CIÊNCIA

"EUA e Irão querem demonstração de força em Ormuz"


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais conflitos geopolíticos mundiais. Hoje com a análise da especialista em Relações Internacionais, Madalena Mayer Resende, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Muito boa noite, Madalena Mayer Resende. Vamos começar por falar do Médio Oriente, até porque o Irão diz que Donald Trump se comprometeu a amordaçar Israel e que se tal não acontecer, Teerão vai dar-lhes uma lição. É o que diz a diplomacia iraniana. Tenho duas perguntas sobre este tema, Madalena Mayer Resende. A primeira é: o que é que podemos retirar da expressão “amordaçar” utilizada pelo Irão?
Boa noite. De facto, é uma expressão muito forte, quer dizer mais do que conter Israel. E de facto, eu penso que faz parte de uma certa encenação que o Irão está a fazer à volta destas negociações. Eu penso que está a dizer que Israel é visto como um ator agressivo, que os Estados Unidos têm a responsabilidade direta sobre o seu comportamento e que, de certa maneira, Trump teria assumido uma espécie de compromisso de disciplinar Netanyahu. Portanto, eu acho que o Irão não está a falar para Israel, está a falar para Washington, mas também está a querer, no fundo, transformar esta performance numa forma de influenciar Washington, obviamente. E a segunda questão, quanto à lição, eu penso que não tem assim propriamente algo de novo. Pode ser uma ameaça de retaliação com mísseis, com drones, pressão marítima.
E em que é que isso é diferente, Madalena Mayer Resende, do que o Irão tem vindo a fazer?
Não é muito diferente. Ou seja, o Irão tem vindo a calibrar a sua resposta de forma a tentar manter alguma dissuasão, mas obviamente não tão forte que arraste os Estados Unidos para uma guerra aberta. Portanto, eu acho que estamos aqui num cenário de negociações, por um lado, e de performance por outro.
Vamos avançar, Madalena Mayer Resende, até porque o Irão insiste em manter o controle sobre o Estreito de Ormuz e garante que esse tema é prioritário nas negociações que estão a decorrer com os Estados Unidos. Até que ponto é que ambas as partes, neste caso Teerão e Washington, podem esticar a corda sobre este tema do Estreito de Ormuz e garantir que ela não se parte?
Mais uma vez, penso que os dois lados estão, de facto, a fazer esta tentativa de uma demonstração de força em torno de Ormuz. Os Estados Unidos a dizer que está tudo bem e que as negociações estão a avançar bem, o Irão a pôr areia na engrenagem, mas penso que, de facto, as duas partes não podem esticar a corda indefinidamente. O Irão pode usar Ormuz, como tem usado, como uma alavanca, porque de facto tem nas mãos um dos pontos mais sensíveis da economia mundial, mas tem um claro limite. Não pode fechar Ormuz totalmente, não pode tentar impor um controle exclusivo pela força durante muito tempo e, portanto, está a transformar Ormuz numa carta de negociação. Está a usá-lo como uma carta de negociação, mas tem obviamente muitos dos seus aliados, a China, a fazer pressão para que não se volte a fechar Ormuz. Portanto, esta incerteza que o Irão consegue criar está a ser usada o mais possível, mas obviamente calibrada para que se não volte a um bloqueio. E penso que do lado americano também há alguns limites. Obviamente que Washington pode recusar reconhecer o controle iraniano e estão, de certa maneira, a tentar fazê-lo, mas também não pode empurrar demasiado, porque obviamente a questão dos preços da energia e a proteção dos aliados do Golfo fazem parte de um dos objetivos fundamentais nestas negociações. Portanto, é a questão da ambiguidade que ambos, de certa maneira, têm que jogar, o Irão a reconhecer a sua capacidade de controlar Ormuz, os Estados Unidos a garantir que o estreito não se transforme num asset do Irão sobre a rota internacional.
O que parece certo, Madalena Mayer Resende, é que neste momento as conversas são sobre memorandos de entendimento, fala-se mesmo na possibilidade de se alcançar a paz. Contudo, o secretário do Conselho de Segurança do Irão promete vingança pela morte de Ali Khamenei, o antigo líder do Irão, morto na primeira ronda de ataques de Israel e também dos Estados Unidos. Tudo isto, esta promessa de vingança, não vai contra o que está a ser preparado com o objetivo de alcançar a paz?
De facto, à primeira vista, esta promessa de vingança parece contradizer o discurso da paz. Mas eu penso que isto faz tudo parte um pouco da mesma lógica de negociação iraniana O Irão quer, por um lado, manter aberta a via diplomática e fazer a sua negociação, mas não pode aparecer perante a opinião pública e perante a guarda revolucionária como o regime que aceitou a morte de Khamenei sem resposta. Portanto, há uma separação entre a retórica de vingança, por um lado, e a prática diplomática. E eu penso que esta retórica da vingança da morte de Khamenei serve para preservar a honra e, de certa maneira, é um discurso para dentro do Irão. Portanto, não vejo isto propriamente como uma contradição, é uma estratégia de duas vozes.
Uma estratégia de duas vozes é o que defende aqui Madalena Mayer Resende. Vamos avançar neste “Gabinete de Guerra”, dar destaque também à guerra na Ucrânia, até porque Volodymyr Zelensky pediu à União Europeia sanções a empresas controladas por oligarcas russos. Madalena Mayer Resende, que hipótese há desse pedido de Volodymyr Zelensky avançar?
O primeiro ponto é que há aqui uma distinção entre sancionar os oligarcas, que é politicamente fácil, e que a própria União Europeia já fez, e o pedido de Zelensky, que é mais sensível. Ou seja, imaginemos uma empresa em Dublin. Ele aponta para empresas russas ou controladas por interesses russos que estejam a operar na União Europeia e o argumento do ucraniano é dizer que mesmo quando os oligarcas são sancionados, as estruturas empresariais deles podem continuar a gerar valor para a economia russa. O problema é que na União Europeia estas sanções exigem unanimidade dos 25 Estados-membros, e isto torna qualquer negociação obviamente difícil. Aqueles países onde existem estas empresas com mais frequência estarão, com certeza, mais relutantes. É um passo bastante complexo. Tem que se ter em conta até que ponto é que estas empresas têm, de facto, ligações à Rússia e poderá haver, eventualmente, sanções seletivas contra empresas concretas, se houver, de facto, essas provas de ligação às exportações para a Rússia. Mas é menos provável que haja uma sanção a todas as empresas eventualmente controladas por oligarcas russos. Portanto, eu acho que Zelensky está a tentar fechar uma zona cinzenta das sanções, mas a questão é para a União Europeia se consegue transformar estas suspeitas políticas em provas jurídicas realmente fortes para convencer todos os seus Estados-membros.
Fica para já esse pedido de Volodymyr Zelensky de mais sanções à União Europeia que sejam aplicadas a oligarcas russos. Madalena Mayer Resende, chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado pela sua análise neste “Gabinete de Guerra”. Contou hoje com a análise de Madalena Mayer Resende, é especialista em relações internacionais. Fica por aqui o “Gabinete de Guerra”, está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.

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