa muito pequena, mas não esperamos ser uma empresa grande e rica para então depois devolver à sociedade. E acho que aqui é uma mensagem também que nós queremos fazer de devolver à sociedade, mas sobretudo pôr à disposição a investigadores que estão comprometidos e alunos, o que é que é trabalhar num contexto com equipamentos de ponta e com um contexto de ligação ao privado.
E é engraçado, vocês tinham nascido há um ano e pouco quando foram convidados para ir ao European College of Sport Science, portanto, este congresso, que é o maior a nível de documentação, porque estavam curiosos de ver o que esta empresa portuguesa, “vamos lá ver isto, o que elas fazem”. Foram convidados por eles para gerar o interesse a esta proteína vegetal, que tem tão bons resultados e tão bons ensaios.
Isto é a ciência a funcionar.
Deve ter sido uma honra brutal.
É a ciência a funcionar.
Causar impacto.
O nosso objetivo e a nossa matriz proteica, a BetPro, que é a matriz que nós desenhamos na nossa cabeça num primeiro momento, decidimos depois testá-la efetivamente com atletas profissionais de futsal e fizemos um ensaio clínico. Eu acho que esse ensaio clínico ajudou e chamou a atenção, porque foi um dos primeiros ensaios clínicos que conseguiu demonstrar que há uma equivalência entre a proteína vegetal ou esta proteína animal.
Pois é, e vocês testaram a vossa matriz com a melhor equipa de futsal profissional masculina?
Sim, portanto, fizemos um ensaio clínico independente.
E não encontraram qualquer diferença.
Não vimos diferenças que fossem estatisticamente significativas.
Ganho de massa muscular, perda de massa gorda, tudo isso foi igual.
Desmistificar um bocadinho esta ideia. Para ter resultados, eu tenho que consumir animal, digamos, que tenho que consumir fontes animais. É evidente que as proteínas vegetais são, do ponto de vista do seu bilhete de identidade, do aminograma, mais pobres que as proteínas animais.
As que contestam muito que falta a vitamina B12, o zinco, o ferro Hem. A animal é mais rica em certos micronutrientes. Tem maior densidade proteica, facilita o ganho de massa muscular, maior biodisponibilidade.
E aquilo que nós quisemos fazer foi: “Ok, será que eu consigo combinar diferentes fontes vegetais para mimetizar aquilo que é uma fonte proteica animal?” E a verdade é que, na teoria, nós conseguimos, nós desenhámos, mas depois, na prática, queríamos saber e testar uma coisa. Eu consumir proteína animal, que está amplamente estudada e que tem os seus resultados comprovados, e aqui era tentar perceber: mas será que a biodisponibilidade e a absorção, a perda de massa gorda, o ganho de massa muscular, será que eu com esta proteína consigo? E a verdade é que no ensaio clínico duplamente cego, independente, foi demonstrado efetivamente que não há diferenças. Portanto, temos uma proteína no mercado, somos uma pequena empresa e temos muito orgulho nisso. Uma empresa portuguesa que quer dar cartas no mundo e ter esta possibilidade, no fundo, de escalar o que é esta tecnologia, esta propriedade intelectual portuguesa no mundo.
Neste setor. Podem, de fato, substituir-se as duas, em grande parte, a vegetal e a animal. A diferença é que com a proteína animal é mais simples obter todos os aminoácidos essenciais e com a proteína vegetal é mais importante esta variedade, como tu disseste, o feijão com arroz, o grão com cevada, este tipo de coisas. E de fato, uma dieta 100% vegetal pode ser suficiente, o que nem sempre se diz isso dos vegans, por exemplo, porque quase sempre a B12, por exemplo, vitamina que precisa de suplementação. Então tem algumas coisas que se pode complementar para ficar ainda melhor e mais rica, o zinco, o ferro, o ômega 3, a vitamina D, em muitos casos.
Vamos deixar aqui claro uma coisa. A Betri não procura servir um nicho de vegetarianos ou de veganos. É para o cidadão comum que quer incorporar mais proteína vegetal na sua dieta diária ou semanal.
E fazem questão de dizer que é pra toda a gente, pra todas as fases, seja dormir melhor ou ser mais ativo, ou exercitar ou mais relaxar ou recuperar de um treino.
Exatamente.
E pra toda a gente, não só pra desportistas, isso é importante.
Exatamente, porque se nós queremos ter impacto na sociedade, estar a trabalhar com nichos ou com elites, é minimizar esse impacto. E portanto, queremos ser uma marca democrática, uma marca que consiga tocar nas necessidades reais do cidadão comum. Aqui é importante dizer que nós não somos apologistas de dizer que: “Não, a suplementação é ultra importante, é exigente, é fundamental”. Uma dieta equilibrada e um estilo de vida equilibrado retiram em larguíssima medida a necessidade de suplementação. Nós não estamos aqui a vender, não. “Tem que comprar e consumir”. Não. Vamos ser muito honestos e transparentes nisso. Agora, o que nós sabemos é que a generalidade das pessoas e do cidadão comum não tem um estilo de vida equilibrado. Não tem, é difícil. É cada vez mais difícil as solicitações.
E as horas das refeições.
E a alimentação irem de mãos dadas, portanto, é natural que hajam deficiências. E cada caso é um caso. E, portanto, é importante perceber e ter aconselhamento nutricional rigoroso para percebermos efetivamente o que é que são os objetivos da pessoa, o momento de vida da pessoa, e perceber de que forma é que, neste caso, a Betri pode ser um parceiro, uma solução.
Uma ajuda pra repor.
Não só de suplementação, mas de nutrição.
É uma coisa que eu gosto sempre de explicar aos nossos ouvintes, suplemento e medicamento não são coisas iguais. Suplemento alimentar é uma coisa que existe pra repor níveis de nutrientes, como vitaminas ou minerais, ou proteínas, que possam estar em níveis insuficientes pra garantir o estado de saúde de uma pessoa. Em geral, é de venda livre, também podem ser prescritos. Ao passo que o medicamento é um composto pra modificar mecanismos biológicos e mecanismos moleculares para tratar ou prevenir uma doença. Em geral, é sujeito à prescrição médica. Portanto, os suplementos nunca vão substituir os medicamentos. Estes são químicos, ao passo que causam uma ação rápida no corpo.
Efeitos agudos.
Pronto. Esta é a tua ajuda. A vossa proteína, de fato, é o produto bandeira. Já sei que a vossa matriz é composta de proteína isolada de ervilha.
Extrato de levedura e BCAAs.
E proteína de levedura e alguns BCAAs. Da ideia inicial
Ao estar o produto nas lojas de suplementos.
São muitos cabelos brancos?
Foi muitos anos. Não.
Foi mais rápido do que estavas à espera?
Eu acho que desde o início até ir à prateleira foi um pouco menos de dois anos.
Então é bastante rápido. Boa.
É importante fazer a distinção do medicamento e do suplemento ou do alimento. Nós estamos do lado da prevenção, estamos do lado do acompanhamento do estilo de vida e da preparação para uma vida ativa e um envelhecimento ativo e saudável. O medicamento é quando já há um desequilíbrio tão grande que biologicamente, fisiologicamente, a pessoa necessita de um apoio químico diferente.
Para tratar isso. Para este lançamento foi preciso uns milhões, esta vossa startup. Recorreram a venture capital, neste caso a Flexdeal, que vos avançou uns milhões.
Flexdeal é um parceiro desde o primeiro momento, um sócio-fundador, tal como a Pita do Arreio, e no início foi essencialmente capital próprio.
E foi como o “Shark Tank”, vocês têm que ir mostrar a vossa ideia, fazer um pitch da vossa ideia, e alguém disse: “Sim, eu quero apoiar-vos”.
Não, o meu sócio, Alberto Amaral, da Flexdeal, é alguém que eu também já conhecia antes destas andanças. E, portanto, foi sempre alguém também com quem eu fui trocando umas bolas e batendo umas bolas sobre a possibilidade de um dia criarmos em conjunto um projeto, e esse projeto materializou-se na Be3.
Mas teve que acreditar em ti e nesta ideia, e estudar o assunto. Prepararam isso bem. Olha, isto é uma coisa original.
Claro.
Portuguesa, que há de um dia internacionalizar. Não é fácil arrancar com uma coisa no mercado que já está inundado.
Não é fácil.
O ano passado saíram 33 mil suplementos só em Portugal.
Eu às vezes penso, de facto, que fizemos pouco.
É preciso também este risco e esta sorte.
Fizemos pouco, somos pequenos. Mas ao mesmo tempo acho que não nos damos crédito suficiente a dizer a quantidade de coisas que nós já fizemos. Criámos uma marca, criámos mais de 35 SKUs.
Foi uma das coisas que disse que o impressionou. Essa coisa da marca, uma marca portuguesa que nós fundámos esta marca e vamos levá-la para frente.
Sim.
Ele disse que isso custou, porque muitas vezes encalha-se aí ou demora muito a conquistar.
Aquilo que nós conseguimos em quase quatro anos de vida na prateleira, digamos assim, porque houve um trabalho preparatório antes, é de facto meritório e que resulta de um trabalho conjunto de muitas pessoas. Pessoas essas, muitas continuam conosco, outras que já seguiram.
Vocês não são muitos, pois não? São o quê? 12, 15?
Somos 10 pessoas neste momento, mas num trabalho de muita gente que acredita numa empresa com propósito. Eu acho que aqui é importante, voltando ao início da nossa conversa, de servir. Eu não acredito em empresas cujo objetivo primeiro e último seja o lucro.
Fazer lucro. Exato. Fazer dinheiro.
Tem que ter um sentido para a sociedade, tem que ter um sentido econômico, obviamente, porque eu preciso pagar os impostos, preciso pagar salários, preciso ter o capital para fazer investimento e para fazer crescer a empresa, mas isso só com propósito. Não consigo conceber-
Já falámos disso, do voluntariado, vem dessa tua ideia do servir, do apoiar os outros, do divulgar as coisas que eu sei fazer bem e que acho que posso ajudar. Como ajudaram a mim, eu também posso passar esse exemplo.
Exatamente. E eu acho que temos que, na nossa vida, sendo coerentes do princípio ao fim, tudo que fazemos, aqui a Be3, a empresa, não pode fugir a essa regra. E, portanto, muito claramente, foi e está a ser, obviamente, um desafio. O backstage ninguém vê as dores que são criar uma empresa, gerir uma empresa, equilibrar emocionalmente equipas, gerir desafios com fornecedores. Enfim, isso tem sido também uma mensagem que eu retiro desta minha viagem Be3, deste meu percurso, que é de facto um crescimento brutal do ponto de vista pessoal, o que é este projeto empresarial.
Os produtos que vocês têm, além deste proteína universal da Be3Pro, que você falaste, energy boost de proteína, aveia instantânea ou em flocos. Ainda têm misturas instantâneas para o pequeno-almoço.
Sim.
Cápsulas de bebidas, cápsulas para dormir melhor. Vocês tiveram uma coisa que era uma cápsula estilo Dolce Gusto.
Fizemos, Dolce Gusto.
Que se punha na máquina e saía.
Então a história foi assim: nós nascemos na plena pandemia. Toda a gente não podia ir ao café, o parque de máquinas de café aumentou brutalmente. Fomos pensar: “Como é que a gente consegue fazer um suplemento em cápsula?” E então nasceu aí.
Que tal o energy boost, era isto?
Porta de entrada para a moderna distribuição em criar o suplemento para sono, para relaxamento, para energia, para as 24 horas de vida de uma pessoa que estava confinada em casa.
E com produtos de imunidade também? É uma das vossas áreas.
Imunidade é uma área importante.
Este recovery, este mix vegan, que já não existe, vocês vão lançando coisas.
Ele está em suspenso, em standby. Ou seja, quando encontrar o mercado certo para Portugal, nós não encerramos aí.
Era uma coisa que usávamos na recuperação pós-treino. Este mix de sabor a chocolate. O sabor também é uma coisa que vocês gostam de se distinguir.
Nutrição do futuro tem que ter conveniência, tem que ser conveniente, formatos convenientes, tem que ter sabor, porque senão há uma porcentagem muito pequena das pessoas que compram pelo tema da sustentabilidade. E vamos ser muito claros.
Sim, claro.
Se não tem sabor, epá!
Eu ligo imenso a isso.
E, portanto, é super relevante não só aliar a ciência, mas também à indulgência, ao sabor, ao prazer de consumir.
Claro que sim.
A alimentação, sociologicamente e culturalmente falando, é um fator super relevante e se não tiver sabor, acho que não pega.
É à venda livre, tem nos supermercados normais, Auchans e Rede Galp.
Sim, temos a rede moderna de distribuição, canais de conveniência, canais de especialidade.
Vocês vendem nas Indias, queriam começar uma coisa no Médio Oriente, não sei se avançaram ou não, ou está em negociação.
Estivemos, foi um teste. Neste momento decimos: “Vamos focar os nossos cursos aqui na Península Ibérica e em mercados mais limítrofes”. Agora, o futuro a Deus pertence e vamos ver. Eu acho que aqui é encontrar um bocado esse equilíbrio entre havendo procura e havendo alinhamento, porque é preciso haver alinhamento, as oportunidades surgem.
Eu sei que é pra toda a gente, vocês fazem questão de dizer isso, e já falamos vários produtos que vocês têm, pra que servem, mas ter a Patrícia Mamona também como embaixadora é uma mais-valia.
Tivemo-la como a embaixadora da marca no arranque da companhia. Foi espetacular pra nós ter alguém como ela.
As pessoas vão muito atrás disto, como sabes.
Porque eu acho que ajuda a amplificar a marca e a dar credibilidade àquilo que fazemos. E procuramos chegar a pessoas que acreditam em nós, que acreditam no produto e que acreditam naquilo que estamos a fazer. Sabemos que é um percurso longo.
Última pergunta, uma resposta de 10 segundos. Como é que tu, Alexandre, imaginas o futuro deste mercado? Suplementos cada vez mais personalizados, ligados à genética e ao estilo de vida de cada um, por exemplo? Daqui a 10, 15 anos.
Sim, eu acho que a personalização é uma tendência, mas acho que ainda estamos longe. Eu acho que estamos muito, sobretudo, em que as pessoas consigam entender que o plant-based é uma solução tão boa, ou melhor até em alguns aspectos, do que as soluções tradicionais. E portanto, acho que vai passar muito por aí.
Alexandre Pita de Abreu, quero agradecer muito esta tua disponibilidade em virmos aqui e boa sorte pra este boost criado, no fundo, pra alcançarmos a melhor versão de nós próprios, como tu dizes.
Muito obrigado.
Tudo bem. Bem-hajas. Obrigado.
Obrigado.

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